Exposição em SP propõe releitura do sertão como espaço de

Exposição em SP propõe releitura do sertão como espaço de resistência

Brasil

Quando se fala em sertão, geralmente se associa a uma região interiorana, localizada no Nordeste brasílico, com solo mais raso e pedregoso e chuvas escassas, muito sujeita à seca.

Mas uma exposição inédita, que será ocasião ao público nesta quarta-feira (15), na capital paulista, oferece novo sentido ao sertão, já que esse lugar, em verdade, não existe: os mapas oficiais do Instituto Brasiliano de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, não reconhecem sua existência.

Chamada de Atlântico Sertão, a mostra propõe novo significado para a região, colocando-a porquê espaço ampliado de resistência em resguardo dos direitos humanos. Aproveitando o sentido da frase de Guimarães Rosa, “O sertão está em toda secção”, a novidade exposição explora a vocábulo porquê exigência humana. E discute esse novo sentido por meio da arte.

“O sertão é um termo afetivo, não é técnico ou coisa parecida. Caatinga seria o termo mais correto. O sertão é, de veste, uma espécie de construção imaginária e imagética”, disse Marcelo Campos, um dos curadores de Atlântico Sertão.

Segundo ele, o sertão foi um tema fundamental para o século 20. “A gente conheceu o sertão pela pena e pelas canetas dos escritores Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e tantas e tantos outros. Mas conhecemos um sertão específico, onde o grupo era chamado de povo. Era uma espécie de volume, de representação muito coletivizada e pouco de falas individuais”, acrescentou durante a sinceridade da mostra para convidados.

Pesquisa acadêmica

Atlântico Sertão se baseia nas pesquisas acadêmicas de Marina Maciel, responsável pela direção universal e concepção do projeto. Seu trabalho teve início com o manifesto “Direitos humanos achados na arte”, que depois deu origem ao Coletivo Atlântico, que se define porquê um movimento social, artístico, jurídico, político e filosófico na resguardo dos direitos humanos por meio da arte.

Fundamentado na teoria de que o Oceano Atlântico foi o caminho do massacre colonial, o coletivo criou a primeira exposição, chamada de Atlântico Vermelho, para ser exibida em Genebra, na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2024. Depois veio Atlântico Floresta, que ocorreu durante as reuniões do G20, no Rio de Janeiro. Agora, em São Paulo, o coletivo criou Atlântico Sertão porquê forma de dar visibilidade às pessoas que sempre ficaram à margem da estrutura colonial e que lutam, “com valentia sertaneja”, para romper as formas de vexame por meio da arte.

“Lá na ONU, a primeira teoria foi pensar o Atlântico das diásporas, dos sequestros e das travessias. E logo depois, a gente foi atualizando o projeto, pensando a floresta e os povos originários”, explicou.

Agora, falamos sobre o sertão, acrescentou. Campos lembrou que são dois biomas que constituem muitas histórias brasileiras, muitas narrativas, muitas fábulas, muitos romances, muitos livros, mas que ao mesmo tempo são dois lugares de estigmatização. “E essa exposição, agora vendo ela montada, tem um compromisso de tirar esses lugares das suas próprias estigmatizações”..

Além das exposições, o Coletivo Atlântico tem proposto um projeto de lei, em discussão no Congresso desde 2024, que pretende regulamentar a profissão de artista visual no Brasil.

“Até hoje, artistas não têm a profissão reconhecida. O artista sempre é disposto em outro tipo de categoria, porque a categoria artista plástico ou artista visual não existe na carteira de trabalho. São lutas muito básicas, direitos muito básicos que nós ainda não conseguimos ocupar”, disse o curador.

A exposição

A mostra pode ser vista no Meio Cultural Banco do Brasil (CCBB), localizado no meio de São Paulo, e reúne trabalhos de mais de 70 artistas de diversas regiões do país. O projeto ocupa todos os andares do prédio com pinturas, esculturas, fotografias e instalações. Além de Marcelo Campos, a curadoria da exposição também é assinada por Ariana Nuala, Amanda Rezende, Jean Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade.

“Para essa mostra, a gente quer que o sertão diga quem ele é. Portanto, são artistas de diversas regiões do país que lidam, muitas vezes, com as realidades que os romances regionalistas trouxeram, mas que lidam de outro modo. O sertão não é só a terreno rachada, o manada sedento ou a morte. Muito ao contrário, é sinônimo de tecnologia, tecnologias que fazem com que as pessoas permaneçam vivendo em Juazeiro do Setentrião ou no Cariri”, ressaltou o curador.

Estruturada em seis eixos, a visitante tem início em uma sala que reproduz o verdejante profundo das vegetações, que significam a resistência e as veredas sertanejas ou a vida que teima em florescer. No andejar seguinte, o visitante se depara com uma sala azul, que mostra a imensidão do firmamento, refletindo sobre a liberdade e também sobre a coletividade, cosmologias e práticas espirituais. A jornada prossegue por salas em tons laranja, vermelho e amarelo que mostram o pôr do sol e as tonalidades que banham o sertão ao término do dia, significando o incêndio das lutas.

Durante o trajectória, o visitante vai perpassar por discussões sobre a relação entre a terreno e o mar, as heranças indígenas, africanas e populares, as práticas espirituais, a organização da vida, o conhecimento ascendente, os modos de vida, a memória e as conexões entre o Brasil e a África. Nesse último núcleo, devotado à relação com a África, são destacados os fluxos de pessoas e os saberes que atravessam o Atlântico, reforçando a teoria de que o sertão é também um território de circulação e permanência, onde diferentes tempos e geografias seguem em diálogo.

No andejar térreo, está sendo apresentada uma instalação inédita da premiada artista multimídia biarritzzz, que foi toda projetada para essa dimensão do CCBB. A obra reúne múltiplas telas digitais, em uma estrutura triangular que dialoga com o imaginário do sertão, em referência ao triângulo, instrumento icônico dos trios de forró. “O triângulo é um dos instrumentos musicais para os trios de forró e sertanejos. Mas é também um triângulo que junta a gente às sonoridades do deserto africano”, destacou Campos.

Além da exposição, a programação do CCBB também propõe a realização de debates com artistas e atividades educativas focadas no recta ao sonho, na reparação histórica e no papel da arte na resguardo dos direitos humanos.

Depois a temporada paulista, a exposição seguirá para o CCBB Salvador, em setembro, e para o CCBB Brasília, no início de 2027. Mais informações sobre a mostra podem ser obtidas no site da mostra.

Fonte EBC

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