Famílias lutam para reconstruir a vida um mês depois de

Famílias lutam para reconstruir a vida um mês depois de chuvas em MG

Brasil

Há um mês, a vida de milhares de famílias na Zona da Mata Mineira foi completamente impactada por enxurradas, deslizamentos de terreno e enchentes. Chuvas fortes se concentraram, principalmente, na noite do dia 23 de fevereiro e provocaram 73 mortes: 65 em Juiz de Fora e 8 em Ubá. 

As chuvas também deixaram um rastro de devastação que se estendeu por Matias Barbosa e municípios próximos.

No meio de tantas histórias, a de Claudia da Silva, de 71 anos, se destacou. Ela é moradora do Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, e disse ter perdido 20 pessoas da família. A comunidade, que concentra pessoas de baixa renda, fica em uma encosta e teve o maior número de mortes na cidade (22).


Juiz de Fora (MG), 27/02/2026 - A moradora do Jardim Burnier, Cláudia da Silva, fala sobre o luto de perder vários parentes no deslizamento de terra ocorrido durante a tempestade da segunda-feira, 22 de fevereiro, no bairro de Juiz de Fora. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 27/02/2026 - A moradora do Jardim Burnier, Cláudia da Silva, fala sobre o luto de perder vários parentes no deslizamento de terra ocorrido durante a tempestade da segunda-feira, 22 de fevereiro, no bairro de Juiz de Fora. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Moradora do Jardim Burnier, Cláudia da Silva conta que perdeu 20 pessoas da família. Foto: Rovena Rosa/Dependência Brasil

Quando conversou com a reportagem da Dependência Brasil pela primeira vez, Claudia lidava com o luto, ao mesmo tempo em que ajudava as equipes de procura por desaparecidos. Com o passar das semanas, ela teve mais tempo para processar os acontecimentos. O cansaço e a desesperança ficaram mais profundos.

“Eu tive que procurar tratamento psicológico por conta própria. É muita coisa para a minha cabeça. Um sobrinho que sobreviveu está no CTI [centro de terapia intensiva]. Ele só tem 16 anos e teve que estropiar uma perna. Estou só chorando, desesperada, sem conseguir consumir recta”, disse.

A mansão em que Claudia mora com a mãe de 85 anos foi interditada pela Resguardo Social, mas ela não quis deixar o lugar.

“Temos temor, não dormimos recta e nos sentimos abandonadas. Ninguém dos órgãos competentes veio cá dar esteio, oferecer uma mansão, pelo menos. Não significamos zero para eles, só durante as eleições”, lamenta.

Idas e vindas


Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Maria da Conceição Couto Almeida, moradora do Parque Jardim Burnier, um dos bairros mais atingidos pela chuva. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Maria da Conceição Couto Almeida, moradora do Parque Jardim Burnier, um dos bairros mais atingidos pela chuva. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Maria da Conceição Couto Almeida, moradora do Parque Jardim Burnier, um dos bairros mais atingidos pela chuva. Foto: Tânia Rêgo/Dependência Brasil

A aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, de 62 anos, também é moradora da comunidade e disse viver uma rotina diária de deslocamentos. Durante a noite, ela se abriga na mansão da filha, mas volta toda manhã para o imóvel interditado pela Resguardo Social para limpeza e manutenção.

“Você leva uma vida inteira para edificar uma mansão e, de repente, tem que trespassar assim, na correria, só com a roupa do corpo. Suspendemos tudo da nossa vida, mas não podemos desabitar a mansão assim”, conta.

A situação afeta diretamente a saúde da família. O marido faz tratamento cardíaco, enquanto Maria relata agravamento da sofreguidão e dificuldades para manter cuidados com a diabetes. Apesar de cadastros iniciados por equipes da prefeitura, ela diz que ainda não recebeu esteio financeiro ou habitacional.

