'Estranhos no Cais' pouco ultrapassa clichês de diáspora 14/11/2025

‘Estranhos no Cais’ pouco ultrapassa clichês de diáspora – 14/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Estranhos no Cais: Retrato de uma Família”, livro de memórias de Tash Aw publicado no Brasil pela Todavia, se insere em uma linhagem bastante explorada da literatura contemporânea: a narrativa da diáspora e suas ansiedades de pertencimento.

A publicação é bem-vinda, tanto por dar visibilidade ao tentativa autobiográfico, quanto por aproximar o leitor brasílico da complicação étnica e cultural de famílias chinesas em sua passagem pelo Sudeste Asiático até a chegada na Europa.

A ficha catalográfica classifica o livro porquê “literatura malaia”, designação que merece questionamento. Se o teor remete a memórias de uma família na Malásia —mas não exclusivamente—, a forma, o estilo e a língua o inserem no universo da literatura diaspórica asiática escrita em inglês —gênero consolidado e com convenções próprias.

O responsável nascido em Taiwan, criado em Kuala Lumpur e radicado no Reino Uno desde que se formou legisperito em Cambridge, construiu uma curso literária sobre personagens deslocados cuja identidade fraturada transcende a noção de nacionalidade. Neste livro de memórias, porém, os limites desse projeto ficam evidentes.

As memórias abarcam a história de três gerações: das viagens temerárias de paquete dos dois avós do responsável da China continental para a Malásia nos anos 1920, passa pela puerícia do narrador nos anos 1980, sua tomada de consciência sobre classe e divisões sociais, chegando até sua experiência porquê estudante em Cambridge nos anos 1990.

“Estranhos no Cais” se abre com uma tirada divertida sobre a percepção que o narrador produz em cada lugar do Sudeste Asiático por onde passa, sendo sempre confundido com um nativo. Mas essa lisura promissora logo dá lugar a um apanhado de reflexões sobre cultura, história e identidade que em raros momentos consegue ultrapassar o clichê dos discursos diaspóricos.

Aw privilegia sistematicamente a reflexão sobre a experiência vivida, o mapeamento sobre a mergulho. Longos trechos do livro são porquê sumário explicativo, numa prosa que prefere o arrolamento de informações à densidade atmosférica ou à geração de cenas.

O narrador menciona “o incômodo do silêncio” entre ele e o pai, com quem realiza entrevistas para usar na própria narrativa, mas essa tensão permanece mais enunciada do que sentida. Falta textura, peso emocional e profundidade sátira.

A impaciência do narrador em interpretar a trajetória familiar a partir de seu ponto de chegada, ao mesmo tempo em que explica as nuances culturais ao leitor, resulta em comentários meta-culturais que controlam excessivamente o sentido das experiências e dos retratos familiares.

A segunda secção do livro, construída porquê um tipo de epístola à avó —mulher de origem pobre e de grande força—, não resolve a oscilação entre a procura do efeito de emoção no vínculo familiar e a culpa do privilégio conquistado, permanecendo aquém de sua potência literária.

Há um gesto que se repete ao longo do livro: o responsável se posiciona porquê portador de uma complicação cultural de difícil mortificação pelo Oeste. O problema é que essa postura, insistentemente reafirmada, acaba reforçando justamente a partilha binária e o orientalismo que pretende questionar.

A confrontação com outros autores que transitam por território semelhante é inevitável. Ocean Vuong, dentro do mesmo universo temático da diáspora asiática, alcança de modo orgânico o aprofundamento da reflexão via dramatização da experiência.

Neste livro, é porquê se a experiência precisasse sempre se justificar, mas as reflexões que propõe nos momentos mais ensaísticos carecem de profundidade histórica e correm de perto o risco da auto-exotização da diáspora.

Quando descreve as hierarquias criadas em uma mesma geração na escola que frequenta na Malásia —”Ao longo de um único ano, nós nos dividimos, nos subdividimos, e foi a classe, não a raça, a responsável por essa cisão”—, a reparo é perspicaz, mas a realização permanece externa ao fenômeno descrito. Funcionam porquê ilustrações pedagógicas de uma tradução pronta de antemão.

Os eventos recordados são mais recenseados do que revividos, resultando numa prosa que avança por concentração de achados em vez de construção de situações em que o leitor pode imergir.

É uma memória que enuncia suas ansiedades e dilemas, mas que nunca chega a se tornar uma experiência ensaística à profundeza da complicação da vida diaspórica que a inspira.

Folha

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