David Remnick, editor da New Yorker, elogia Agente Secreto

David Remnick, editor da New Yorker, elogia Agente Secreto – 08/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

David Remnick está preocupado.

Não com a New Yorker, revista histórica americana que completou centena anos em 2025 e segue sendo referência em jornalismo de qualidade, com reportagens de texto impecável, profundidade e rigor não encontrados em quase nenhum outro lugar do mundo.

Mas com a democracia dos Estados Unidos. “A democracia nos EUA está sendo ameaçada de um modo que não víamos havia muito, muito tempo.”

Aos 67 anos, 27 dos quais uma vez que editor da New Yorker, o que o torna o segundo mais longevo da história da revista, o jornalista nascido em Novidade Jersey falou à Folha sobre seu livro mais recente.

“Sustentar a Nota – Perfis Musicais”, que a Companhia das Letras lança neste mês no Brasil, traz 11 perfis de nomes uma vez que Leonard Cohen (o mais fácil de fazer, segundo ele), Bob Dylan (o mais difícil) e Keith Richards.

Remnick falou também sobre Trump, Gaza, jornalismo —e, evidente, “O Agente Secreto”, concorrente brasiliano do Oscar.

No perfil de Leonard Cohen você descreve uma cena impactante em que ele se ajoelha no palco, reverente. Pode ser uma metáfora para o livro em relação à música e ao jornalismo?

Talvez. Não sou crítico de música contemporânea, meus gostos não são contemporâneos.

Tento me manter atualizado. Se alguém diz “ouça Sabrina Carpenter”, eu ouço. Mas o que me interessa, e molda levante livro, são músicos e artistas que mudam, que envelhecem.

O rock não foi feito para resistir. As pessoas achavam que seria um fenômeno de cinco anos, que acabaria em 1970. Mas resistiu, e muitas carreiras também.

Isso me interessou do mesmo modo uma vez que Philip Roth evoluiu além de sua primeira tempo, com “O Multíplice de Portnoy”. Seus temas, preocupações e linguagem se aprofundaram. É assim com Bob Dylan, Mavis Staples ou Aretha Franklin.

Uma vez que grafar sobre músicos nessa tempo avançada da vida influenciou sua própria noção de longevidade e legado?

Nos meus melhores dias, me vejo uma vez que um bom jornalista. E esses textos, em universal, não são ensaios puros: dependem da participação do músico.

Com Keith Richards, por exemplo, foi mais fácil trabalhar a partir de sua autobiografia, que ele certamente não escreveu. Espero que ele tenha lido [risos].

Pessoas mais cerebrais, uma vez que Leonard Cohen ou Patti Smith, se entregam muito numa entrevista e oferecem mais material. O texto sobre Leonard Cohen foi, honestamente, o mais fácil que já escrevi. Ele estava morrendo e sabia disso. Não tinha zero a perder

Fomos a Los Angeles e passamos dois dias conversando com ele: chegávamos às 9h, falávamos até as 18h, e no dia seguinte a mesma coisa.

Tudo o que eu precisava fazer era estimular a conversa, sempre interessante. Ele talvez seja o interlocutor mais grandiloquente que encontrei em 45 anos de jornalismo.

Seu autoconhecimento, ironia e simplicidade eram incomparáveis. Barack Obama é grandiloquente, mas você pode conversar com ele por horas e ele terá eloquentemente evitado o ponto. Com Cohen, não havia zero que ele não explorasse.

Em um momento ele o repreende por chegar tarde. Li a cena uma vez que um lembrete da intervalo que ainda deve viver entre o jornalista e seu personagem.

Não quero virar camarada das pessoas sobre quem escrevo. Aconteceu uma ou duas vezes, Philip Roth foi uma delas. Escrevo muito sobre política, por que eu iria querer ser camarada de alguém?

No segundo dia dessas entrevistas, achei que Leonard precisava repousar. Ele estava falando havia três ou quatro horas. Logo saí para almoçar e voltei às 14h30.

Leonard ficou furioso. Ele devia estar pesando uns 50 quilos, estava morrendo. E deu a maior bronca. Usou a sentença “insulto contra idosos”.

De repente, as nuvens se dissiparam. O humor dele voltou. Ofereceu comida de novo, uma vez que uma boa mãe judia, e retomou a nobreza dos dois dias anteriores.

Se o perfil de Leonard foi o mais fácil de grafar, qual foi o mais difícil?

