Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

Exposição cria diálogo entre arte indígena e Brasil atual
Celebridades Cultura

Exposição cria diálogo entre arte indígena e Brasil atual – 11/05/2026 – Ilustrada

Glicéria Tupinambá conta que, quando exibiu um de seu mantos em um museu pela primeira vez, a reação do público foi de estranhamento.

Os visitantes esperavam se deparar com alguma coisa semelhante à imponente envoltório de penas vermelhas de guará, à estação em vias de ser repatriada depois de séculos na Europa. Mas a veste sagrada que ela tecera “tinha cor de caramelo”, suas penas oriundas de aves nativas da Mata Atlântica.

Outrossim, seu véu não estava contornado de vidro e identificado por uma etiqueta, porquê costumam estar os artefatos indígenas exibidos em instituições museológicas. Ele trajava um corpo que circulava.

Foi naquele momento que ela percebeu que era preciso instigar os brasileiros a entender que pessoas porquê ela seguiam vivas e eram vozes com quem se podia conversar, trocar. “Não havíamos conseguido extrapolar o lugar da vitrine. O véu em movimento, dançando o toré [ritual indígena], quebra isso”, diz a artista e pesquisadora.

Glicéria vestiu seu véu novamente na semana passada, na início de “Eu Chorei Rios: Arte dos Povos Originários da América”, na FGV Arte. A mostra foi organizada por ela ao lado do curador do espaço, Paulo Herkenhoff —responsável por fazer do MAR, o Museu de Arte do Rio, detentor de um dos maiores acervos de arte indígena do país, com mais de 600 peças autóctones.

A exposição inaugurada agora reúne trabalhos de artistas nativos e não nativos dos mais diversos períodos. Seu objetivo, segundo Glicéria, é rasgar o véu que parece separar os membros dessas comunidades do restante da sociedade, convidando os visitantes a refletirem sobre pretérito e presente da produção indígena. “As pessoas esperam um purismo que não existe. Essas artes vêm para aldear o imaginário sobre nós”, afirma.

Herkenhoff diz considerar a mostra uma espécie de prolongação de “Procrastinar o Termo do Mundo”, coletiva que ele organizou junto com o ativista e pensador Ailton Krenak na mesma galeria no ano pretérito.

Questionado sobre porquê as duas exposições conversam, ele responde que “Eu Chorei Rios” traz “um salto em uma novidade direção”. Ele cita a incorporação de trabalhos de outras regiões das Américas, porquê Guatemala e Peru. “É sempre arte indígena, mas com especificidades ora individuais, ora geopolíticas”, diz. “São outras possibilidades de observar.”

Glicéria, por sua vez, conta que fez questão de incluir entre os participantes artistas que vêm de outras partes do país que não a Amazônia. É o caso do alagoano Ziel Karapotó. Nordestino porquê a artista tupinambá, os dois estiveram juntos no Pavilhão do Brasil da Bienal de Veneza passada —registros da performance dele “Pajé Peixe” dividem espaço com ampliações de obras de nomes porquê a fotógrafa Maureen Bisiliat nas colunas do pilotis do prédio da FGV, a Instauração Getúlio Vargas, no segundo marchar da exposição.

A justaposição de trabalhos de artistas indígenas e não indígenas é uma estratégia que se repete ao longo da mostra. Em uma sala, padronagens de Daiara Tukano feitas com plumas coloridas têm porquê contraponto uma tapeçaria francesa do século 18.

Ali perto, diante de uma instalação de Dias & Riedweg sobre uma comunidade na Amazônia peruana que reproduz os costumes da estação do Novo Testamento, está uma das versões que Lygia Pape fez do véu tupinambá. A estátua, uma esfera coberta por penas artificiais —estas, sim, vermelhas— buscava recordar simultaneamente a venustidade e o terror segundo a artista neoconcreta.

São diálogos frutíferos, em próprio quando incluem obras de nomes que abriram caminho para a inserção da arte indígena no volta solene de arte contemporânea no país, porquê a própria Tukano ou Denilson Baniwa, Gustavo Caboco, Jaider Esbell —o último, representado na exposição por um par de serpentes que lembram aquelas que ele fez flutuar sobre o lago do parque Ibirapuera na antepenúltima Bienal de São Paulo, as esculturas protegendo um inaudito jardim construído mormente para a mostra.

Outro participante é Xadalu Tupã Jekupé, que inaugurou no início deste mês uma série de painéis na ciclovia da avenida Paulista. É ele quem assina a obra que, pintada na frontaria da FGV Arte, recebe os visitantes da exposição, uma representação da cosmogonia tupi-guarani.

Questionado sobre porquê vê o horizonte da arte indígena, Xadalu diz que seus rumos são, em certa medida, insondáveis. Mas que, tendo resistido até cá, ela “sempre existirá, independentemente do que aconteça”.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *