Esquerda erra ao atacar o jornalismo para defender Moraes

Esquerda erra ao atacar o jornalismo para defender Moraes – 06/01/2026 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Sim, eu sei que esta semana deixamos de ser especialistas em jornalismo investigativo, conspirações da mídia e condutas inapropriadas de membros da Suprema Galanteio porque nos tornamos experts em recta internacional, democracia e geopolítica.

Mas gostaria de retomar aspectos de um debate ainda incompleto —e decisivo para o porvir da democracia brasileira— que gira em torno das denúncias publicadas por grandes jornais sobre condutas impróprias ou insuficientemente explicadas envolvendo ministros do STF e, sobretudo, do modo porquê a esquerda reagiu a elas: assumindo a resguardo de Alexandre de Moraes por meio de ataques ao jornalismo e à reputação de uma jornalista em privado, Malu Gaspar.

O primeiro ponto que labareda a atenção é o empilhamento de fatos. Não se trata de um incidente solitário, de uma frase mal interpretada ou de um vestígio frágil. São contratos, contatos telefônicos, relações profissionais sensíveis e omissões explicativas que, mesmo considerados separadamente, já exigiriam esclarecimentos públicos. Tomados em conjunto, formam um quadro que, no mínimo, merece escrutínio rigoroso. Enfim, até o negacionismo mais facultativo tem nos fatos um limite incontornável, e, quando eles são muitos e se acumulam, é difícil fingir que não existem.

O segundo ponto é a pobreza estratégica da resguardo. Toda a reação se concentrou numa única tática: declarar que Malu Gaspar mentiu, que é “lavajatista” e que opera com uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo. Trata-se de uma investida moralmente duvidosa e intelectualmente frágil. Não há mostra de falsidade, não há negação factual consistente, unicamente rótulos e suspeitas projetadas. Fora do círculo militante, isso não se sustenta.

Malu Gaspar entra nesse incidente com um patrimônio reputacional saliente, construído ao longo do tempo, sem histórico de partidarização ou militância disfarçada. Se alguém se dispuser a fazer a pergunta rudimentar —quem teria mais a lucrar mentindo: a jornalista, os juízes ou os banqueiros envolvidos?—, a aposta racional reafirmaria a credibilidade da jornalista. Combater essa credibilidade sem prova não a enfraquece, unicamente expõe quem a ataca.

Há ainda um efeito perverso aparentemente não levado em conta. Ao mobilizar uma resguardo agressivamente partidária de Moraes, a esquerda faz um desserviço ao próprio ministro. Um juiz constitucional depende não unicamente da validade de seus atos, mas também da ar de imparcialidade. A adoção repentina e feroz de Moraes pela esquerda só reforça a sensação —ainda que mal-intencionada— de que ele seria um juiz parcial e antidireita. Ser defendido dessa forma é péssimo para a sua reputação institucional.

O problema se agrava quando se adota o homicídio de reputação de jornalistas porquê tática política legítima. No caso de Malu Gaspar, isso se expressou por um repertório muito sabido: acusá-la de mentir sem provar em quê; rotular sua apuração porquê “lavajatista” para dispensar o fiscalização dos fatos; atribuir-lhe uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo; tratar o uso de fontes protegidas porquê prova de má-fé; e reinterpretar reportagens independentes porquê segmento de uma conspiração coordenada da mídia. Não se rebate a informação —tenta-se obstar quem a produziu.

Esse método não é unicamente mal-parecido, é autodestrutivo. Primeiro, porque iguala moralmente esquerda e extrema direita: o bolsonarismo faz exatamente o mesmo. Segundo, porque jornalistas, porquê qualquer outro campo profissional, tendem a reagir solidariamente a ataques injustos. O resultado previsível não será o silenciamento, mas mais investigação.

Aliás, foi exatamente esse tipo de jornalismo investigativo —com fontes protegidas, apuração persistente e enfrentamento de poderosos— que expôs o orçamento secreto, a “rachadinha” do clã Bolsonaro, o gabinete do ódio, a interferência política na Polícia Federalista, a Abin paralela e, antes disso, práticas graves no governo Temer. O mesmo método revelou fraudes empresariais monumentais e desmontou a Lava Jato a partir da Vaza Jato. Em todos esses casos, a prelo também foi acusada de enredar, de ter agenda, de querer “desestabilizar o país”. Hoje, poucos duvidam de sua preço democrática.

No termo, a estratégia adotada consegue um feito notável: transformar um escândalo envolvendo banqueiro e relações impróprias de poder num problema da esquerda. É difícil imaginar alguma coisa mais estúpido e contraproducente —para a esquerda , para a credibilidade do STF e para a democracia.


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Folha

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