Entenda caso de amor intenso de Duchamp e Maria Martins – 15/09/2026 – Ilustrada
Com movimentos que lembram uma dinâmica de submissão misturada a um bote, as duas formas que compõem “O Impossível”, uma das esculturas mais célebres da artista brasileira Maria Martins, parecem prontas para infamar uma a outra.
À esquerda, uma forma preta em bronze, mais baixa e larga que seu par, lembra uma água-viva, com tentáculos ondulados se abrindo. Um corpo cartunesco, com pezinhos, cria uma orifício de virilha onde repousa um pênis flácido. A esse par de pernas está colada a outra forma, esguia, com cintura marcada, quadril largo e seios femininos. Daí sobe um pescoço que se transmuta numa boca de vegetal carnívora, cujas perninhas se entrelaçam aos tentáculos da outra forma. É uma eterna provocação.
Não à toa o título da obra de Martins dá nome ao livro que resgata a história de paixão entre ela e Marcel Duchamp, escrito por Francis Naumann, um dos grandes especialistas no galicismo. A relação, discreta e avassaladora, era impossível desde o início. Martins era casada com o emissário do Brasil nos Estados Unidos e não pretendia largar o marido.
Lançado nos Estados Unidos em março deste ano e traduzido para o português no mês pretérito, o livro remonta a relação discreta e avassaladora dos dois artistas a partir de registros de registo e entrevistas com familiares.
É provável que o parelha tenha se sabido em 1943, quando Martins vivia em Novidade York porquê embaixatriz. “Diga-me quem são seus inimigos, para que eu possa ajudá-lo a odiá-los”, ela teria dito ao galicismo.
Essa linguagem especulativa perpassa o livro “Impossível”. Isso porque o responsável tenta, sem a pretensão de atestar verdades, juntar os estilhaços deixados pelo parelha. É um quebra-cabeça em que faltam muitas peças. Duchamp tinha o hábito de rasgar as cartas que recebia depois de as responder —era segmento de um sistema de organização pessoal, não uma paranoia por privacidade— e não se sabe o que Martins dizia a ele.
Mas sabemos o que o artista dizia a ela. Sabido porquê pai do dadaísmo, vanguarda irreverente que abraçava o nonsense, o Duchamp que aparece na biografia está despido das camadas cerebrais associadas à sua arte e aparece à flor da pele porquê Marcel.
“Porquê eu gostaria de respirar com você”, escreve ele, em outubro de 1948. “Sinto-me de todo perdido, agora que estamos completamente isolados um do outro. Esse isolamento dói”, escreve, em 1950, quando Martins se mudara para Paris com o marido.
Segundo Naumann, os sentimentos de Duchamp por Martins desmontam uma imagem pública que ele tentava edificar. O artista dizia que se sentia livre porque recusava as coisas da vida que os outros precisavam, dentre elas, uma namorada ou mulher. Ao mesmo tempo, sofria pela paixão que sentia por sua amante inatingível.
“Eu já havia sugerido, no pretérito, que a direção da influência normalmente atribuída a Duchamp –irradiando-se dele para praticamente todos os artistas que entraram em contato com sua obra– poderia, no caso de Maria Martins, ter seguido o caminho inverso: dela para ele”, escreve o historiador.
Esse sentimento todo transbordou em opulência para a obra dos dois. Martins produziu a estátua que dá nome ao livro em 1945, poucos anos depois de saber o dadaísta. Uma missiva de Duchamp de 1949 dá indícios de que “O Impossível” seja sobre eles e deixa evidente que sua obra final “Étant Données”, feita entre 1946 e 1966, seria inspirada em Martins. “Porquê sempre dissemos, a saída está na sua estátua e na minha mulher com a boceta ensejo”, ele escreve.
A obra à qual Duchamp se refere, sua última, foi um mistério por anos. Ela só foi exibida em 1969, no Museu de Arte da Filadélfia, depois da morte do artista, em 1968. É uma instalação que só pode ser vista por uma pessoa de cada vez —o testemunha deve espreitar por dois orifícios numa porta de madeira.
Ali, fica visível uma estátua de um corpo feminino nu, com as pernas abertas, sobre um fundo de cascata. Martins foi a padrão para a estátua.
O galicismo presenteou a artista com um estudo da obra, em que estava inscrito: “Esta senhora pertence a Maria Martins com todo o meu afeto”. A peça, que Martins guardava em seu quarto, foi emprestada por ela para uma retrospectiva de seu amante e exibida na Tate Gallery, em Londres. À era, o marido de Martins já havia morrido.
Além de servirem porquê inspiração um para o outro, o parelha se ajudava mutuamente. Foi Duchamp quem inseriu Martins no círculo de surrealistas parisienses e a incluiu na mostra “Exposition Internationale du Surréalisme”, de 1947. Lá, ela exibiu “O Impossível”. Martins, por sua vez, usava do seu poderio econômico para comprar obras a pedido do amante, caso de “Broadway Boogie Woogie”, de Piet Mondrian, doada ao MoMA.
Em 1948, o marido de Martins foi nomeado emissário do Brasil na França e mudou-se para Paris com a família. Os amantes passam a trocar cartas intensamente, mas a intervalo entre Novidade York e a França se prova desafiadora demais para a relação. Em 1949, com a aposentadoria do marido, Martins volta para o Brasil em definitivo. “Não consigo nem expor ‘escreva’ mais. Essa situação está me levando ao desespero”, escreve Duchamp, em 1950.
No ano seguinte, ele enfim se conforma. “Aceitei a situação tal porquê se mostra e não busco mais encontrar uma solução milagrosa”, escreve. Ele envia também uma folha com um coração desenhado com giz de cera vermelho e a matrícula: “isso é para Maria”.
“Duchamp deu a Martins todo o seu coração”, diz Naumann, “e queria que ela fosse segmento da vida dele. Mas ela já era segmento de outra vida e não podia se desvincular disso”. Em 1951, Duchamp conhece Teeny Matisse, que se tornaria sua esposa em 1954.
Os amantes voltariam a se ver em 1966 pela última vez. Naumann acredita que foi nesse encontro que Duchamp assinou, no braço da boneca, “Marcel Duchamp 1946-1966”. “Não há incerteza de que a obra foi influenciada por ela”, diz. “E foi necessário esse vínculo emocional para concretizá-la.”





