A 23ª rodada do Campeonato Brasílico começou neste sábado (15) com os holofotes direcionados para uma mudança que pretende mudar a cultura do antijogo arraigada por décadas no futebol do país. Goleiros que demoram a cobrar o tiro de meta, jogadores que deixam o campo sem pressa durante substituições ou que simulam faltas passam a ser claro de punições.
Na última semana, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) propôs, e os clubes aprovaram, um pacote de dez novas regras criadas pela Ifab (International Football Association Board), instituição que coordena as regras do futebol, em sua maioria testadas na última Despensa do Mundo. Elas valerão para as séries A e B do Brasílico, a Série A1 feminina, a Despensa do Brasil masculina e a Despensa do Brasil feminina.
“São o que chamamos de textos de regra, que não requerem versão. Regras frias que o louvado precisa satisfazer, e o jogador precisa se adequar. No meu entendimento, será uma luta positiva, que mexerá até com a proposta estratégica das equipes. Se antes um treinador pedia para o desportista tombar no campo para segurar um resultado, hoje não o fará mais”, disse à Folha Ana Paula de Oliveira, ex-árbitra e ex-presidente da percentagem de arbitragem da FPF (Federação Paulista de Futebol).
A regra que obrigou jogadores de risca atendidos em campo a satisfazer um minuto fora foi aplicada por 36 vezes no Mundial. O número foi considerado um sinal de que os atletas passaram a pensar duas vezes antes de interromper a partida por uma suposta lesão. Os goleiros, porém, tiveram tratamento dissemelhante: foram registrados 30 atendimentos sem que houvesse uma punição específica.
É nesse ponto que o Brasílico vai além do torneio da Fifa (Federação Internacional de Futebol). Caso um goleiro receba atendimento médico, o técnico de seu time terá dez segundos para indicar um jogador de risca que deixará o campo. Se não o fizer, o capitão sairá. Caso o goleiro seja o capitão, será retirado um jogador previamente sorteado.
“A CBF foi corajosa com essa medida envolvendo os goleiros. A Fifa não conseguiu, a Conmebol [Confederação Sul-Americana de Futebol] não se apropriou”, afirmou Ana Paula.
No Brasil, também haverá a emprego de outra regra inédita, esta sugerida pela própria CBF, que é a exclusividade dos capitães para questionar as decisões dos árbitros.
A intenção é uma só: erguer o tempo efetivo de jogo. Preocupou a entidade um estudo da empresa Opta que apontou média de 52 minutos e 54 segundos de esfera rolando por partida da Série A, inferior dos principais campeonatos europeus e da MLS, a liga americana. Na Série B, o índice foi de 51 minutos e 9 segundos. A meta de pequeno prazo é depreender um pouco entre 57 e 58 minutos.
Apesar do otimismo, há ressalvas sobre a implementaçãoa. Para o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon, a entidade deveria ter utilizado a longa paralisação de 50 dias durante o Mundial para a capacitação e um melhor entendimento dos envolvidos.
“Sou favorável, parabenizo muito a CBF pela iniciativa, mas acho que já poderíamos ter utilizado esse gap de quase 50 dias para ambientar os árbitros, que, por sinal, com mais tempo de esfera rolando, terão também ainda mais a urgência de um bom condicionamento”, alertou Simon, comentarista de arbitragem dos canais ESPN, que ainda considera necessário um vasto trabalho de conscientização.
“As pessoas sabem das mudanças pelo que ouvem, mas não entendem na prática. É necessário mais justificação, não pode permanecer só no reduto da arbitragem. Noto muitos torcedores abrindo relato para a cera do goleiro somente quando põem a esfera no campo para cobrar o tiro de meta, mas a regra diz que, se o desportista deliberadamente começa a fazer cera, a partir deste momento já se pode transfixar relato”, acrescentou.
Já Ana Paula de Oliveira observou que é necessário para a Percentagem de Arbitragem definir diretrizes claras para evitar a exposição de árbitros em situações consideradas de dupla versão.
“A Fifa trabalhou com maestria o erro de identidade, doendo a quem doesse. Vimos o jogador da Suíça [Breel Embolo] expulso pelo segundo amarelo respeitando as diretrizes, assim porquê foi aplicado ao jogador do Paraguai [Miguel Almirón]. Dentro do retângulo do campo, houve critério. Mas, em uma situação dúbia, quem vai instituir o que é amarelo ou expulsão? Isso precisa vir da percentagem de arbitragem”, disse.
“Em um caso parecido com o do Embolo, há base para dar cartão para um terceiro jogador envolvido, se for o caso? Precisa ter transparência.”
O ex-árbitro e comentarista Arnaldo Cézar Coelho acredita que seria necessário um rigor mais evidente quanto às simulações.
“Acho tudo muito válido, mas a privação de um rigor maior quanto à simulação é um erro grave porque o que mais acontece cá é o jogador colocar a mão no rosto”, avaliou.
Uma das novas regras prevê expulsão sempre que um jogador cobre a boca durante uma discussão em campo.
Diferentemente da Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) e da Conmebol, que optaram por não adotar a Lei Vini Jr –batizada desta forma por desculpa de situação vivida pelo brasílico, ofendido por Prestianni, do Benfica, em um jogo da Liga dos Campeões–, a CBF prometeu punição mais severa.
As dez novas regras
1. Oito segundos com a esfera nas mãos
Se o goleiro ultrapassar o tempo limite, a posse será revertida ao oponente, com cobrança de escanteio.
2. Cinco segundos para lançadura lateral
O tempo começa a racontar logo que o jogador pega a esfera na mão. Se passar de cinco segundos, a posse será revertida ao oponente.
3. Cinco segundos para a cobrança do tiro de meta
O jogador terá cinco segundos para realizar a cobrança. Se ultrapassar o tempo, o oponente ganhará um escanteio.
4. Dez segundos para o jogador substituído deixar o campo
Caso ultrapasse o limite, o desportista poderá ser intimidado com cartão amarelo.
5. Um minuto fora em seguida atendimento médico
Atletas que receberem atendimento médico dentro de campo terão de permanecer fora do gramado por um minuto antes de poderem retornar.
6. Goleiro atendido fará jogador de risca deixar o campo
Se o goleiro precisar de atendimento médico, um jogador de risca deverá permanecer fora do jogo por um minuto. O técnico ou o capitão aponta quem sai.
7. Somente o capitão poderá falar com o louvado
Unicamente o capitão poderá se aproximar do louvado para discutir decisões. Quem desrespeitar o protocolo poderá receber cartão amarelo.
8. Resguardar a boca durante discussão
Jogadores que cobrirem a boca com as mãos durante uma discussão com adversários receberão cartão vermelho.
9. VAR poderá revisar segundo cartão amarelo
Isso ocorrerá exclusivamente em situações envolvendo um segundo cartão amarelo que resulte em expulsão. O primeiro, porém, não será passível de revisão.
10. VAR poderá revisar escanteio que resulte em gol ou pênalti
A partir de 2027, o VAR poderá intervir quando um escanteio for facultado de maneira equivocada e, na sequência da jogada, resultar em gol ou pênalti.





