Com um sucesso popular que começa a galgar gerações, muita coisa pode ser dita do Detonautas, exceto que seja uma margem preguiçosa. Nos últimos seis anos, com uma pandemia no período, o grupo do vocalista Tico Santa Cruz gravou cinco discos.
Já na sombra da Covid-19, lançaram álbuns de estúdio em 2021 e 2022. Depois, no ano seguinte, o registro acústico que celebrou os 20 anos de atividades. Aí gravaram versões de canções que a margem costuma incluir no repertório de turnês e, agora, o recém-lançado “Rádio Love Pátrio”.
O álbum que teria o nome “DVersões” foi apresentado a gravadoras. E o contato com a Deck, de Rafael Ramos, ditou novos caminhos. “Mostramos o material e o Rafael não se empolgou, achou que era mais do mesmo, mas aí ele ouviu ‘Potinho de Veneno’ e ficou muito entusiasmado”, conta Santa Cruz, se referindo a uma filete inédita, de pegada pop, gravada em 2023.
“DVersões” saiu uma vez que EP do dedo, enquanto o grupo já começava a produzir um álbum de inéditas. Ele admite que ficou um pouco assustado com o pedido de mais dez músicas. “Às vezes a gente depende de um momento em que está mais criativo para iniciar a erigir as músicas. A gente não tinha zero além de ‘Potinho de Veneno’, absolutamente zero!”
A música foi escrita quando o compositor estava debruçado nas biografias de Rita Lee, e ouvindo os discos dela. “Eu sabor de ler biografias e ir escutando os álbuns, seguindo a história. E aquilo foi me inspirando para que eu escrevesse essa música. A Rita tem um vocabulário muito pessoal, e a música veio dessa influência.”
A música tinha sido feita com produção de Pablo Prelado e de Ruxell. Para Santa Cruz, são produtores de obras muito importantes do pop brasílico, mas que não tinham ainda uma mediação dentro do rock. Uma vez reunidos, foram detrás de referências uma vez que tecnobrega e surf music. “Fizemos um caldeirãozinho para poder transpor essa sonoridade do ‘Potinho de Veneno’. Quando decidimos fazer o álbum, ficou simples que as únicas pessoas que poderiam nos conduzir eram os dois.”
O disco tem 11 faixas e está longe de ser um trabalho monolítico de rock. As misturas são muitas, o que já é particularidade do Detonautas há um bom tempo. Santa Cruz acredita que, no prelúdios, por ser uma margem muito jovem, existia o que ele labareda de “mentalidade de exclusão”, a teoria de ser absolutamente leal ao rock. Depois, segundo ele, veio a percepção de que o trabalho flertava muito com o Brasil.
“O novo disco chegou a essa dimensão de vários sons diferentes. Você tem dub, reggae, metal, trap, até um brega pop, que é ’A Dor Fantasma’. Isso fez o Detonautas transpor de uma posição de conforto, porque é uma margem que já tem muitos hits, que pode hoje se apresentar em qualquer festival tocando 14 ou 15 músicas que todo mundo canta junto. Criamos um tanto que pode ser uma novidade lanço, um novo capítulo da nossa história.”
No álbum recém-lançado, há rocks contundentes uma vez que “Coração Latino”, e reggae, em “Antimonotonia’. Mas é dominante uma boa fatia de pop rock, com “Vampira”, “Potinho de Veneno”, “Renda-se” e “Dor Fantasma”, esta última com batida brega, lembrando os sucessos populares de artistas que iam ao Chacrinha nos anos 1980.
“Acho que representam exatamente o que a gente foi buscar, o Brasil profundo. Na era do Chacrinha, do Bolinha, que eu assistia rapaz e jovem, esses programas me ajudaram a ter conexão com o rock brasílico. Foram os caras que iam ao Chacrinha que me fizeram querer ser segmento disso. Barão Vermelho, Blitz, Ira!, Plebe Rude, Legião Urbana. Foi essa geração que me formou. E nos anos 1990 aparece, por exemplo, um Marcelo Yuka, escrevendo coisas incríveis.”
O disco tem letras engenhosas. Em duas delas, Santa Cruz brinca com terminologias, encaixando nos versos palavras e jargões do universo de seus temas. São elas “Rádio Love Pátrio”, em que o narrador da letra parece operar uma rádio, e “Drama de Cinema”, que alinha clichês de filmes.
Ele afirma que os letristas dos anos 1980 e 1990 tinham uma saudável competitividade nas letras. “Eles tinham muita influência dos livros. E vínhamos de um período anterior, nos anos 1970, era da ditadura, em que você precisava saber se esquivar da repreensão, driblar a repreensão. Isso obrigava o compositor a ter artimanhas com as palavras.”
Em relação às bandas de hoje, ele sente no rock uma postura conservadora, de falar dos mesmos assuntos da mesma maneira. E pensa que essa linguagem pode se distanciar de novas gerações que têm outro vocabulário e outra forma de abordar as coisas.
“Talvez seja excesso expressar que o rock pode se tornar o blues, mas acho que, se o jovem não olhar para o rock uma vez que renovável, ele vai descobrir que é coisa de velho e se distanciar. O rock vai permanecer um nicho cada vez menor.”
Enquanto isso, o Detonautas segue na estrada e vai se apresentar em vários festivais dessa temporada, uma vez que Somos Rock, em São Paulo, no próximo dia 25, no João Rock, em Ribeirão Preto, em agosto, e no Rock in Rio, em setembro.
