Na marca de três anos da morte do jornalista Dom Phillips, a Feira do Livro preparou uma homenagem ao britânico que foi assassinado junto ao indigenista Bruno Pereira no Amazonas.
Nesta quarta (18), Alessandra Sampaio, viúva de Dom, e o colega Tom Phillips —que apesar do mesmo sobrenome não compartilha parentesco com o morto— conversaram com o cineasta Otavio Cury sobre o trabalho do jornalista e seu livro póstumo em uma mesa no auditório principal da feira.
A plateia repleta de colegas de Dom lembrou, junto com os convidados do palco, o trabalho de um repórter corajoso e focado, também um varão inquieto e recreativo. Uma das anedotas compartilhadas por Sampaio foi além do profissional.
Antes de morrer, Dom deixou um testamento em que descreveu tudo o que queria em seu funeral. Determinou que deveria ser uma reunião festiva de seus amigos e definiu até as músicas que seriam tocadas. E assim foi feito. “Ele não queria ninguém triste”, contou a viúva.
Quando morreu, o jornalista fazia pesquisas para seu livro “Porquê Salvar a Amazônia”, que deixou truncado. Amigos e colegas portanto se reuniram para terminar a obra. O trabalho colaborativo necessário para salvar o livro, segundo afirmou Sampaio, é o mesmo necessário para salvar a amazônia.
“O que aconteceu foi um delito contra nossa liberdade”, afirmou Cury. Segundo Sampaio, a dimensão da tragédia vivida por Dom e Bruno é triste, mas serve uma vez que chamado para que as pessoas olhem para a Amazônia.
Ao final da noite, foi exibido nos telões externos da feira o filme “Onde a Floresta Acaba”, um curta-metragem dirigido por Cury uma vez que “sua despedida” para Dom, que classifica uma vez que “um filme de afeto”.
Em seguida, no palco Petrobras, os escritores Raphael Montes e Edyr Augusto, dois nomes fortes do suspense brasiliano, conversaram com a radialista Roberta Martinelli sobre cancelamentos, os limites do horror e também compararam processos criativos e de escrita.
Enquanto o responsável de “Jantar Secreto” costuma levar dois anos para ortografar suas histórias, o jornalista de “Pssica” surpreendeu o colega ao recontar que termina um livro em um mês e meio, escrevendo “exclusivamente” duas horas por dia.
A rapidez se dá porque as histórias parecem se revelar sozinhas, afirmou Augusto, uma teoria que Montes disse ser loucura. “Ninguém fala no meu ouvido, sou eu que sento e escrevo”, afirmou.
Mas quando o tópico é cancelamento, os dois concordam. Montes disse que costuma beirar ser cancelado por ousar demais no horror das cenas que escreve. Segundo ele, “o limite é o bom tino de cada responsável, que define até onde a história vai”.
Já Augusto afirmou que poderia ser cancelado por seus livros, mas dorme tranquilo quando, independentemente do que escreveu, acredita que foi muito escrito.
Mais cedo, quando o sol rachava no meio da tarde, admiradores do jornalista Ignácio de Loyola Brandão se reuniram para ouvir o imortal da Ateneu Brasileira de Letras. Ele foi recebido em seu encontro com a jornalista Iara Biderman, no palco Petrobras, com uma salva de palmas de quase um minuto e se despediu ovacionado de pé.
A idade de Brandão, que completa 89 anos no próximo mês, foi tema na mesa assim uma vez que tem sido tema em sua vida. Seu lançamento mais recente, “Só Sei que Nasci”, foi inspirado pela neta de dois anos.
No livro, o jornalista e jornalista discorre sobre as angústias de um avô que teme não ver a neta crescer e também teme o que o mundo guarda para ela.
Brandão se diz idoso, e não velho, porque segundo ele velho é quem tem saudades e idoso, quem tem projetos. O projeto que o mantém vivo, diz, é o de seu próximo livro. “Risco de Queda” vai falar sobre a vida na terceira idade.
Brandão concluiu o encontro com um tanto que, segundo ele, nunca fez antes em 60 anos trabalhando com literatura —leu seus escritos antes de serem publicados. “Nem minha mulher leu uma página daquilo que estou escrevendo”, afirmou.
“Talvez quando esses jovens de hoje envelhecerem, não se vejam dentro das mesmas armadilhas nas quais caímos”, diz o trecho do romance ainda inédito.
A Feira do Livro segue com programação gratuita até o próximo domingo, dia 22, na terreiro Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu.
