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Di Cavalcanti é tema de documentário de Ana Carolina
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Di Cavalcanti é tema de documentário de Ana Carolina – 24/10/2026 – Ilustrada

A estreia de um novo longa de Ana Carolina é sempre um caso. Autora de “Mar de Rosas”, de 1977, a cineasta costuma lançar um, no supremo dois filmes por dezena. O longa que chega agora tem porquê meio Di Cavalcanti, a quem Glauber Rocha havia devotado um curta por ocasião da morte do pintor, contrapondo vislumbres de suas telas com imagens de seu velório.

Muito distante da caretice que impera nos documentários biográficos, frequentemente baseados em entrevistas e montados na estrutura das cabeças falantes, ou “talking heads”, “Di Cavalcanti”, de Ana Carolina, abraça os recursos da ficção e a costumeira irreverência da cineasta para narrar a tumultuada história do modernista.

As peripécias da vida de Di são contadas pelo ator carioca Julio Adrião, que interpreta o sobrinho de um camarada do artista. Ele lê secção da correspondência do pintor e encontra-se com interlocutores que o ajudam a abordar facetas pouco gloriosas do personagem.

Às cenas ficcionais gravadas por Ana Carolina, ambientadas principalmente no Rio de Janeiro do presente, soma-se um valedouro material de registo. Jean Manzon havia filmado o artista para um documentário, no início dos anos 1970.

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (1897-1976) parece emprestar algumas de suas características a Adrião, numa performance que combina qualquer improviso, um desleixo proposital e um deboche, mesmo nos momentos mais tensos. Com um copo de cerveja sempre à mão.

Longe de sacralizar ou monumentalizar o rabino carioca —contemporâneo de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade—, Ana Carolina traça um retrato bastante humano, atilado às dificuldades materiais do protagonista e às ajudas que recebeu de amigos mais afortunados e estáveis.

Di trabalhou inicialmente porquê ilustrador, publicando em revistas porquê “Fon-Fon” e “O Pirralho”. Ao longo da vida, foi também jornalista e historiador, escrevendo para diversos veículos da prelo, entre os quais o “Quotidiano Carioca”.

Limitado de grana, precisava desses trabalhos para remunerar as contas e vivia com pouco conforto. Morou um período na Zona Setentrião do Rio —no filme, vemos Adrião em pé, no trem lotado para o bairro do Talento de Dentro. Foi recluso três vezes. Numa temporada, sem ter para onde ir, pediu abrigo na rancho Santa Teresa, da amiga Tarsila do Amaral, no interno de São Paulo —Adrião procura a propriedade, num carruagem de aplicativo que o deixa numa estrada de terreno.

Insólitas, essas e outras sequências enfatizam mais os percalços do que os louros da vida de Di, tido porquê idealizador da Semana de Arte Moderna de 1922 e célebre pelas formas arredondadas de seus retratos e pelos monumentais painéis, porquê o do Teatro Cultura Artística, em São Paulo.

Entre botecos, Adrião contracena com garçons, músicos e outros personagens que trazem elementos de figuras importantes da vida do pintor modernista.

A personagem de Tuna Dwek, por exemplo, carrega traços de Noêmia Mourão (1912-1992), que foi aluna de Di e tornou-se sua segunda mulher. O parelha viveu junto na Paris dos anos 1930.

Nessa e noutras temporadas, a capital francesa foi, para ele, território de descobertas artísticas, recepções prestigiosas, vida desregrada e precariedade financeira. Numa epístola, escrita depois de encontrá-lo na França, Mário de Andrade observa que está gordo e desmazelado.

Com Noêmia, Di trabalhava porquê correspondente internacional e estudava pintura. Com o início da Segunda Guerra Mundial, os dois voltam para o Brasil, fazendo uma graduação na Itália. Dos dias italianos, o próprio Di escreve sobre a obra de Da Vinci, Michelangelo e Caravaggio, e não exatamente para exprimir fascínio. Sente-se, na verdade, humilhado pela potência daqueles gênios.

A atriz Cristina Pereira, célebre no papel da filha de “Mar de Rosas”, faz uma participação privativo no novo longa, que funciona porquê assinatura de Ana Carolina.

Se o filme consegue retratar a humanidade de um personagem icônico, fica a sensação de que a obra de Di poderia ter sido mais vista, mais analisada em sua evolução e escolhas formais.

Os contornos tão singulares dos personagens pintados por ele até aparecem, mas sem que a câmera se detenha nas composições —à exceção, talvez, da cena em que Adrião aparece diante de uma mulher negra, que posa nua, uma referência às célebres mulatas do pintor.

Contemporânea de Glauber Rocha, Ana Carolina atualiza e expande “Di Glauber/Cavalcanti”, de 1977. Grandes cineastas formados pelo Cinema Novo, ambos enxergam a humanidade —e a fragilidade do varão— por trás da obra, dos quais pintado não esconde por completo as agruras do trabalhador brasiliano.

Folha

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