Decisão do stf sobre biografias favorece true crime 26/09/2025

Decisão do STF sobre biografias favorece true crime – 26/09/2025 – Gustavo Alonso

Celebridades Cultura

Tenho uma amiga antropóloga, que considero a maior leitora do Brasil, que certa vez me disse que há jornalistas que dão banho em muito acadêmico. É o caso de Ulisses Campbell, o redactor vernáculo que mais vem se destacando no ramo de livros true delito.

O true delito é um gênero de entretenimento que narra crimes reais, explorando os acontecimentos, as investigações e as pessoas envolvidas. O vinda da internet, com podcasts e canais especializados no tema, deu ainda mais popularidade a nascente gênero que sempre teve seu público.

Jornalista com experiência nos principais meios impressos do país, Campbell lançou em 2020 o livro “Suzane: Assassina e Manipuladora”, sobre a famosa parricida Suzane Von Richthofen. Sempre pela editora Matrix, em 2021 ele publicou “Elize: A Mulher que Esquartejou o Marido”, sobre a assassina de Marcos Matsunaga, proprietário da Yoki. Em 2022 Ulisses Campbell lançou “Flordelis: A Pastora do Diabo”, sobre a deputada federalista evangélica que armou a morte do próprio companheiro. Levante ano Campbell lançou “Tremembé: O Presídio dos Famosos”, sobre a prisão onde estiveram, além de Suzane e Elize, criminosos notórios uma vez que Robinho, Roger Abdelmassih, o parelha Nardoni, além de vários autores de crimes horrendos que, embora desconhecidos, dão ainda mais tempero ao saboroso livro.

Os títulos e as capas dos livros de Ulisses Campbell são quase sempre muito apelativos. Mas, uma vez que sabemos, não devemos julgar o livro pela toga. O responsável consegue em sua obra edificar cenários complexos, narrativas que prendem tanto a atenção do leitor generalidade quanto do mais sisudo, mormente quando mergulha na psique de matadores perturbados sem glamorizá-los. Respeitosamente, Ulisses conta as histórias das vítimas, quase sempre apagadas em outros relatos desse gênero, onde muitas vezes são meras coadjuvantes dos assassinos. Com seu relato jornalístico zeloso, pesquisa fundamentada e perfis ricos em detalhes, sisudo às miudezas, Ulisses constrói um quebra-cabeças multíplice, sensível antropologicamente, superior a muitas verborrágicas teses acadêmicas.

A mais novidade empreitada do redactor foi tornar-se roteirista. Campbell será um dos responsáveis pelo roteiro da série “Tremembé”, que estreará dia 31 de outubro na Amazon.

O true delito é o exemplo de um gênero cultural que não existiria se não fosse uma decisão histórica do STF (Supremo Tribunal Federalista). Em 2013, sob o pretexto de “saudação à privacidade”, grandes músicos da MPB do quilate de Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Promanação, Djavan, Gilberto Gil, Erasmo e Roberto Carlos mobilizaram-se para perseguir biógrafos. Os artistas queriam que unicamente biografias autorizadas fossem permitidas.

Naquela quadra os autores de biografias não autorizadas vinham sendo acossados por processos e censuras. Ficou famoso o caso do responsável Paulo Cesar de Araújo, que teve a biografia “Roberto Carlos Em Detalhes” rasgada em rossio pública. Roberto pediu a prisão do redactor e multa de R$ 500 milénio por dia de circulação da obra, que acabou censurada. Até Ruy Castro, talvez o mais famoso biógrafo em atividade no país, colunista desta Folha, foi acuado pelos familiares de Garrincha, que o acusaram de lucrar indevidamente com a imagem do craque em sua fenomenal biografia “Estrela Solitária”.

Em 2015, o STF foi chamado para dar seu veredito. O STF deu razão aos biógrafos, que passaram a não mais precisar do aval prévio de biografados ou de suas famílias para redigir livros, roteiros, filmes, peças, etc.

Em 2019, Ulisses Campbell foi processado por Suzane Von Richthofen, descontente com os preparativos de sua biografia não autorizada. A parricida acabou sendo derrotada. Quando publicou seu livro sobre Elize Matsunaga, a assassina estava com um contrato de exclusividade para uma série da Netflix, e não lhe concedeu entrevista. Mesmo assim, o responsável pôde lançar seu livro.

Se fosse antes de 2015, perigava Campbell perder essas batalhas e todo o gênero true delito seria debilitado com a decisão. Um mercado não unicamente de livros, mas também de documentários, filmes, séries e podcasts correria risco de sequer trespassar das pranchetas.

A decisão do STF completou dez anos nascente ano. Seríamos uma sociedade mais fechada se não fosse aquele veredicto histórico.


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Folha

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