Diogo mainardi cria fotonovela para expurgar seus mortos 24/10/2025

Diogo Mainardi cria fotonovela para expurgar seus mortos – 24/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Meus Mortos – Um Autorretrato” foi a forma que Diogo Mainardi encontrou para resolver o luto com a morte de familiares durante a pandemia. O trajo de que o livro é uma fotonovela só faz aumentar o interesse de qualquer curioso por esses assuntos, ou ainda por Veneza e a Renascença, entre outras coisas.

Redactor e jornalista incerto, capaz de semear paixões e discórdias entre seus leitores (foi colunista da revista Veja) ou seus espectadores (quando era um dos rostos regulares no programa Manhattan Connection), Mainardi sofreu um luto profundo.

Ele perdeu pai, mãe e irmão no espaço de oito meses em 2020 e 2021. No entanto, é enfático ao explicar que a motivação da obra não foi emocional, mas uma premência de estrutura intelectual para processar a dor.

“Nascente livro, uma vez que todos os outros que fiz, nasceu de uma premência. Uma premência intelectual, não uma premência emocional ou psicológica… Eu precisava de um esqueleto em torno do qual erigir uma tentativa de dar um sentido a essa dor e a esses lutos”, diz à Folha o plumitivo, pelo computador de sua moradia em Veneza, onde mora desde 1987.

É pelas ruas e canais da cidade que ele perambula com seu cachorro Palmiro. Na obra, a dupla está em procura do opífice das cores, do pintor dos pintores, do rabi italiano Ticiano Vecellio, que viveu de tapume de 1490 a 1576.

Mainardi circula por Veneza, visitante a moradia onde Ticiano morreu e divaga enquanto seu fruto Nico registra tudo com uma câmera fotográfica. Às vezes, o fruto mais velho, Tito, se junta a ele em visitas a museus ou igrejas onde obras do italiano estão expostas.

Para tratar de seu próprio luto, o responsável se mostra fascinado por retratos póstumos de épocas antigas, uma vez que o do imperador Carlos 5º, que “morre dentro de um quadro, quer expressar, morre olhando a própria imagem dentro de um quadro do Ticiano”.

A procura compreende também alguns dos grandes discípulos do italiano, Rubens e Van Dyck. Mainardi associa o primeiro à teoria de “testamento literário”, destacando a atitude do holandês, que, no final da vida, largou notabilidade e riqueza para viver em reclusão com sua esposa juvenil.

Já Van Dyck é um gavinha entre o italiano e a temática da morte, destacando a pintura que o belga fez de um “sucumbido fresco” da esposa de um companheiro. Venetia estava morta havia dois dias quando seu marido aristocrata encomendou um retrato dela ao companheiro Van Dyck.

Mainardi escreve nos quadrinhos da fotonovela: “O pintor encontrou o sucumbido na leito, bravo no cotovelo… Com um olho fechado e outro entreaberto, uma vez que se Venetia ainda tentasse se rebelar contra a morte (embora seu corpo já estivesse se putrefazendo)”.

“Sete semanas depois, Van Dyck entregou o quadro pronto a Kenelm Digby. Ele disse: ‘É a única companhia metódico que tenho. À noite, quando vou para o quarto, coloco-o ao lado da leito e, à luz de velas, imagino estar vendo-a morta’.”

Tudo isso é descrito e mostrado com imagens das pinturas, apresentadas em pequenos detalhes ou em sua imensidão completa. Junto das imagens, Mainardi faz análises, mostra ligações perdidas, elucubra ideias e desenvolve pensamentos que surpreendem o leitor.

O responsável espera fechar essa secção de sua vida agora, com o lançamento de “Meus Mortos”. O primeiro a morrer foi seu pai, o publicitário, plumitivo e jornalista Enio Mainardi, em decorrência de Covid em agosto de 2020.

Em seguida, foi sua mãe Júlia, publicitária e escritora, que morreu “de ictus”, quer expressar, depois um acidente vascular cerebral. Por termo, seu irmão sucumbiu a um tumor mortal.

“As causas das mortes são menos relevantes para mim do que o trajo de ter perdido a família inteira —porque era essa a minha família no Brasil— num espaço muito limitado de tempo e durante aquela mortandade tenebrosa pela qual nós passamos, de milhares de mortos por dia, de boletim em boletim. Eu ouvia o boletim na TV ao mesmo tempo em que estava no celular com minha sobrinha para cuidar do enterro da minha mãe”, conta.

“Meus Mortos” tem ligações com “A Queda”, livro de 2012 no qual Mainardi descreve o erro na maternidade que deixou seu primogênito com paralisia cerebral. Ali, ele conta essa história de Tito em 424 tópicos, quase uma narração epopeica, e usa diversos elementos visuais misturados ao texto. Traduzido para o inglês, “The Fall” foi chamado de “genial” pela resenhista do jornal The New York Times em 2014.

Em termos de imagem, “Meus Mortos” vai muito além de “A Queda”. Foi um processo com mais de 1.500 fotos, para encetar. “Essa secção de confecção do trabalho foi extremamente prazerosa, pelo vista lúdrico. Acho que o pintor deve sentir a pincelada muito prazerosa. Eu tive um prazer mais rudimentar, de tentar erigir imagens.”

Esse processo lúdrico esbarrou em um tropeço complicado chamado direitos autorais. “Quando o jurisconsulto da editora viu as fotos que eu havia retraído, surgiu a questão do copyright das fotos. Foi um problema muito rente substituir uma enorme quantidade delas.”

“A gente vive num mundo em que as imagens são roubadas por empresas que valem trilhões de dólares. E eu, um plumitivo miserável brasílico, tive que remunerar direitos autorais para um livro literário.”

Para reproduzir as telas e as pinturas, houve menos dificuldades. “Se não fosse a Wikimedia Commons, eu nunca poderia ter feito esse livro. As imagens dos quadros são gratuito. Não é de primeiríssima qualidade. Mas tanto faz, porque é uma fotonovela. E a fotonovela tem esse vista sujo mesmo”, diz Mainardi.

A decisão de usar as fotografias feitas por Nico em preto e branco, contrastando com as pinturas dos mestres em cores, foi deliberada. “Ticiano era sabido pelas cores, logo era impossível não fazer pintado.”

O miserável plumitivo brasílico também insistiu que o livro fosse impresso em papel geral (não o melhor para imprimir fotos), sem envoltório dura e no formato pequeno de uma publicação normal. “Eu não queria que se confundisse com um livro de arte. Queria que fosse lido uma vez que um romance. O truque é esse.”

Folha

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