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'Fire Arena', de Ana Castela, não honra talento da cantora
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‘Fire Arena’, de Ana Castela, não honra talento da cantora – 30/05/2026 – Ilustrada

Cinco anos. Foi disso que Ana Castela precisou para deixar de ser um vídeo viral, alguns segundos em que surge cantando na montaria, para se tornar figura incontornável da atual música sertaneja brasileira —e lucrar tempo de tela que vai de parcerias com medalhões a inúmeras campanhas publicitárias. O feitiço da estreia de história de fadas, mas, vai perdendo fôlego, e seu segundo álbum, “Fire Redondel”, dá sinais de uma cantora talentosa, mas incapaz de tomar as rédeas do jogo.

O disco teria peso se tivesse sido lançado há uma dez por um selo dos Estados Unidos, ali pelas bandas de Nashville, com alguma cantora de nome muito à tendência do sul daquele país, tipo Kacey Musgraves.

Ana Castela, porém, é brasileira, vem da fronteira com o Paraguai, seu rodeio é o Barretão e sua música ecoa dos limites do Chaco à ponta do Matopiba. Lançar um disco de country, ainda que ela e seu time sejam versados no fazer do gênero, é almejar um ideal do Setentrião no Sul. Pode ser jocoso, mas não marca.

Não que a cantora devesse se ater a outro ideal do campo: clichês da viola, um dito som da roça, a prosaica vida caipira —um míope oração urbano. É justamente o oposto. O agronejo, cuja estrela é a própria Ana, surge nesse ímpeto.

É um som do campo contemporâneo, mais jovem que o universitário, conectado aos toques do tech house e ao oração hedonista do funk. Um agenciamento que conseguiu mexer até com o monopólio goiano e recentemente fez de Londrina, polo da soja, a segunda capital do sertanejo.

Só que “Pipoco”, primeiro sucesso de Ana Castela no agronejo, não tem zero a ver com as canções de “Fire Redondel”. “Eu Não Vou Mudar”, segunda filete do disco, segue a silabário do country de cabo a rabo: notas de guitarra com “bends” e “slides” em dedal de metal, amplificadores emulando texturas analógicas, marcação perfeita para “line dance” —os passinhos em grupo do povo do Texas. É um pacote que dilui a voz de Ana Castela, menos protagonista da música pátrio que mímica de um pop internacional.

A pena é maior porque a cantora tem na goela uma caixa de ferramentas afiadíssimas. Em “Vou Vender o Meu Chapéu” ela destila sonância, domina o “twang” —a flexão vocal típica do country—, faz transições entre peito e cabeça, tem justeza nas notas. A exibição, porém, se perde na emulação do bro-country. A música é tão pastiche que botaram ali um violino, instrumento que é completamente estranho à música rústico brasileira, à exceção da rabeca nordestina e de algumas interpretações pontuais.

O som do “fiddle” surge novamente em “Não Depende Só de Mim”, e novamente não se trata de uma reinvenção da tradição campesina dos Estados Unidos ou interceptação com o pop do agro —tentativas que seriam bem-vindas. Até mesmo as palmas parecem importadas, copiadas de uma base de gravações feita para lá do México. Cá fica evidente que o tandem do produtor Mateus Félix e do engenheiro de mixagem Artur Vienna, de Los Angeles, acentuou o som americanizado que já vinha no primeiro disco de estúdio de Ana Castela, “Let’s Go Rodeo”, de 2025.

Seria tacanha expressar que o palato da cantora e do seu time pelo universo do rodeio, aliás, é também um mimese dos Estados Unidos. A história ibero-americana tem práticas similares há séculos, e se o rodeio brasílico há muito se espelha no parente americano é porque a cultura popular brasileira é historicamente abarrotada pelo que vem de cima do continente. Mas o termo, que intitula duas faixas (25% do disco) e povoa várias letras, não dá vazão a uma experiência pátrio da sarau —tudo é impessoal, asséptico, com letras que parecem saídas de um desses “camps” em que compositores escrevem em ritmo industrial.

“Hoje Tem Rodeio” soa uma vez que um repercussão distante do estrondoso hit “Wake Me Up”, do DJ Avicii. A filete é o maior exemplo do yeeDM, a mistura entre country e música eletrônica americana. No Brasil, um equivalente seria o eletrofunk de nomes uma vez que o DJ Jiraya Uai —uma irreverência popular em que Ana Castela não encosta no álbum, ao contrário do que mostra nas suas redes sociais. Tanto filete quanto álbum resultam uma vez que uma tentativa de internacionalizar a cantora, levando-a para fora ou trazendo o que vem de fora para dentro.

A empreitada parece equivocada, e o passo, maior que as pernas. Embora o talento da cantora tenha maduro desde que saiu da pequena cidade de Sete Quedas, no Mato Grosso do Sul, é difícil imaginá-la disputando espaço com nomes do country americano. Da mesma forma, é difícil pensar que esse tipo de country ganhe terreno no país. O hit “Olha Onde Eu Tô” é o único destaque do seu primeiro álbum também centrado no country.

Já que não quer entrar ainda mais na verve desavergonhadamente popular do agronejo —a exemplo da outra Ana, que trilhou no funk passos firmes antes de se lançar no mundo—, Ana Castela poderia se enveredar pela renovação do panteão sertanejo brasílico ou traçar mais pontes entre Brasil e América do Sul. Não é uma aposta desmedida. No pop de hoje, ser latino é bem-visto e rentável, e seus discos ao vivo, sob o título “Boiadeira”, são repletos de lindos clássicos revisitados.

Um deles é “Mercedita”, belíssimo chamamé do folclore sul-americano. Ana canta com Perla, paraguaia-brasileira, assim uma vez que ela é um tanto brasileira-paraguaia. É uma cantoria formosa, com um galopado potente e singelo, o tipo de versão que marca a curso de uma jovem artista em subida. Um tanto dissemelhante de um projeto que, no final das contas, soa mais uma vez que o sucesso “Dia de Rodeio” —aquele do “alô, galera de cowboy” e de cuja orquestra, diga-se, ninguém se lembra nem conhece outra música.

Folha

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