Encravada entre os fundos da Câmara Municipal e a passarela do terminal Bandeira, na Bela Vista, região meão de São Paulo, a terreiro Memorial Vladimir Herzog homenageia o jornalista que lhe empresta o nome, assassinado pela ditadura em 1975, e é fruto de uma construção coletiva que revigorou o espaço ao longo dos últimos 14 anos.
Um dos idealizadores desse ponto de encontro foi Elifas Andreato, companheiro de Herzog cujas obras estão espalhadas pelo sítio. Neste domingo (29), nos quatro anos de morte do artista gráfico –que em 22 de janeiro pretérito completaria 80 anos–, o homenageado será ele próprio.
Porquê em todo último domingo do mês, as entidades que mantêm a terreiro –administrada oficialmente pela Câmara Municipal– organizam o encontro Todo Mundo Tem que Falar, Trovar e Manducar!, reunindo sobretudo jornalistas, artistas, acadêmicos e estudantes num clima de congraçamento, sarau e sarau.
Dessa vez, a tertúlia celebra vida e obra de Elifas, porquê era chamado o responsável de algumas das mais célebres capas de disco da música brasileira, sobretudo de sambistas porquê Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes e Adoniran Barbosa, mas também Elis Regina e Chico Buarque, para referir poucos entre tantos.
Entre 11h e 15h, haverá lançamento dos livros “Nunca Mais”, de Camilo Vannuchi, e “A Parteira Pariu a Repórter”, de Ana Maria Cavalcanti, apresentação do jornalista e bandolinista Luis Nassif com o grupo Nosso Pranto e, de almoço, o nhoque da sorte de Dona Dudu. O sistema, porquê sempre, é “quem pode paga, quem não pode pega”, com imposto sugerida de R$ 30.
Além das obras permanentes de Elifas espalhadas pelo lugar, trabalhos dele impressos em tecido vão inventar a ambientação mormente para a homenagem. Os filhos do artista, Bento e Laura, estarão presentes.
O pequeno recanto quase escondido na esquina da rua Santo Antônio com a Rossio da Bandeira ganhou novidade vocação em 2012, quando o portanto vereador Ítalo Cardoso propôs mudar seu nome, de terreiro da Divina Providência para terreiro Vladimir Herzog, e espalhar no sítio obras de Elifas.
“De sorte que a terreiro viesse a converter-se num verdadeiro memorial em resguardo da liberdade de prensa”, porquê escreveu a viúva de Vlado, Clarice Herzog, na apresentação do relatório final da Percentagem da Verdade da Câmara Municipal, que recebeu o nome do jornalista.
Dias em seguida a proposta ser endossada pela família de Herzog, Elifas foi ao sítio com integrantes do Instituto Vladimir Herzog. “Ali mesmo, observando o entorno e riscando o solo com os pés, foi desenhado o que será o memorial”, escreveu Clarice em 2012.
Desde portanto, quatro obras do artista foram instaladas na terreiro. No paredão da Câmara, um mosaico de cerâmica reproduz a tela “25 de Outubro” –data do assassínio de Herzog, que retrata a tortura por ele sofrida.
Ao lado, no mesmo paredão, há placas de vidro com os nomes dos 1.006 signatários do manifesto Em Nome da Verdade, que contestava a farsa do Tropa sobre o sucídio do jornalista. No núcleo da terreiro, surge uma reprodução da estátua em bronze “Vlado Vitorioso”, concebida por Elifas a pedido da ONU; e, mais próximo às escadarias que dão para a rua, uma réplica do Troféu Vladimir Herzog, que funde a silhueta dele a uma meia-lua e é outorgado aos jornalistas vencedores do prêmio homônimo.
Logo depois da morte do artista, em 2022, os mantenedores da terreiro deram a ela mais um nome, Meio Cultural a Firmamento Franco Elifas Andreato.
“É uma forma de os dois amigos, Vlado e Elifas, se reencontrarem pra sempre. Sua vida, sua obra, sua memória, seus sonhos”, sintetiza Sergio Gomes, o Serjão, fundador da Oboré, referência em jornalismo sindical e comunitário e uma das entidades integrantes do Coletivo Cultural Associação de Amigos da Rossio Vladimir Herzog –ao todo são 19, incluindo os institutos Vladimir Herzog e Elifas Andreato.
