Cristina peri rossi enfim ganha vários livros no brasil

Cristina Peri Rossi enfim ganha vários livros no Brasil – 26/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O Brasil começou a saldar uma antiga dívida com a literatura latino-americana ao publicar, ao longo dos próximos meses, obras essenciais da escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, hoje com 83 anos e radicada em Barcelona desde a dez de 1970.

Embora muitos críticos a vinculem à geração do boom latino-americano, a própria autora, em entrevista à Folha, recusa essa classificação. De roupa, a escritora conviveu com nomes do movimento, uma vez que Julio Cortázar e Gabriel García Márquez, mas tanto sua prosa quanto sua verso não podem ser encaixadas nesse rótulo.

Os livros que vão chegar agora ao país são “A Insubmissa” e “La Nave de Los Locos” —levante segundo ainda sem título em português, é traduzível uma vez que “o navio dos tolos”—, ambos publicados pela Estabelecimento do Tempo e traduzidos por Anita Guerra.

A jovem tradutora brasileira conta ter se enamorado pelos primeiros livros de Peri Rossi, anteriores ao exilio, marcados pela invenção de sua homossexualidade e pelas lembranças de sua puerícia numa Montevidéu muito dissemelhante, mais provinciana, que recebia muitos imigrantes europeus e que começava a se riscar uma vez que a deleitável metrópole platense que é hoje.

Além desses dois livros, sai também a crestomatia poética “Nossa Vingança É o Paixão”, organizada e traduzida por Ayelén Medail e Cide Piquet para a editora 34. É o primeiro lançamento brasiliano da verso da autora, numa edição bilíngue.

Antes dessa baciada de livros, a autora só tinha uma obra editada no Brasil, a coletânea de contos “Espaços Íntimos”, hoje esgotada.

Nascida em Montevidéu em 1941, Cristina Peri Rossi é a principal voz feminina da literatura uruguaia. Seu trabalho logo chamou a atenção da repressão da ditadura, por seu caráter transgressor e por questionar o regime dominador. Seus livros passaram a ser proibidos e a autora, perseguida.

Decidiu, logo, tomar o rumo de tantos artistas da quadra: a Europa. Instalou-se em Barcelona e, mesmo depois da redemocratização, decidiu fixar residência na Catalunha. “Durante os anos de chumbo, meu nome estava proibido até de ser mencionado em jornais”, contou em uma entrevista.

Na Espanha, passou a publicar regularmente, ser traduzida para mais de 20 idiomas e colecionar prêmios importantes, uma vez que o Cervantes, divisa máxima das letras hispânicas, em 2021.

Lançado originalmente em 2020, “A Insubmissa” é um romance de formação em que Peri Rossi revisita sua puerícia e juventude. O livro reconstrói personagens hoje distantes no tempo, uma vez que a avó e o tio, descrevendo sua fascinação pela figura de sua mãe —com quem dizia, quando moçoila, que queria se matrimoniar.

Em breve entrevista por email à Folha, ela fala do mundo que buscou resgatar nessa obra. “Tudo me parecia tão difícil de compreender quanto assombroso —tanto na puerícia uma vez que agora. Só que, quando moçoilo, eu aplicava a lógica para tentar entendê-lo. Por exemplo, se havia quatro meninas e um menino, o plural era ‘meninos’, não ‘meninas’.”

“Havia coisas enormes e inalcançáveis, uma vez que as estrelas, que eu tentava relatar nas noites de verão, dividindo o firmamento em quadrados —mas às vezes elas apareciam, outras vezes desapareciam. Acho que minha rebeldia diante das injustiças foi meu primeiro gesto de insubmissão, embora eu ainda não soubesse o significado dessa termo. Meu primeiro gesto literário foi o assombro.”

A escritora diz que o título nasceu de uma coincidência comovente: “Um leitor artesão, que constrói embarcações com sobras abandonados pelo mar, me enviou de presente uma linda escuna feita com destroços da costa de Bahía Blanca, na Argentina. Ele a chamou de ‘La Insumisa’, inspirado num poema meu. Foi um desses atos mágicos que às vezes acontecem.”

Ela conta que quis entender, por meio desse relato nostálgico, por que sua família a chamava de rebelde. “Muitas das normas sociais me pareciam arbitrárias ou ridículas. Não usar calças, não jogar futebol, não subir em árvores —só porque eu era moçoila.”

E completa: “Hoje, minha moradia inteira é decorada com embarcações, e eu não sei nadar. Minha primeira e única travessia de navio foi a do exílio. Mas o exílio também foi uma forma de insubmissão.”

O outro volume que ainda está no prelo é o romance “La Nave de los Locos”, justaposição de histórias de exílio, algumas por cidades fictícias, que tem uma vez que objetivo fazer a sátira de regimes autoritários.

Já a crestomatia “Nossa Vingança É o Paixão” reúne mais de 150 poemas escritos de 1971 a 2024. A edição inclui seu exposição de reconhecimento ao prêmio Cervantes e tem posfácio da pesquisadora argentina Ayelén Medail.

Quando questionada sobre a fidelidade poética de sua obra à puerícia, Peri Rossi diz que procura “ser leal às lembranças, embora a memória seja infiel por natureza”. “Ela seleciona, oculta, engana. Não tinha outra intenção além de grafar alguns desses episódios dando-lhes um sentido, uma risco que desenhasse uma quadra e uma existência.”

“Se desde moçoilo eu tinha o libido veemente de grafar contra vento e maré —num país pequeno, quase sem editoras, e nascida numa família tradicional e pobre—, também sabia que precisava estudar para me sustentar. Nem minha mãe nem meu pai me apoiavam, só queriam que eu trabalhasse. Mas minha mãe era uma boa leitora, embora tenha se recusado sempre a ler meus livros.”

Depois de tantos anos do termo da ditadura uruguaia, em 1985, Peri Rossi decidiu permanecer na Espanha. Até hoje, tem horror ao autoritarismo. “Durante a ditadura militar, foram proibidas uma dúzia de palavras e vários nomes próprios. Os ditadores temem as palavras, às vezes mais do que os atos.”

Quando ganhou o Cervantes, estava doente e não pôde ir à cerimônia. Em seu lugar, subiu ao palco a atriz espanhola Cecilia Roth, que leu um exposição emocionado no qual a escritora evocava a Montevidéu da puerícia.

“À esquerda da minha moradia morava um velho sapateiro remendão, judeu polonês, milagrosamente escapado da chacina; e à direita, um músico teuto austero, com um tapa-olho. Quando perguntei à minha mãe, professora da escola pública, laica e mista, por que o judeu e o teuto não se cumprimentavam, ela respondeu: na Europa, eles teriam se matado.”

A relação da autora com o Brasil também atravessa décadas. Admiradora da música de Maysa e Maria Bethânia, fez traduções de Clarice Lispector para uma editora espanhola. Para ela, Clarice é “a escritora mais importante do Brasil, por ser universal —e não folclórica”.

Folha

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