Mesmo que a alta-costura tenha atravessado períodos espinhosos, parece que o que restou deles foram as bolsas em formato de cacto desfiladas pelas garotas da Dior. Ou, talvez, as trepadeiras venenosas que dominavam o cenário da apresentação da Chanel.
Também foram elas que atravessaram as delicadas musselines de seda e levaram uma suco de esperança para a categoria mais dispendiosa da tendência, que, nos últimos anos, parecia lutar contra a irrelevância e se livrar do estado anêmico em que havia mergulhado.
“Fórmulas são incompatíveis com a magia da geração.” As palavras escritas por Daniel Roseberry, da Schiaparelli, no primeiro dia de desfiles, ecoaram muito além da sua jaqueta cinética de látex com tentáculos e do vestido com bustiê moldado em silicone branco com efeito de porcelana vitrificada.
A teoria de tensionar a tradição de uma maison, ou quebrar as expectativas para dar espaço às incertezas, sintetiza o espírito da temporada de inverno de alta-costura deste ano. Cada estilista entendeu que é preciso admitir a possibilidade de errar e testar para tornar uma coleção memorável.
Ele escolheu responder os próprios códigos da alta-costura e até a noção do que seria considerado um material superior, pondo em incerteza se a venustidade reside na material em si ou na imaginação capaz de reinventar essa material.
Para um estilista fascinado por transformar o familiar em um tanto estranho —e, por vezes, deliberadamente grotesco—, assim uma vez que Elsa Schiaparelli, o caminho era subverter e ainda aditar elegância e delicadeza às suas criações.
Depois de um intenso trabalho de desenvolvimento de materiais inéditos, látex, silicone e superfícies de tinta solidificadas substituíram sedas e cetins. Algumas criações incorporavam estruturas iluminadas internamente, uma vez que a jaqueta de ombros pontiagudos de silicone âmbar inspirada no frasco de perfume Shocking da maison. Flores naturais e escamas de peixe revestiram uma jaqueta e uma legging, provando que o conhecimento dos artesãos torna provável até os desejos mais inquietos de Roseberry.
De conformidade com Jonathan Anderson, da Dior, a alta-costura é um laboratório. Mesmo sendo sua segunda coleção de couture para a grife, ele já demonstra não precisar provar por que foi escolhido para comandar uma mansão desse peso. Ele consegue lastrar o legado deixado pelo fundador, imprimir sua assinatura e apresentar um tanto novo, a iniciar por se permitir ser desafiado pelas suas próprias inspirações.
Desta vez, foi a escultora americana Lynda Benglis, que construiu sua trajetória justamente ao redefinir os limites da pintura. “Ela não tem pânico das ideias. Quando observei as esculturas de metal dobrado de Lynda, sempre gostei delas porque parecem estar em movimento, embora sejam feitas de um material tão robusto”, comenta Anderson.
Dessa forma, a arte de Benglis, que secção de materiais bidimensionais transformados por meio de nós e moldagens em formas tridimensionais, encontra repercussão nos redemoinhos de plissados, amarrações, babados e pregas, que dão forma à silhueta de Anderson. Mas há tailleurs Bar, alguns com estruturas alongadas, outros que parecem se deixar levar pelo vento. O casaco vermelho batizado Arizona, criado em 1948, foi construído com plissados verticais, derrubando o peso da pelo e entregando um movimento fluido.
Silvana Armani se permitiu testar uma sensualidade dissemelhante daquela explorada em coleções anteriores, mas ainda puramente Armani. “Existe um prazer íntimo em escolher um vestido, vesti-lo e senti-lo uma vez que seu, um gesto pessoal, nunca ostensivo. Acredito que, quando uma mulher cria para outras mulheres, o olhar sobre a sedução é naturalmente dissemelhante, mais pessoal, consciente e sutil”, diz ela.
Na coleção Boudoir, essa teoria se traduz em silhuetas fluidas e precisas, sem extravagâncias. “O ‘bicho print’ aparece esmaecido, unicamente sugerido, nunca explícito, uma metáfora perfeita para descrever uma coleção em que tudo seduz de maneira sutil.” Calças elegantes surgem combinadas a blusas leves e jaquetas de superfícies aveludadas cobertas por bordados de pedras iridescentes.
A estreia mais aguardada do calendário se revelou um encontro de almas. Embora muitas das peças em cores vibrantes evocassem um déjà-vu dos tempos de Valentino, a visão de Pierpaolo Piccioli parece fazer mais sentido agora. Felizmente, o jejum de uma dezena de alta-costura foi finalmente quebrado na maison francesa, depois do período estéril de Demna Gvasalia.
A leveza, a farra com formas, estruturas e materiais luxuosos, uma vez que as plumas, voltam a fazer jus ao legado de Cristóbal Balenciaga, que fechou as portas da grife em 1968 ao crer que já não existiam clientes para a alta-costura que defendia. Com chiffons no ar e cascatas de seda, Piccioli mostrou que esse é unicamente o primórdio.
Talvez a mais indigesta das coleções tenha sido a de Matthieu Blazy para a Chanel. O olhar lúdrico do estilista franco-belga ainda parece excessivamente pueril diante da megalomania que Karl Lagerfeld construiu ao longo de sua direção –e evadir dessa sombra permanece uma vez que um repto.
Ainda que Blazy tenha encontrado inspiração num livro de contos de fadas da livraria de Gabrielle Chanel, a fundadora era uma mulher profundamente pragmática. Mas ele aceitou a teoria de revelar um lado menos sabido de Chanel e trouxe referências de histórias uma vez que João e o pé de feijoeiro, cachinhos dourados e os três ursos tanto para o espaço da passarela —onde cadeiras douradas pareciam ser tomadas por trepadeiras— quanto para os looks.
Alguns eram mais caricatos do que o esperado, uma vez que o que remetia ao espantalho; outros, verdadeiramente encantadores, uma vez que a minaudière na forma de um urso entorpecido.
Ainda há uma soma contemporânea, criando um paralelo entre o história de fadas e a proeza cotidiana, suspensa entre ficção e funcionalidade. Alguns forros escondiam pequenos bilhetes de seda com lembranças —ou acúmulos— de fainas dessa mulher que veste Chanel no dia a dia. Ou, assim uma vez que a fundadora, criou a própria vida porque aquela que tinha não agradava a ela.





