‘Dau’ relaciona terror soviético com a Rússia de Putin – 08/10/2026 – Ilustrada
Quem assiste ao longa-metragem “Dau”, destaque no Festival do Rio, tem boas chances de fazer paralelos entre a Rússia retratada no filme, do período soviético, e a de hoje, da era Putin. O filme, de ares monumentais em suas mais de três horas e meia de duração, se passa entre 1928 e 1968, destacando o quanto a população vivia amedrontada pela repressão estatal. Alguma coisa que, de manifesto modo, ainda persevera no país.
O diretor, Ilya Khrzhanovsky, nasceu na Rússia, mas antagonizou de tal modo com o governo Putin que renunciou à sua cidadania em 2024 –sua indignação se deu sobretudo em seguida a invasão da Ucrânia, dois anos antes. Curiosamente, porém, em agosto pretérito o Ministério da Cultura ucraniano se manifestou contra a inclusão de “Dau” no Festival de Veneza, mencionando que era um “sinal alarmante” a participação em um evento tão proeminente de um filme vinculado ao país que ataca a país vizinha.
“É uma guerra. Se eles trabalham com essa agenda de cancelar a cultura russa por aí, com a qual eu poderia concordar ou discordar, é porque têm uma guerra a travar”, disse Khrzhanovsky à reportagem, em Veneza. “E eles fazem isso da maneira que podem. É um país pequeno lutando contra um gigante. Cometeram um erro, e, para mim, tudo muito. Erros e mal-entendidos, durante a guerra, são mais brutais do que na normalidade.”
Apesar do protesto, “Dau” foi exibido no festival italiano, e Khrzhanovsky saiu com o prêmio de melhor direção. Seu impressionante longa é a desfecho de um projeto colossal e dos mais ambiciosos já vistos, que gerou vários outros filmes correlatos. Entre 2009 e 2011, um imenso cenário reproduziu um instituto tecnológico soviético onde trabalhou Lev Landau, físico ganhador do Nobel em 1962, que protagoniza o longa.
Centenas de não atores viveram no set por mais de um ano e se deixaram filmar, em uma rotina que simulava que estavam em plena União Soviética. A teoria era que sentissem na pele um tanto próximo do que tinham sido os sufocantes anos sob Stálin e seus sucessores.
Depois as filmagens, houve acusações de situações abusivas, e, quando o primeiro longa do projeto saiu, “Dau. Natasha”, de 2020, uma controversa sequência sexual da obra fez muitos acharem que os métodos de filmagem tinham promovido um estupro em cena.
O diretor demonstra manifesto enfado ao falar do ponto. “É simples que não houve isso. É um equívoco que já foi publicado, republicado e republicado”, diz, com ar de tédio. O que acontecia nas cenas de todos os filmes do projeto, segundo ele, em universal eram improvisos.
“Existia a estrutura da cena, mas não os diálogos ou o que iria suceder. Por exemplo, em ‘Dau’, na primeira segmento, a cena do tribunal durou três horas sem os cortes”, relata o diretor.
Na trama de “Dau”, o filme que corda todo o projeto, vemos o observador Lev Landau desde quando era jovem, referto de ideais e paixão à liberdade, até sua morte nos anos 1960, já condecorado pelo Estado soviético. Embora ele tenha inicialmente recusado a colaborar com o projeto nuclear do país, por intuir os perigos que o progressão científico em mãos autoritárias poderia simbolizar, foi violentamente forçado a mudar de planos. Acabou tendo papel fundamental na viabilização do destrutivo arsenal de Moscou.
No primórdio das filmagens, a teoria ainda não era exatamente a de remeter à Rússia de Putin, mas a de resgatar o espírito da vexame soviética em um projeto com vários desdobramentos, que envolvia cinema, antropologia, arquitetura e performance. Na estação, um dos produtores foi inclusive Sergei Adoniev, milionário coligado de Putin, que deixou o projeto em 2019.
“No início, nem nos meus piores pesadelos eu imaginava que as coisas tomariam esses rumos”, diz, citando a intensificação do poder de Putin e a guerra da Ucrânia. “Mas nunca houve [na Rússia] um processo de expurgo ou acerto de contas com o pretérito. Stálin não foi removido da rossio principal. E, uma vez que esses rituais de ruptura nunca aconteceram, acho que a roda viva vai continuar girando”, ele diz.
“A mentalidade não mudou. Stálin foi ontem. Ontem à noite. As coisas não mudam tão rápido assim. Principalmente se não houver rupturas radicais e rituais de mudança.”
Khrzhanovsky mora hoje entre a Alemanha e a França –tem cidadanias alemã, britânica e israelense. Com a desfecho do projeto, que tomou duas décadas de sua vida, ele agora quer continuar trabalhando com a geração de espaços imersivos, por enquanto fora do campo do cinema.
Ele diz que, em termos pessoais, o grande legado de sua experiência no projeto foi uma novidade percepção sobre o comportamento humano em situações extremas.
“Passei esses 20 anos falando sobre brutalidade, violência e negrume. Percebi o quão frágeis nós somos. E o quão tênue, às vezes invisível, é a fronteira entre o muito e o mal. Pequenas escolhas podem nos levar a um lugar que não reconhecemos.”





