Em mesa na flip público canta 'que a vida vai

Em mesa na Flip público canta ‘que a vida vai melhorar’ – 31/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O incômodo diante do trabalho doméstico, legado escravagista persistente convertida em cicatriz racista e classista na sociedade brasileira, deu o tom da quarta mesa da programação de 2025 da Flip, a Sarau Literária Internacional de Paraty.

Intitulada “A Moradia, O Mundo”, a mesa reuniu duas escritoras premiadas, a chilena Alia Trabucco Zerán e a brasileira Lilia Guerra, com mediação da jornalista Micheline Alves, que promoveu um diálogo natural entre as autoras em torno de suas obras e lembrou que o Brasil tem 6 milhões de trabalhadores domésticos. A maioria desses profissionais é composta por mulheres negras.

Apesar da densidade do tema, a conversa foi pontuada por risos e aplausos do público e pela revolta, espanto e emoção das autoras. Terminou com a toada do samba “Canta Canta Minha Gente”, de Martinho da Vila, dos quais refrão diz que “a vida vai melhorar”, verso cantado pelos espectadores que deixavam a tenda principal da Flip ao final do debate.

Trabucco Zerán é autora de “Limpa”, romance fundamentado em um delito real no qual uma trabalhadora doméstica que morava na mansão dos patrões há sete anos envenena a filha do parelha. Na investigação das motivações do delito, coloca o dedo na ferida de uma relação permeada de violência e perpetuada por uma classe abastada dentro de suas próprias casas.

“Recebi mensagens de mulheres, provavelmente patroas, que ficaram furiosas com o livro. Talvez porque tenha revelado um tanto sobre a família chilena que não se quer enxergar”, afirmou a autora, que quis tratar do tema a partir do silenciamento dessas mulheres e da raiva porquê um tanto que pode ser lido socialmente. “Foi muito difícil redigir essa romance por desculpa do incômodo que ela me provocava.”

Guerra, que além de escritora é facilitar de enfermagem em um posto de saúde da periferia de São Paulo, lançou no ano pretérito “O Firmamento para os Bastardos”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, que tem porquê personagem principal Sanarinha, uma trabalhadora doméstica porquê foram sua avó, sua mãe, sua tia e até a própria autora.

“Eu acompanhava a minha avó no trabalho, e ela sempre tomou muito desvelo para que eu não fosse sua assistente, porque não queria aquilo para mim. Mas, apesar disso, eu projetava essa curso para mim, porque me parecia que não seria digno da minha secção se eu não tivesse também essa experiência”, afirmou Guerra.

Essa trajetória permitiu a ela observar trabalhadoras domésticas e seus empregadores. “Na hora de redigir, eu tinha experiência para descrever e recorri às minhas observações, escutas e memórias para essas construções.”

Guerra se emocionou ao ler, com a voz embargada, um trecho do livro de Trabucco Zerán, sua companheira de mesa, em que ela relata que a personagem, Stella, era chamada de outros nomes que não o seu próprio.

É uma experiência generalidade a trabalhadoras domésticas, contou ela, usando um vestido com a estampa da escritora Carolina Maria de Jesus, que tem seu nome trocado até hoje com frequência para Maria Carolina.

A escolha do tema, explica, veio não unicamente de sua vivência familiar e pessoal, mas das inquietações que isso provocou. “Eu pensava: porquê é que consegue tolerar aquilo tudo e seguir com o dia?”, afirmou. Ela contou que sua mãe às vezes levava 15 dias para conseguir chorar por um tanto ruim que havia realizado no seu trabalho e que a avó cortava couve fina porquê ninguém porque apanhou quando ainda cortava a verdura em tiras grossas. “Esse tipo de relato, indignação e raiva delas eu guardo para usar na minha voz.”

“Verso não paga aluguel no Brasil”, leu a escritora paraense Monique Malcher durante a mesa seguinte, intitulada “Todas as Formas”, que reuniu ela e a poeta gaúcha Mar Becker, amarrando prosa e verso e as duas pontas do Brasil. As autoras nasceram a mais de 3.600 quilômetros de intervalo uma da outra e ambas fazem secção de uma geração que usa as redes sociais para reverberar suas escritas.

A força de suas obras, em leituras e declamações, cativaram o público e contornaram uma mediação confusa da livreira Nanni Rios, que só pediu para as autoras falarem sobre seus livros depois de transcorrida metade do tempo da mesa.

Malcher é dona de uma prosa poética potente que destilou em dois livros. O primeiro, “Flor de Gume”, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria contos. O segundo, um romance intitulado “Degola”, conta a história de uma família que deixa Santarém, no Pará, cidade natal da autora, para se mudar para uma ocupação em Manaus.

Becker estreou sua verso em 2020 com “A Mulher Submersa”, finalista do Jabuti e vencedor do prêmio Minuano de Literatura, e agora lança “Noite Devorada”, pela Círculo de Poemas, projeto exaltado durante a mesa por ser uma iniciativa dedicada à verso —coisa rara no Brasil.

“Verso é uma pedra porosa”, definiu a gaúcha, para quem o poema é um tanto que nunca acaba. “Sinto que a vocábulo poética tem vinculação com o vivido, o vivo, a voz. E sinto extrema dificuldade em fixar a verso no papel.”

Juntas, Malcher e Becker falaram sobre o ódio porquê motor de sua literatura, da relação com as interpretações de seus leitores, e do desconforto que o ofício com a vocábulo provoca.

“Meu maior desconforto é saber que, quando o texto fica pronto e vai a público, ele não está mais nas minhas mãos e será lido porquê ironia, porquê denúncia ou porquê desserviço à minha revelia. Dá vontade de pegar ele de volta e expor: ‘Desleia!’”, brincou a poeta, que fez a plateia tombar no riso em vários momentos com histórias divertidas e poemas cheios de sarcasmo.

Já Malcher disse pouco se importar com o que vão descobrir de seus textos. “Vou permanecer muito feliz se as pessoas gostarem, mas a verdade é que estou mais ligada se eu estou satisfeita com o que estou escrevendo. E eu nunca estou confortável escrevendo”, brincou.

Folha

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