Com o livro Coração sem Susto, o jornalista Itamar Vieira Junior encerra sua trilogia sobre a terreno, que teve início com o grande sucesso Torto Arado, e passou por Salvar o Queimada. Neste seu novo livro, o jornalista fala sobre os desterrados e também sobre um tema bastante universal na literatura, mas que, no Brasil, atravessa principalmente as populações mais periféricas: o desaparecimento de um rebento, possivelmente vítima de violência.
Coração Sem Susto compõe essa Trilogia da Terreno – histórias que se comunicam e que falam desse recta rudimentar fundamental e que atravessa a vida de todos, mas que ainda é recusado para muitos. Conta a história de Rita Preta, uma personagem que vive em Salvador..
“É a história daqueles que foram desterrados, que não puderam lutar pela terreno. Rita é uma mulher feliz, é caixa de supermercado, ela, enfim, toca a vida uma vez que pode, tem três filhos e, de repente um dos filhos desaparece. E aí começa a jornada dela para saber o que aconteceu”, contou.
Embora seja ficcional, o drama vivido por Rita Preta reflete um número cruel da verdade brasileira. Só no primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, uma média de 242 sumiços por dia. Em todo o ano pretérito, foram 85.232 casos de desaparecimentos, uma média de 234 sumiços a cada dia.
Os dados fazem segmento do Pintura Estatístico do Sistema Vernáculo de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, e podem não refletir totalmente a verdade, já que muitos casos sequer são notificados.
Em entrevista à Dependência Brasil, antes de falar do seu novo livro na Sarau Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre, lotado, Itamar Vieira Junior revelou que o drama vivido por Rita atinge todas as classes sociais, embora suas maiores vítimas sejam as mães que vivem nas periferias brasileiras.
“Eu sei que o desaparecimento atinge todas as classes, pessoas de todas as origens, mas ele é cruel porque se concentra muitas vezes naqueles que mais precisam e daqueles que mais carecem de políticas públicas do Estado. Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta”, afirmou.
No livro, o desaparecimento ocorre posteriormente um desentendimento entre mãe e rebento. Com o passar dos dias, no entanto, a operadora de caixa vai percebendo que o desaparecimento pode não ter ocorrido por pretexto disso e ela passa portanto a dedicar-se à procura pelo paradeiro de rebento.
“A nossa cidade, Salvador, infelizmente está enxurrada dessas mulheres que precisam enfrentar essa história, essa dor. Vivemos em um estado que tem uma das polícias mais letais do país. Essa é uma verdade. Vivemos em um espaço também onde o violação está conflagrado. E isso atinge as pessoas inocentes, pessoas que, enfim, querem unicamente viver. E é importante lembrar de tudo isso. E o que é que resta depois? O que é que sobra para essa mulher, para essa personagem? Ela vai desistir da vida ou vai buscar por justiça?”
Durante essa procura pelo rebento, Rita Preta vai perceber que “a história não começou exatamente agora, mas é um pouco que vem de muito tempo antes” e que ela vai precisar se conectar com seus avós e suas origens.
“Essas perdas atravessam a história da humanidade. Nós convivemos hoje com mulheres que estão passando por isso e a gente nem se dá conta de que parece que a história humana tem essa capacidade de se repetir em muitos tempos.
Para o jornalista, a literatura também tem uma capacidade grande de humanizar. Essas histórias aparecem muitas vezes na prelo, mas aparecem de forma superficial.
Quem trata dos sentimentos e das subjetividades humanas é a arte e a arte tem o poder de restituir a vida, de humanizar aquilo que parece desumanizado”, disse ele.
Embora seja capaz de humanizar, essa mesma arte ainda não é capaz de fornecer respostas, afirma Itamar. A tarefa da literatura, no entanto, acrescenta, continua sendo a de provocar incômodos ou reflexões sobre o indumentária. “Acho que sempre há caminhos. Tudo que a arte não faz é dar respostas. Eu acho que ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, a arte tem essa capacidade de incomodar. E acho que é a partir do incômodo que as mudanças vêm”.
Do campo para a cidade
Em seu novo romance, Itamar Vieira Junior transporta a ação do campo, uma vez que ocorreu em Torto Arado, para a cidade.
“A gente pensa em Salvador, nessa riqueza cultural, nessas contradições históricas e parece que tudo já nasceu e já aconteceu cá. Mas essa cidade cresce e acontece a partir de muitas chegadas”, disse ele ao público presente no Largo do Pelourinho durante a Flipelô.
“Desde os povos originários que cá estavam, passando pela invasão dos europeus e pela diáspora para Salvador, afluíram tantos povos, tantas etnias. E no século 20, em privado, chega muita gente do interno da Bahia por meio do êxodo rústico. Muitos vieram viver na cidade pelo acirramento dos conflitos – seja pelo acirramento dos conflitos fundiários, seja pela esperança que depositaram na vida na cidade”, afirmou.
No caso da personagem principal de seu novo livro, Rita Preta é uma pessoa que sai do campo para viver na capital baiana e, em Salvador, percebe que há muitos outros conflitos na vida urbana. “Eu sei que muitos chegaram cá e a história da Rita é semelhante à história de muitos que aportaram em Salvador para viver – e que, às vezes, fugiram de um conflito fundiário, uma vez que ela escapa, mas cá vai desvendar que a cidade é um território desigual, que também vive em disputas. A cidade não pode ser habitada por todos da mesma maneira. Pelo contrário”.
Ainda há muita desigualdade, ainda há muita diferença e é isso que o romance de alguma maneira vai apresentar para o leitor, destacou Itamar.
Seja no campo ou na cidade, esse drama sobre o recta à terreno, ressaltou o jornalista, perpassa toda sua trilogia.
“Eu digo o seguinte: em Torto Arado, a terreno é território e pertencimento. Em Salvar o Queimada, ela se confronta com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado. E em Coração sem Susto, essa história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea”, disse ele.
Essa terreno que une os três livros, afirma o jornalista, poderia ser entendida uma vez que um lugar físico, uma memória antepassado ou até mesmo uma vez que aquilo “que um povo carrega consigo mesmo quando já lhe arrancaram a própria terreno.
“Quando um personagem, que é o rebento da Rita, desaparece nesse último romance, esse corpo, que é um território, não é muito dissemelhante da terreno que está em disputa em Torto Arado, nem é muito dissemelhante da terreno que é tida ali uma vez que patrimônio de uma igreja em Salvar o Queimada. Esse corpo é um território também. E se tiraram ele de Rita é porque ainda existem corpos e ainda existem territórios que não são cuidados, que não são integrados e que não estão vivos porque essa violência histórica nos atravessa”.
* A repórter e a fotógrafa viajaram a invitação do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro solene de mobilidade da Flipelô 2026.