Sempre acho muito difícil grafar sobre Bob Dylan, porque tenho enorme espanto por ele e não o conheço. Todas as vezes em que tentei entrevistá-lo, fui rechaçado.

Ele foi meu primeiro interesse artístico. Havia uma música, “I Want You”, que mais tarde descobri ser do “Blonde on Blonde” (1966). Eu não entendia zero. Era sobre libido, e aos oito anos eu desejava um sorvete.

Mas havia alguma coisa misterioso que me capturou. Com o tempo, essa preocupação se tornou uma devoção. Muito do que descobri nas artes veio por meio dele.

Levante texto tenta olhar para o Dylan tardio, não o dos anos 1960, não o de “Blowin’ in the Wind”, “Like a Rolling Stone”, mas o trabalho dos anos 1990 e do século 21. Isso me interessava.

Quem foi o Bob Dylan do jornalismo para você —a primeira reportagem ou texto que teve o mesmo impacto?

Fui muito marcado pela Esquire e pela Rolling Stone dos anos 1970. Joan Didion, James Baldwin, Gay Talese, Hunter Thompson, Norman Mailer, Tom Wolfe, tudo que depois ficou divulgado uma vez que “new journalism”.

A New Yorker entrou na minha vida muito mais tarde, quando cheguei à faculdade. Ela me parecia pacata, suburbana, de classe subida no pior sentido. Eu me interessava pela contracultura, e encontrava isso mais no Village Voice.

Eu estava incorrecto sobre a New Yorker.

No livro você fala do consultório odontológico de seu pai, onde sempre tocava blues. Uma vez que se deu essa relação profunda entre a vida judaica e a música negra americana na sua formação?

Meu pai tinha um pequeno consultório ligado à nossa mansão, num subúrbio de Novidade Jersey. Havia duas coisas interessantes ali. A primeira: uma vez que todo dentista, ele tinha muitas revistas, e quando o consultório estava fechado eu ia lá para lê-las.

A outra: quando atendia pacientes, ele tocava música. Muddy Waters, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Louis Armstrong. Foi ele quem me apresentou ao jazz e me levou a alguns shows. Não muitos, mas vi Louis e Ella quando era párvulo. Era uma vez que ver George Washington.

Quando ele morreu, tocamos Louis Armstrong no funeral. Em funerais de Novidade Orleans, a saída é ao som de jazz contente, para comemorar a vida, não só o luto. Quis levar esse elemento para o nosso funeral judaico tradicional.

Já quis perfilar qualquer músico brasiliano?

Caetano Veloso, evidente. O Jonathan Blitzer decidiu grafar sobre ele e fez um perfil maravilhoso. Meu trabalho uma vez que editor não é grafar o tempo todo, mas orientar os repórteres em direção às suas paixões.

Em mais de um perfil você menciona os Stones de maneira sátira. Fiquei com a sentimento de que você não gosta muito da margem.

Se dei essa sentimento, está totalmente incorrecto. Detrás de mim há algumas guitarras [a entrevista foi feita por Zoom na tarde da última sexta]. Uma delas está afinada em sol cândido, a mesma que Keith Richards usa.

A grande tempo deles vai de 1965 a 1980. Eles ainda estão juntos, e estamos em 2025. Eles hoje são uma margem cover de si mesmos. E sabem disso, gostam disso. Mas não há zero de novo. Não é uma vez que Miles Davis, que continuou evoluindo.

Paul McCartney ainda canta músicas dos Beatles, e isso é ótimo. Mas não dá para proferir que o Wings, ou a música ulterior, se equipara aos Beatles.

Se você compõe dez grandes canções, já é incrível. Não estou desprezando os Rolling Stones. Só não quero fingir que eles continuaram evoluindo. Aliás, espero que eles não saibam ler em português [risos].

No perfil de McCartney, você recorre a Proust para sugerir que as canções populares funcionam uma vez que gatilhos modernos de memória e sensação. Acha que a música ainda exerce esse papel?

Sim. As canções são únicas porque são evocativas e curtas. E basta um trecho para que a memória volte, uma vez que a madeleine de Proust. Se você ouviu essas músicas na juventude, o efeito é ainda mais possante.

Acho, por exemplo, que a maior realização artística do ano pretérito foi “O Agente Secreto”. Claramente o melhor filme. E a melhor cena de início que já vi desde “O Poderoso Chefão”, a cena do posto de gasolina.

Mas sei, no fundo, que o público brasiliano está captando coisas, referências, pedaços de linguagem, música, que me escapam. É isso que significa estar perdido na tradução.