Ao lado de Elifas e do jornalista Audálio Dantas, Serjão compôs o grupo responsável por liderar a reconfiguração da terreiro. E atuou para que o sítio seja hoje certificado porquê ponto de cultura pelo Ministério da Cultura e porquê ponto de memória pelo Ibram, o Instituto Brasiliano de Museus.
Também foi Serjão que encabeçou a concretização da única teoria do projecto original de Elifas que até pouco tempo ainda não havia saído do papel, um espaço com o nome de todos os jornalistas ganhadores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Com adaptações em relação ao esboço concebido em 2012, foi inaugurado em outubro pretérito o Calçadão do Reconhecimento, no passeio diante à terreiro, onde começaram a ser colocados tijolos com esses nomes.
Filha de Elifas, a artista e educadora Laura Andreato relata outras ações para festejar a memória do pai nos seus 80 anos. Uma parceria do Instituto Elifas Andreato com a universidade Belas Artes vai disponibilizar segmento do ror do artista, para os alunos da instituição e consulta pública. Pelo mesmo projeto, foram realizados neste mês debates sobre a obra de Elifas com convidados porquê Tom Zé, Zeca Baleiro, Fátima Guedes e Serjão, entre outros.
Estão em tempo de negociações a montagem de uma exposição com obras de Elifas e o lançamento de um ou dois livros sobre o artista, diz Laura, sem dar detalhes.
Ela ressalta as dificuldades e particularidades para reunir criações do pai ao longo de décadas. “O trabalho final dele era um resultado gráfico. Logo essa teoria que a gente vê nas artes plásticas do original porquê tendo um valor, pra ele sempre foi uma coisa… aquilo não era ainda a obra, né? A vida toda ele distribuiu, dava de presente, porquê a maioria das capas que fez pro Martinho [da Vila], pro Paulinho [da Viola].”
Um pouco antes de Elifas morrer, encaminhou para Laura uma mensagem que havia recebido no WhatsApp de alguém que comprara um trabalho dele. “Era um retrato que ele fez para um item que saiu na [revista] Playboy sobre o Geraldo Vandré. Um retrato incrível, em que no lugar do rosto dele tem uma sentimento do dedo. E meu pai perguntou, ‘porquê é que você tem isso?’. E a pessoa falou: ‘comprei numa feirinha da igreja por R$ 10′”, diz a filha, entre risos.
“Ele era um artista que pensava o resultado final, o original dele, porquê sendo o que saía da gráfica. Ele pensava o trabalho para ser reproduzido, distribuído. E isso, para mim, é um dos aspectos interessantes da obra do meu pai. Ainda mais agora, que o vinil está voltando, pessoas de muitas gerações podem saber o trabalho dele.”
Elifas Andreato nasceu em Rolândia, interno do Paraná, em 1946 e cresceu numa família marcada pela pobreza. Contava que seu avô enlouqueceu depois que uma geada destruiu o cafezal da família. Era rapaz quando o pai, alcoólico, abandonou a família. Aos dez anos, vendia salgados em bordéis de Londrina para ajudar na renda de vivenda.
Mudou-se para São Paulo aos 13 anos e foi morar num cortiço na Vila Anastácio, onde conheceu um senhor que lhe arranjou o primeiro ofício fixo, de novel de torneiro mecânico na Fiat Lux. Só foi alfabetizado aos 15 anos. Estimulado por diretores da fábrica, encantados com seu traço, começou a fazer cenários para bailes e festas da firma.
“E aí tem uma história curiosa”, diz Laura. “Os donos da fábrica vêm da Inglaterra e acham tudo lindo e falam, nossa, esse menino tem talento, vamos demiti-lo e dar um numerário pra ele inaugurar porquê artista. E ele era meio arrimo de família e gasta esse numerário rapidamente e fica desempregado.”
Pouco depois, seria contratado porquê estagiário na Editora Abril, onde logo se tornaria diretor de arte e um dos principais ilustradores e designers do país.
O trabalho na fábrica reforça a consciência social que marcaria a vida de Elifas, militante contra a ditadura que atuou na prensa selecção nos anos 1970, em jornais porquê Opinião, Argumento e Movimento. Um dos seus primeiros trabalhos, ainda jovem, foi um edital para a Fiat Lux para prevenção de acidentes de trabalho —uma mão espalmada em vermelho.
A mesma palma ilustraria um dos seus últimos trabalhos, a envoltório de um livro para o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco sobre o mesmo tema –mortes e acidentes de trabalho. “Mostra o compromisso do Elifas, de ponta a ponta da vida, com a classe trabalhadora”, afirma Serjão.
