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Dia dos pais: combate à misoginia começa pelo exemplo em
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Dia dos pais: combate à misoginia começa pelo exemplo em casa

Do gol a gol para o pique-pega. Do esconde-esconde ao skate, depois para o balanço e, em seguida, para a queimada. “Samuca, vem almoçar!”, alguém grita. “Só mais um pouco”, responde o menino, de 8 anos. Mais corrida, pique-bandeirinha e começa tudo de novo. O menino não se cansa, enquanto vive a pureza e a velocidade da puerícia. Só parou um dia das férias para levar um papo mais sério com o pai.

Era para falar de uma conversa que teve com um colega, em que os dois riram porque viram um pouco demais do corpo de uma amiguinha. O pai, o goianiense Cleomar Barros, de 43 anos, morador de Brasília, recorda que precisou falar sério. Disse que era preciso respeitar as meninas, uma vez que sempre tratou a mana, de 11 anos. E que não se deve dar risada. O menino concordou e o abraçou.


Brasília - 07/08/2026 - Cleomar Barros ensina o filho desde criança a respeitar as meninas. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília - 07/08/2026 - Cleomar Barros ensina o filho desde criança a respeitar as meninas. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

 Cleomar Barros ensina o fruto desde rapaz a respeitar as meninas – Foto Valter Campanato/Sucursal Brasil

“Faço questão sempre de mostrar que devemos ser parceiros e amigos”, diz Cleomar, que é comentador de sistemas. Ele destaca que tenta mostrar ao fruto gestos de zelo e reverência que tem com a esposa e com a filha.

Aliás, a “instrução pelo exemplo” é, segundo profissionais que estudam e trabalham com temas ligados à “masculinidade saudável”, uma chave para que os pais atuem contra a misoginia dentro de morada, segundo afirmaram em entrevistas à Sucursal Brasil. Cada passo contra o machismo em morada (ou em qualquer outro espaço) pode simbolizar muito mais do que um presente de Dia dos Pais (que é só uma vez ao ano).

Ação afetiva

Em um cenário de tantas violências, de estupros coletivos a demonstrações de grupos masculinistas que demonstram ódio às mulheres, a ação afetiva dos pais no tempo presente pode ser preventiva. Mais conscientes, pais podem agir pela consciência dos meninos, ser mais parceiro das escolas e cobrar políticas públicas que tragam condições civilizatórias. 

“As maiores e mais eficazes formas de estágio de uma rapaz se dão por meio do protótipo que o pai apresenta”, afirma o psicanalista Thiago Queiroz, que tem uma página intitulada “Paizinho, vírgula!”, com mais de 324 milénio seguidores, e é responsável do livro Paixão de pai. No instagram, a página pode ser vista neste link.


Brasília - 07/08/2026 - Pais contra a misogenia - Thiago Queiros. Foto: Arquivo pessoal
Brasília - 07/08/2026 - Pais contra a misogenia - Thiago Queiros. Foto: Arquivo pessoal

O psicanalista Thiago Queiros diz que reverência às mulheres precisa ser naturalizado – Foto Thiago Queiroz/Registro pessoal 

Ele, que atua no Rio de Janeiro, diz que o reverência às mulheres precisa ser naturalizado em todos os espaços que frequenta com as crianças. “Esse processo é interpretado pela rapaz, pelo fruto, à medida que vai crescendo”, acrescentou. 

Para Cleomar, a qualquer momento, é necessário observar se os meninos fazem comentários inadequados sobre as meninas. “Existem muitos livros infantis que trazem esse matéria de forma lúdica para naturalizar a força das mulheres e que não precisam de um príncipe seduzido para salvá-las sempre”. Na pré-adolescência, já é verosímil, segundo ele, tratar do tema violência contra as mulheres.

Mais atenção

A psicóloga Bárbara Lobato, que atua em Brasília com famílias, concorda com a mediação positiva. Ela tem observado que aumentou o número de pais atentos ao combate à misoginia. “É uma construção que tem de ser feita  de forma cotidiana”. 

Para Bárbara, é muito importante que os homens saibam, na vida adulta, identificar e falar sobre as suas dores para que possam transmitir as melhores mensagens aos filhos, de forma que estejam abertos ao diálogo, à transparência e à conexão. 

“É importante observar que garotos em idade de juventude têm as próprias dores e, eventualmente, relatam qualquer tipo de negligência afetiva ou social por não se sentirem compreendidos”. 

Por isso, ela indica ser necessário, com o suporte dos responsáveis, hospedar esse sentimento e compreender a angústia daquele rapaz. Esse caminho deve ser compartilhado também no envolvente escolar, espaço em que crianças e adolescentes podem ter contatos também com representações de machismo.