“Recebemos somente cesta básica de doações voluntárias. Veio pessoal da prefeitura, cadastrou todo mundo e mandaram ir no Diga [centro municipal de atendimento], mas não fui ainda. Tem lugar que as pessoas demoram 10 horas na fileira. Assim, é muito difícil”, reclama.


Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Milton Angelo de Gusmão, serralheiro, morador do Parque Jardim Burnier, um dos bairros mais atingidos pela chuva. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Milton Angelo de Gusmão, serralheiro, morador do Parque Jardim Burnier, um dos bairros mais atingidos pela chuva. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Nilton Gusmão relata dificuldade para remunerar as contas Foto: Tânia Rêgo/Dependência Brasil

O serralheiro Nilton Angelo de Gusmão, de 60 anos, mora há mais de quatro décadas no Parque Jardim Burnier. Ele diz que ficou semanas sem trabalhar, perdeu contratos e enfrenta dificuldades para manter as contas em dia.

“Eu perdi dois serviços que iam me dar R$ 4 milénio em duas semanas. Chegaram as contas de luz, de chuva, de telefone, e eu tenho que remunerar. Precisamos de ajuda, de qualquer auxílio financeiro para conseguir tocar a vida”, diz Nilton.

Juiz de Fora

A Prefeitura de Juiz de Fora disse que o auxílio calamidade municipal será creditado na próxima segunda-feira (23) nas contas do Cadastro Único (CadÚnico) das famílias afetadas.

Também foi divulgado um levantamento sobre os principais impactos das chuvas na cidade e as ações em curso. Desde o dia 23 de fevereiro, a Resguardo Social já registrou 6.690 ocorrências no município.

Fevereiro de 2026 foi considerado o mais pluvial da história do município, com 763,8 mm. A maior segmento foi concentrada entre 22 e 28 de fevereiro, com 316,6 mm. O recorde anterior para o mês era de 1988, com 456 mm. A média histórica de pluviosidade de fevereiro é de 173 mm.

Mais de 8,5 milénio pessoas ficaram desabrigadas. O município registrou 1.008 moradias completamente destruídas e oito imóveis demolidos. Até o dia 19 de março, 170 famílias estavam hospedadas em hotéis. Desse totalidade, 36 famílias já haviam deixado a rede hoteleira. 

Segundo a prefeitura, o entrada aos hotéis foi talhado às famílias desabrigadas que haviam sido encaminhadas inicialmente para os abrigos temporários.

A rede municipal já retomou as atividades em 101 unidades, e cinco escolas permanecem sem retorno até o momento: EM Adenilde Papa, EM Clotilde Hargreaves, EM Antônio Faustino, EM Santa Catarina Labouré e EM Murilo Mendes.

A prefeitura diz que, no período entre 2021 e 2025, investiu R$ 26 milhões em obras de contenções e R$ 62 milhões em 16 quilômetros de redes de drenagem. Também afirma que aplicou R$ 230,6 milhões em manutenção preventiva.


Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas. Foto: Tânia Rêgo/Dependência Brasil

Ubá

A Prefeitura de Ubá informou, em nota, que tem oferecido assistência integral aos moradores mais impactados pelas chuvas. Garante que há oferta de abrigo, alimento e seguimento psicológico.

E que todas as pessoas afetadas pela inundação e deslizamentos de terreno estão sendo cadastradas para entrada a auxílios e benefícios dos governos federalista e estadual.

Diz também que as vistorias nos imóveis atingidos pela inundação foram tratadas uma vez que prioridade. Edificações tidas uma vez que seguras estão sendo liberadas para reocupação. Imóveis que apresentam riscos estruturais permanecem interditados.

Os números da prefeitura indicam que a inundação atingiu uma superfície de aproximadamente 47,4 km², o que representa murado de 11,6% do território do município. O número totalidade de imóveis afetados ainda está em temporada de consolidação.

Desde fevereiro, foram registradas murado de 1.188 famílias desalojadas e 4.790 pessoas diretamente atingidas pela inundação. Atualmente, há duas famílias desabrigadas acolhidas em abrigo mantido pelo município.

