Degrau a degrau, Ivone do Santos, de 57 anos, sobe ao segundo caminhar do tradicional Teatro de Santa Isabel, no Recife (PE), com o ingresso nas mãos para o concerto tão esperado. 
Enquanto anda pelo carpete vermelho em direção ao torrinha, sente os olhos marejarem ao falar do filho-ídolo, o violista Isaías Tavares, de 33 anos. “Teve muito sofrimento para chegar até cá”. Mas a reviravolta na vida deles levou sorriso ao palco e à plateia.
Não por contingência, os sentimentos se misturam. As pilastras douradas do teatro, inaugurado em 1850 em estilo neoclássico, ornamentam também as memórias que acompanham os passos de mãe e fruto.
“Nossa morada era feita de tábuas de madeira, e uma tempestade derrubou tudo em 2009”, lembra.
Eles moravam no violento bairro do Coque, que tinha o menor índice de desenvolvimento humano do Recife. A portanto empregada doméstica e mãe solo viu o teto desabar e sentiu uma vez que se o soalho se abrisse.
O menino Isaías participava, desde 2006, de um projeto social chamado Orquestra Petiz Cidadã, criado em 25 de julho daquele ano. Os responsáveis pela iniciativa conseguiram doações para erguer uma residência de alvenaria em outra rua do bairro. O projeto ficou responsável por remunerar o aluguel de uma morada até o novo lar ser levantado.
Enquanto aguardava o fruto subir ao palco do Santa Isabel neste final de semana, para os concertos comemorativos de 20 anos do Petiz Cidadã, Ivone sabia que era mais do que música o que passaria pelos seus ouvidos. “A gente não é só mãe e fruto. Nós somos muito amigos”. Ivone estava acompanhada no concerto pelo marido, Damião Ferreira, 61 anos, padrasto de Isaías.
“Ela me ensinou”
Dissemelhante do fruto, que teve a oportunidade de saber a música clássica na juvenilidade e se encantar, por exemplo, pelas obras do compositor russo Piotr Tchaikovski (1840 – 1893), Ivone, aos 11 anos de idade, já fazia faxina e cuidava de crianças na morada de outras pessoas. Por isso, precisou desabitar a escola. Foi no trabalho uma vez que doméstica que sustentou o fruto, mesmo com tantas dificuldades.
Era pouco verba para o dia a dia, tanto para manducar quanto para se vestir, recordam mãe e fruto. Antes das apresentações da última sexta (24) e sábado (25), o hoje violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde trabalha há 15 anos, diz que não tem uma vez que não “rever” um filme todas as vezes que volta ao Recife.
“Foi minha mãe que me estimulou e nunca me deixou desistir”, afirmou o músico.
Isaías não se esquece que, quando não tinha a viola, o instrumento era simulado com uma caixa de papelão, e o movimento do roda ensaiado com um pedaço de galho de goiabeira perto de morada.
“A vida sem coragem e ousadia é vazia. A gente não sabe se vai dar perceptível ou não. Precisamos de persistência. Sentado no sofá, não se consegue zero”, disse o violista.
Ele diz que a mãe ensinou isso a ele. “Ela foi muito trabalhadora e corajosa”.
Quando entrou para o projeto social, em 2006, Isaías teve formação músico, “mas também humana, de cidadão”. Uma vez que a iniciativa tem sede em um quartel do Tropa próximo ao Coque, ele passou a racontar com três refeições diárias, o que era impossível antes. A orquestra tinha, na idade, o maestro potiguar Cussy de Almeida na regência. Quando Isaías passou a levar a viola para morada, Ivone, mesmo cansada da labuta, ouvia o fruto ensaiar até adormecer.
Aos 18 anos de idade, Isaías passou em um processo seletivo e foi estudar no conservatório superior na cidade de Salzburgo, na Áustria. Estudou e tocou na Orquestra Sinfônica de Wels. Viajou pela Europa e viu o mundo se terebrar com o roda pelas cordas da sua viola.
Primeiro lugar
Quando voltou ao Recife, avisou para “mainha” que faria concurso para Orquestra Sinfônica de Goiânia. Sabia que ela ficaria com saudades, mas seria importante. Não só se inscreveu, uma vez que também a outros dois outros colegas da orquestra. Os três passaram em primeiro lugar nos seus instrumentos.
Um dos amigos aprovados foi o contrabaixista Antonino Tertuliano. Para ele, era mais uma de sua lista de aprovações nos concursos mais concorridos em sua dimensão. Atualmente, o músico é o único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Mas se lembra em detalhes de uma vez que chegou à orquestra, com exclusivamente 14 anos, ou da primeira vez que tocou no teatro de Santa Isabel. “Foi cá que tudo começou”.
As crianças e adolescentes da orquestra de hoje olham para Antonino uma vez que a uma mito. Não há, entre os 1.500 jovens que já passaram pelo projeto, um que não tenham ouvido falar do rapaz.