Mundo da escola

A professora e orientadora educacional Ana Paula Lilly, de 56 anos, de uma escola da cidade de Bauru (SP), observa que os discursos de misoginia chegam aos adolescentes também por grupos de mensagens no celular.

“É preciso trabalhar com prevenção, com instrução do dedo e midiática. É preciso ensinar nossos jovens a investigar criticamente o que eles estão consumindo”, afirma. 

Ana Paula explica que a escola deve facilitar os pais sobre o que crianças e adolescentes vivenciam quando não estão em morada. “Família e escola devem agir em parceria com mensagens coerentes sobre reverência, paridade e responsabilidade”. Por isso, é responsabilidade da unidade de ensino também invocar os pais ou responsáveis quando houver incidência de demonstrações de violências.

Rede paterna

Para ampliar as discussões sobre a paternidade, um grupo de pais em São Paulo criou, na última semana, o conduto de vídeos Papicast. para ser um espaço de discussão e uma rede de suporte paterna. Tiago Koch, de 43 anos, defende que os pais apresentem aos filhos  limites nas questões relacionadas ao corpo. 

Ele, que é cofundador também de um projeto chamado “De Mano pra Mano” de atuação nas escolas diretamente com meninos, avalia que os garotos estão “pedindo ajuda em silêncio” sobre uma vez que se relacionar com as meninas. Para ele, o machismo estrutural faz secção do contexto de vida dos garotos, e eles precisam recontar com o suporte dos pais para entender mais sobre o mundo.

“Há um ensinamento (perigoso) cada vez mais reforçado por esses grupos masculinistas e pelas próprias redes sociais”, afirma. 

O educador aponta que os meninos carecem de espaços de escuta, e de construção de caminhos propositivos que fujam de estereótipos de homens atravessados pela violência, força, performance da masculinidade, da provisão financeira e da hipersexualização. 

Tiago Koch considera que os pais estão com dúvidas sobre uma vez que mourejar com as características de um mundo dissemelhante porque não contam com referências dos ascendentes. “Eles estão sendo atropelados principalmente pelo progressão da tecnologia que, a cada dia, traz novos desafios”.

Também no Papicast, o ator e conferencista Tadeu França – pai de dois meninos -, que trata de temas uma vez que antirracismo e antibullying na puerícia, exemplifica que os filhos reconhecem quando o varão e a mulher atuam pelo zelo da morada. “Em qualquer momento da geração, ele entendeu e associou que as coisas da morada são da mãe”.

O terceiro participante do projeto, Dennis Takada, relata que os pais queriam ter mais tempo para permanecer com os filhos. “As políticas públicas devem levar em conta as necessidades da paternidade e são fundamentais para melhorar a relação da família”.

Meninas

Os integrantes do Papicast defendem mais ações no campo de direitos dos pais, uma vez que a licença paternidade, e materiais educativos e de orientação às famílias. Tiago Koch considera que as meninas têm reconhecido mais imediatamente demonstrações de machismo e cobrado dos rapazes uma postura dissemelhante. 

“Elas continuam precisando de políticas públicas de proteção e de escuta. Quando elas falam que os homens estão sendo machistas, pode virar ressentimento, ódio e violência. E eles não entendem”, afirmou. 

“Não engolir o pranto”

Foi a partir das dores, que aprendeu em morada, que o terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), pai de gêmeos e fundador do conduto “Masculinidade saudável”, resolveu tratar dos traumas de outros homens. Tinha na memória a ordem que ouviu em morada: “varão deve engolir o pranto”. 


Brasília - 07/08/2026 -Pais contra a misogenia. -  Fábio Manzoni - Foto: Arquivo pessoal
Brasília - 07/08/2026 -Pais contra a misogenia. -  Fábio Manzoni - Foto: Arquivo pessoal

O terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), criou o conduto “Masculinidade saudável – Foto Fábio Manzoli/Registro pessoal

Em contrapartida, ouviu palavras pejorativas para se referir a mulheres. “Comecei a perceber também padrões machistas em mim”. Mudou a própria história, depois de entender que o caminho de sua vida poderia ser dissemelhante. “Comecei a perceber que esse ‘engole o pranto’ era a raiz da maioria dos meus problemas”. 

O promanação dos filhos abriu ainda mais seus olhos. Não somente abriu, uma vez que também deixou molhar. “Nós pais podemos chorar para eles também. Mostrar que a gente é ser humano. E que eles também estão autorizados a chorar”, disse.

Romper o silêncio permanente dos homens pode ser mais um dos passos no combate à misoginia de todos os dias. “Romper também com a história das mensagens machistas que eram tidas uma vez que naturais. Eu cresci, meus amigos cresceram, com ideias muito erradas. Chegou a hora de a gente mudar isso”, diz Cleomar, pai do Samuca. O menino corre, brinca e é fã da mana mais velha.



Fonte EBC

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