O município informou que já foram solicitados mais de R$ 55 milhões ao governo federalista para ações de recuperação e restabelecimento das áreas afetadas.

Matias Barbosa

A Prefeitura de Matias Barbosa diz que, apesar dos transtornos causados pelas chuvas, não houve registro de perdas estruturais graves, uma vez que queda de pontes, desabamentos de residências ou paralisação de serviços essenciais.

Segundo a gestão municipal, foi elaborado um projeto de lei que institui auxílio financeiro municipal para moradores e comerciantes atingidos.

Os valores e critérios estão sendo definidos em conjunto entre os poderes Executivo e Legislativo. Mais de 300 famílias foram impactadas, além de murado de 80% do negócio lugar.

Em visitas técnicas realizadas com representantes do Ministério das Cidades, foram identificadas necessidades de obras de contenção de encostas e medidas para prevenção de alagamentos.

Houve danos estruturais em uma Unidade Básica de Saúde, no bairro Nossa Senhora da Penha. Uma unidade traste na terreiro do bairro foi montada para atendimento à população. Outra unidade traste do município tem focado na vacinação de pessoas que tiveram contato com as águas das enchentes.


Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 19/03/2026 - Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas. Um mês depois dos deslizamentos e alagamentos que causaram a morte de mais de 70 pessoas em Juiz de Fora, além de deixar milhares de pessoas desabrigadas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas. Foto: Tânia Rêgo/Dependência Brasil

Governo federalista

O governo federalista afirma ter mobilizado um conjunto de ações para atender a população e iniciar a reconstrução das áreas afetadas. Ao todo, os recursos destinados e previstos chegam a quase R$ 2 bilhões, incluindo investimentos diretos, crédito e programas habitacionais.

Uma das principais medidas é o Auxílio Reconstrução, no valor de R$ 7,3 milénio por família atingida. O favor ainda está em temporada de cadastro e validação pelas prefeituras. 

Outra frente é a modalidade Compra Assistida do Minha Morada Minha Vida, voltada a famílias que perderam completamente suas casas. O programa prevê subvenção integral para obtenção de imóveis, podendo chegar a R$ 200 milénio por unidade.

O pacote de medidas do governo federalista inclui ações emergenciais para trabalhadores uma vez que a antecipação do abono salarial para 92,2 milénio pessoas e pagamento de parcelas extras do seguro-desemprego. Também foi liberado o saque calamidade do FGTS. 

Até 19 de março, os saques somavam mais de R$ 165 milhões em Juiz de Fora e R$ 38 milhões em Ubá.

Por meio da Secretaria Pátrio de Proteção e Resguardo Social, foram aprovados mais de R$ 55 milhões para ações emergenciais e de reconstrução, incluindo limpeza urbana, recuperação de vias, contenção de encostas e restabelecimento de serviços essenciais.

Na superfície da saúde, foram destinados R$ 14,9 milhões para substanciar o atendimento, com envio de medicamentos, unidades móveis e esteio psicossocial às famílias.

Para ensino e assistência social foram repassados R$ 4,56 milhões para recuperação emergencial de 126 escolas atingidas e R$ 770 milénio para manutenção de abrigos e esteio direto às famílias.

Outrossim, foram abertas linhas de crédito com condições facilitadas. Uma medida provisória liberou R$ 1,3 bilhão em crédito imprevisto, além de até R$ 500 milhões em financiamentos com recursos do Fundo Social.

Segundo o governo, as próximas etapas incluem a aprovação de novos planos pela Resguardo Social, realização de obras de infraestrutura e ampliação das políticas de habitação e assistência social.

Governo estadual

O Governo do Estado de Minas Gerais não respondeu aos pedidos da reportagem da Dependência Brasil para informar ações e investimentos direcionados às famílias afetadas pelas chuvas na Zona da Mata Mineira.

Fonte EBC

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