“Sempre que eu retorno à cidade, eu costumo fazer uma mesa em que eles me fazem pergunta. Eu digo que é muito verosímil chegar longe uma vez que nós chegamos”, afirmou.
Ele conta, por exemplo, que a opção pelo contrabaixo surgiu pela teoria de que poderia ser um “instrumento difícil”. Com 16 anos, já sabia e avisou aos pais que a música seria a profissão de sua vida. Por isso, em qualquer momento livre da escola ou em morada, ele não tinha dúvidas. Fazia sua passeio de 20 minutos até a orquestra. Lá ficava o tempo que podia na sala de estudos.
Antonino diz que os demais adolescentes que frequentavam a orquestra eram uma vez que irmãos para ele, com os mesmos objetivos: dar um porvir melhor para si mesmo, para a família e se alongar dos destinos de outros rapazes da comunidade, atraídos pela possibilidade de aderir ao delito, uma vez que o tráfico de drogas. Os músicos reconhecem que o cenário sítio se alterou com a implementação da orquestra.
Os músicos sonham em produzir espetáculos com mais tempo para encantar ainda mais jovens de diferentes comunidades. Antonino conseguiu ratificar, um projeto, via Lei Rouanet, para captar recursos e apresentar música clássica em escolas no Nordeste. O trio de músicos, formado por ele e mais dois europeus, se labareda Palíntonos. “É uma sentença que significa flexibilidade e tensão, mas nunca rompimento”. Antonino diz que quer fazer essa turnê ainda neste ano.
Outra egressa da primeira turma, a violoncelista Herlane da Silva, de 31 anos, que está no doutorado em Houston (EUA), estava emocionada ao tocar para a mãe, a dona de morada Patrícia, e para o pai, o pedreiro Herculano José. No curso, ela pesquisa a valimento dos projetos sociais latino-americanos na formação de músicos.
Conseguiu chegar tão longe porque os pais, além dos professores, a estimularam para fazer música. Ao ver às crianças ensaiando para o concerto segurou o pranto. “Quando eu cheguei na sala, meu coração começou a palpitar”
Urbana e rústico
A trajetória dos artistas, da puerícia à vida adulta, enche de orgulho o diretor e fundador do projeto Orquestra Petiz Cidadã, o juiz de recta João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).
Ele faz questão de explicar que o primeiro objetivo não é exclusivamente formar músicos, mas cidadãos.
“Nós começamos esse trabalho há 20 anos e eu pude ver o quanto a música é transformadora na vida de uma pessoa”, afirmou.
Uma transformação que não existe exclusivamente na comunidade urbana do Coque, mas também em um núcleo na dimensão rústico de Igarassu, sobre 30 quilômetros da capital pernambucana. Lá, 40 crianças e adolescentes, filhos de pais que trabalham na roça, estão trocando a lida no campo por instrumentos musicais.
“Eles veem no projeto uma oportunidade de crescer, de saber e expandir os horizontes”, afirmou a professora Basemate Neves, que coordena as atividades no sítio.
Quatro alunos de Igarassu foram aprovados no curso de música da Universidade Federalista de Pernambuco (UFPE). Entre os novos universitários, José Felipe da Silva, 20 anos, que hoje é contrabaixista, conheceu o projeto de música há 10 anos na escola pública onde estudava. Antes, a rotina dele era seguir os pais na plantação de milho, inhame, macaxeira e feijoeiro.
A mudança não foi simples. A família não entendia recta onde ele poderia chegar, mas apoiou a ida do fruto para outro campo.
Da morada na roça até a escola de música, eram 30 minutos de passeio. Atravessava mata fechada até chegar à estrada e pegar um ônibus. Atualmente, sai todos os dias de morada antes das 5h e passa o dia inteiro estudando no Recife. A lição acaba às 22h.
São seis trajetos de ônibus todos os dias e mais caminhadas. Chega em morada depois de meia-noite. Nem sobra muito tempo para dormir ou repousar. Mas chegar à UFPE era um dos sonhos dele.
Quer um dia ser professor e influenciar outros jovens. Mas deseja também ir para fora do país.
“De início, eu fiz um instrumento de bambu, coloquei uma corda de nylon, para treinar o dedilhado. Hoje quero terminar minha faculdade e edificar outros rumos”.
Na mesma turma da faculdade está a violoncelista Mirallayne Gomes, 19 anos. Filha de um eletricista e uma dona de morada, conheceu a música aos 10 anos.
“As crianças da dimensão rústico nos veem uma vez que espelho. A gente sente uma responsabilidade com isso. Lá na rua, por exemplo, tem várias crianças que entraram na orquestra por nossa justificação”, sorri a jovem musicista.
* O repórter viajou a invitação da Orquestra Petiz Cidadã










