Em Veneza, ‘Dau’ fecha projeto sobre a opressão sob Stálin – 09/09/2026 – Ilustrada
Um dos filmes mais esperados do Festival de Veneza deste ano, “Dau”, de Ilya Khrzhanovsky, levou ao público uma noção de uma vez que era a vida sufocante na sociedade soviética no auge do stalinismo. É a desfecho do megalômano projeto que o cineasta nascido na Rússia —mas que renunciou à cidadania por divergências com o governo Putin— iniciou há duas décadas, envolvendo a construção de um gigantesco estúdio, em que pessoas literalmente moraram por mais de um ano. Tudo para fazer uma submersão na União Soviética de meados do século 20.
Construído na Ucrânia, o set reproduzia o que teria sido um instituto de pesquisa científica soviético, onde morou e trabalhou o físico Lev Landau, vencedor do Nobel e uma das cabeças por trás do desenvolvimento bélico nuclear de Moscou no pós-Guerra. Centenas de pessoas aceitaram morar verdadeiramente ali e serem filmadas, uma vez que se vivessem nos tempos do vértice do totalitarismo.
Tudo, dos víveres aos produtos industrializados no set, eram réplicas que davam às pessoas a sensação de viver naqueles anos. As pessoas não podiam nem deixar o estúdio para não transpor da submersão, e não havia roteiro a seguir: deviam levar suas vidas normalmente, exclusivamente seguindo por regra fingir que estavam na União Soviética e se deixando ser filmadas.
Em 2020, depois selecionar as melhores histórias registradas, Khrzhanovsky finalizou o primeiro de vários longas do projeto, “Dau. Natasha”, exibido no Festival de Berlim. A trama girava em torno de uma garçonete que vive um romance proibido com um estrangeiro, sendo punida por isso.
A pandemia atrapalhou o lançamento nas salas de novos filmes, mas outros longas foram parar em um site específico do projeto. Mas a obra definitiva, centrada na vida de Landau no instituto —esta, sim, a partir de um roteiro mais preciso—, necessitou de mais tempo para ser concluída. Novas filmagens foram feitas desde a pandemia, em outras locações, até chegar ao longa exibido no Lido.
Antes de estrear, o filme já causou controvérsia, quando o Ministério da Cultura da Ucrânia se manifestou contrariamente à inclusão do longa na disputa de Veneza, pelo simples vestuário de o diretor ter nascido na Rússia e de a obra falar sobre temas russos.
Khrzhanovsky, que hoje tem cidadania alemã, britânica e israelense, disse ser oposto à guerra iniciada por Putin e que o filme, ao contrário, é uma forma de reprovar autoritarismos, inclusive o da Rússia atual.
O longa tem mais de três horas de duração, começando com a juventude de Landau —espargido uma vez que Dau—, portanto um cintilante pesquisador, que prezava sua liberdade supra de tudo. Mas Stálin estava de olho nos talentos que poderiam ajudar a União Soviética a se tornar uma força militar capaz de fazer frente à dos Estados Unidos, e logo seus auxiliares entraram em contato com Dau para convencê-lo a colaborar.
O físico recusou, dizendo que não era moralmente defensível uma pessoa usar seu talento em prol da ruína do que era humano. Mas não cumprir as “sugestões” dadas pelo governo significava arcar com consequências terríveis: prisão, tortura e, em alguns casos, a morte.
Assim, Dau acaba aceitando fazer secção do programa de pesquisas bélicas, e, se os soviéticos de vestuário alcançaram os americanos em termos de poderio militar, devem muito às pesquisas do físico.
O filme é visualmente sempre impactante —o cenário e as performances transmitem, de vestuário, uma teoria de uma vez que era a URSS do auge da repressão. Khrzhanovsky nem sempre tem muita habilidade para tocar uma cena adiante, e secção disso se explica pelo método que ele mesmo escolheu, de deixar as falas surgirem organicamente.
Assim, o filme tem problemas de fluidez e, uma vez que é muito extenso, por vezes o testemunha pode perder o foco. Mas a atmosfera é tão carregada que o filme funciona muito muito naquilo que ele pretende: dar uma noção do horror que era viver naquela sociedade autoritária.
A grandiloquência do projeto se faz perceber do início ao termo —Khrzhanovsky mostra que tem o temperamento barroco e um tanto insano de que um diretor precisa para um tanto tão monumental. O grande problema é que, já em “Dau. Natasha”, Khrzhanovsky tinha conseguido esse mesmo feito.
“Dau” exclusivamente foca a experiência do pesquisador, mas, em termos gerais, o longa protagonizado pela garçonete já trazia o que “Dau” tem de mais marcante, e com algumas cenas mais extremas. O filme há de funcionar melhor com quem não conhece o anterior.
Também na competição, o francesismo Stéphane Brizé levou ao Lido “Un Bon Petit Soldat”, retrato do mundo corporativo atual, em que as pessoas são capazes de terebrar mão de sua própria humanidade diante do pânico de perder o trabalho. O foco é em uma diretora de RH que precisa mourejar com o tirânico CEO de sua empresa, tomando atitudes insensíveis com alguns funcionários em nome do bom funcionamento da corporação.
Brizé inaugura o que seria um registro ao mesmo tempo realista e caricatural para falar do mundo corporativo, e ele acerta no tom. Por fim, esse meio chegou a tal ponto de sem razão que só se pode falar sobre ele com qualquer realismo a partir da caricatura. Alba Rohrwacher tem uma performance irretocável no papel da mulher que vê sua vida desmoronar por motivo do trabalho, e Vincent Lindon atinge a sublimidade com o seu odioso CEO. É um filme hilário, mas também desolador. É o melhor longa da curso de Brizé e uma das mais bem-sucedidas obras já feitas sobre o mundo do trabalho.