Tento me atualizar na história brasileira para aspirar o que ainda não conheço muito. Mas uma música da sua cultura, que você conheceu aos 17 anos e volta a ouvir aos 30 ou 50, não tem equivalente. É uma força muito poderosa.

O título “Sustentar a Nota” sugere atenção, paciência, resistência. Uma vez que a New Yorker, com seus longos artigos, consegue isso, num envolvente midiático movido pela velocidade?

Penso nisso o tempo todo. Quando assumi uma vez que editor, em 1998, já existia email, mas a internet uma vez que a conhecemos ainda não era uma força. Logo depois, tornou-se inevitável.

Se você é um jornal quotidiano, a adaptação é mais proveniente, porque o ritmo é semelhante, a notícia do dia, só que mais rápida e em novos formatos.

A New Yorker, durante mais de 80 anos, publicava tapume de dez textos por semana, alguns cartuns e uma revestimento. Só um ou dois estavam ligados ao noticiário inopino. O resto podia ser lido semanas ou meses depois.

Havia menos apego ao presente. Logo veio a internet: o que fazer? Tentamos não fingir que somos um jornal quotidiano nem desistir o que fez a revista ser o que é, mas fazer duas coisas ao mesmo tempo.

Todos os dias, no site, você encontra textos ligados ao noticiário, seja política, esporte ou uma reportagem recente do exterior. Mas mantemos o que nos distingue, a reportagem profunda.

Nosso departamento de checagem de fatos hoje é o duplo do que era antes. Temos 28 checadores.

Temos sorte. O lugar onde comecei minha curso, o Washington Post, está neste momento se destruindo, de forma descuidada e desnecessária.

Por motivo de um possuidor que decidiu que é mais importante ter a boa opinião do presidente do que fazer a coisa certa. Jeff Bezos está arruinando uma das grandes instituições da democracia americana.

É uma vez que ver a mansão da sua puerícia ser incendiada por alguém que prometeu salvá-la. Agora ele a está reduzindo a cinzas para impressionar o presidente dos Estados Unidos e forrar muito menos moeda do que custa seu segundo iate mais dispendioso.

A situação é realmente alarmante.

É mais perigoso ser jornalista hoje nos EUA?

Minhas experiências jornalísticas mais formativas foram na União Soviética, no término do regime e no primórdio da Rússia pós-soviética. Vivi lá por quatro anos. Sei qual é o preço de ser um dissidente de verdade. Conheci pessoas que foram presas e conheci Navalny.

Os EUA são um país complicado. Temos uma longa tradição, ainda que imperfeita, de instituições democráticas, e elas não são destruídas com tanta facilidade, embora às vezes pareça.

Estou sendo processado pelo presidente. Faço secção do parecer do Prêmio Pulitzer, que também está sendo processado, e terei de prestar testemunho. É uma ação absurda, mas ela existe.

Outro dia, agentes da lei bateram à porta de uma repórter do Post, entraram e levaram seu telefone e computador. Não se compara à Rússia de Putin, à URSS ou a coisas que o Brasil já viveu. Mas me preocupo.

Se tivesse de destinar hoje uma edição inteira da New Yorker a um único tema, uma vez que fez a revista com Hiroshima em 1946, qual seria esse ponto?

A democracia nos EUA está sendo ameaçada de um modo que não víamos havia muito, muito tempo. Se surgisse uma história que mostrasse isso de maneira única, por que não?

Depende muito das circunstâncias. Se tivéssemos conseguido entrar em Gaza, por exemplo. Ganhamos um Pulitzer pelos ensaios de um redactor palestino chamado Mosab Abu Toha. Mas reportagem dentro de Gaza…

Esse dia chegará. Acabei de saber que Jon Lee Anderson ganhou um prêmio. Não posso proferir mais do que isso, mas é boa notícia. Ele já foi a todos os lugares, Brasil, Argentina, Colômbia, Venezuela, Congo, Sudão, Iraque, Síria. Não há transe que não tenha enfrentado.

É o correspondente estrangeiro por superioridade, e tenho muito orgulho de que minha curso uma vez que editor tenha coincidido com a dele uma vez que correspondente da New Yorker.


Relâmpago-X | David Remnick, 67

Editor da centenária revista New Yorker desde 1998, é responsável de sete livros, o mais recente deles “Sustentar a Nota – Perfis Musicais”, que a Companhia das Letras lança no Brasil neste mês.

Folha

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