Escritores de Alagoas criam coletivos para publicar livros 18/11/2025

Escritores de Alagoas criam coletivos para publicar livros – 18/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O cenário literário de Alagoas vem se redesenhando. Escritores têm criado seus próprios selos para publicar obras e dar visibilidade à produção autoral alagoana, muitas vezes fora do radar das grandes editoras.

A autonomia, no entanto, esbarra em um repto: fazer com que esses livros circulem e sejam lidos dentro e fora do estado.

A Bienal Internacional do Livro de Alagoas, que aconteceu de 31 de outubro a 9 de novembro, foi uma oportunidade para que esses autores conquistassem mais espaço. Participaram de mesas redondas, lançamentos e discussões sobre literatura.

Conforme a última pesquisa Retratos da Leitura, Alagoas tem índices baixos: somente 39% têm o hábito de ler contra 47% do país porquê um todo.

“Não há em Alagoas, por exemplo, políticas públicas para compras de livros publicados por editoras locais, de autores locais, para se partilhar em bibliotecas. Portanto, precisamos que seja visto quem ainda não é visto. Uma vez que fazer para que saibam que a gente existe?”, diz o jornalista Nilton Resende.

Ao lado de Nando Magalhães e Luiz Roberto Farias, ele é idealizador da Trajes, que tem os selos Trajes Lunares, para literatura alagoana, e Trajes Solares, voltado para textos não-literários sobre o estado.

“Ainda não tivemos lucro na Trajes Lunares. Eu trabalho de perdão, os livros somente se pagam. Eu trabalho no vermelho. Acaba-se falando mais de livros que já estão no hype. As próprias livrarias grandes que estão por cá vendem o mesmo catálogo de outros estados. A gente manda livros pelo Brasil, mas pode ser que nem abram”, afirma Resende.

A Trajes surgiu em 2015, formalizou-se em 2017 e em 2019 fez seu primeiro lançamento, uma versão reeditada de “Diabolô”, escrito por Resende. Em ranking compilado recentemente pelo jornal Publicação de Alagoas, a obra foi escolhida porquê o melhor livro alagoano do século 21.

“Eu mandava para as editoras e ninguém tinha interesse em publicar uma segunda edição de um livro de contos de um responsável ignoto de Alagoas. Portanto, conseguimos publicá-lo e também livros de autores nascidos ou radicados em Alagoas. Milton Rosendo, Bruno Ribeiro, Brisa Paim… Depois passamos a publicar livros da literatura alagoana contemporânea.”

Neste ano, a literatura alagoana tem uma finalista no prêmio Oceanos, Ana Maria Vasconcelos, com o livro de verso “Longarinas”, da editora 7Letras. Ela foi semifinalista em 2024, com “O Rosto é uma Máquina Aquosa”, da Ofícios Terrestres Edições.

Segundo Vasconcelos, a literatura alagoana vive um momento efervescente, em plena mudança no aproximação a editoras, alguma coisa mais restrito há uma dez.

“As publicações independentes e digitais quebraram uma barreira interessante, finalmente a dificuldade de aproximação não só impedia os escritores de publicarem seus textos porquê também tornava mais improvável que os próprios escritores se percebessem enquanto tal”, afirma.

“Hoje temos chamadas recorrentes de várias editoras, de diversos gêneros, o que estimula desde o processo de escrita em si até a circulação de uma gama muito mais ampla de nomes. Parece difícil que a gente consiga olvidar, mas esquece: o Brasil é muito grande.”

Foi a premência de dar voz à flutuação dos autores alagoanos que surgiu a Loitxa Lab, coletivo com Janderson Felipe, Jean Albuquerque, Lucas Litrento e Richard Plácido.

Na Bienal do Livro, foram lançados três livros da editora: “Iberê a Cavalo”, de Plácido, “O Suicídio das Borboletas”, de Tatiana Magalhães, e “Esconjuro”, de Érika Santos. E foram republicados “TXOW”, com que Litrento foi semifinalista do prêmio Oceanos em 2021, e uma versão em audiolivro de “A Ressaca do Mar Trincou Meus Ossos”, que Albuquerque lançou pela Loitxa em 2021.

“A editora surge da vontade de publicar do nosso jeito, a possibilidade de ter autonomia sobre cada lanço do processo, desde a concepção da capote, a escolha da natividade e do diagramador, até o tipo de papel. Queríamos que cada pormenor traduzisse a identidade da obra e de quem a produz”, diz Albuquerque.

“Isso não quer proferir que somos essencialmente artistas artesanais ou que não vamos trabalhar com produtoras e editoras maiores, muito pelo contrário”, afirma Litrento. “Mas trabalhar na Loitxa nos permite testar artisticamente e contribuir para o fortalecimento de uma prisão produtiva que ainda é muito frágil.”

O responsável diz que a Loitxa não publica somente autores negros, mas os prioriza pelo libido de “sacudir as expectativas em torno do lugar e dos limites do exposição da negritude alagoana”. “Por fim, nós só podemos falar das mesmas coisas e do mesmo jeito de sempre? A resposta é óbvia.”

O caso Braskem, em Maceió, considerado o maior sinistro ambiental em espaço urbana do país, é tema da plaquete “Esconjuro”, de Érika Santos. Os primeiros tremores de terreno na região foram registrados em 2018, com soçobro do solo e rachaduras em imóveis. Mais de 40 milénio pessoas foram afastadas de suas casas.

“Utilizar a literatura para falar sobre o delito da Braskem em Maceió foi uma forma de não deixar a memória da nossa cidade em silêncio”, afirma a autora. “Embora tenha sido muito duro mourejar com essa verdade na escrita, ‘Esconjuro’ é um ato de solidariedade a todas as pessoas e a todas as espécies que tiveram suas vidas violentadas em prol do progresso do capitalismo.”

Folha

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