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Flip: Ana Paula Tavares disseca corpo feminino em poesia
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Flip: Ana Paula Tavares disseca corpo feminino em poesia – 17/07/2026 – Ilustrada

Ana Paula Tavares é uma anatomista do corpo feminino. Por meio da verso, ela se debruça sobre veias, lábios e ventres para dissecar a feminilidade em suas diferentes facetas. Em um examinação minucioso, a angolana retrata a mulher não uma vez que objeto de estudo, mas uma vez que um ser desejante e emancipado.

“Conhecia muitas alusões ao corpo feminino sempre com um olhar de fora e descritivo”, diz a poeta. “E eu me interrogava: ‘O que as mulheres pensam sobre o seu próprio corpo?’”

É uma das perguntas que movem o projeto estético da escritora, um dos nomes mais respeitados da literatura contemporânea em língua portuguesa, vencedora do prêmio Camões e convidada de destaque na Sarau Literária Internacional de Paraty, a Flip, na próxima semana.

Doutora em antropologia pela Universidade Novidade de Lisboa e professora da Universidade Católica de Lisboa, a autora de 73 anos escreveu livros uma vez que “O Lago da Lua” e “Amargos uma vez que os Frutos”, coletânea de verso publicada no Brasil pela Pallas.

Algumas de suas produções reviram as vísceras do eu lírico para revelar o que se passa em sua subjetividade. É o que pode ser sentido em um dos poemas de “Ritos de Passagem” —primeiro livro da autora, publicado em 1985.

“Desossaste-me/ Cuidadosamente/ Inscrevendo-me/ No teu universo/ Uma vez que uma ferida/ Uma prótese perfeita/ Maldita necessária/ Conduziste todas as minhas veias/ Para que desaguassem nas tuas.”

No final, o poema muda de tom e sinaliza a recusa à subserviência doméstica. “Hoje levantei-me cedo/ Pintei de tacula e chuva fria/ O corpo aceso/ Não bato a manteiga/ Não ponho o cinto/ Vou/ Para o sul saltar o cingido.”

A poeta diz que refletir sobre o corpo feminino não foi um tanto intuitivo, mas uma decisão consciente. “Não tenho a certeza de ter conseguido em sua totalidade, mas foi uma tentativa de tomar posse de um corpo que era meu.”

A julgar pelo sucesso recente, esse projeto literário tem oferecido notório. No ano pretérito, ela se tornou a segunda mulher africana a lucrar o prestigiado prêmio Camões —o mais importante reconhecimento da literatura em português.

Em nota à prelo, o júri afirmou que a escritora promove o resgate de honra da verso, além de ter uma fecunda e congruente trajetória de geração estética. Em 2021, Paulina Chiziane, de Moçambique, foi a primeira do continente a receber essa láurea.

Além da baixa presença de autores africanos entre os ganhadores, salta aos olhos a escassa representatividade feminina. Dos 38 laureados, exclusivamente dez são mulheres.

“Falta ainda um maior conhecimento daquilo que as mulheres ou fizeram no pretérito ou ainda estão a fazer”, diz a escritora, para quem esse grupo enfrenta percalços não só na literatura. “No cotidiano das angolanas, o sofrimento continua lá. São elas que ainda têm a maior fardo. É o rebento que levam, é o rebento que amamentam, é a família que sustentam.”

A poeta desembarca no Brasil para lançar o livro de crônicas “O Sangue da Buganvília”, também pela Pallas, em uma mesa que protagonizará sozinha na Flip. Tavares diz estar animada para encontrar os leitores brasileiros. “Há um Atlântico inteiro que nos separa, mas que também nos une.”

Ao menos na literatura, a separação entre países lusófonos parece ser maior do que a proximidade. Para a escritora, o Brasil tem feito esforços para acessar a produção de outros mercados de língua portuguesa. Ela diz que isso se faz sentir por meio da lei que tornou obrigatório o ensino da cultura africana e afro-brasileira nas escolas do país.

“Penso que o movimento inverso, ou seja, o conhecimento da moderna literatura que se faz no Brasil, chega com dificuldade. É uma pena.”

Apesar disso, ela nutre espanto por escritores brasileiros uma vez que Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. “Para as pessoas da minha geração, a literatura brasileira foi uma espécie de estágio sobre outras formas de proferir e de encontrar personagens.”

Com Jorge Querido, por exemplo, teve contato com a liberdade feminina na literatura. “À luz do que nós pensamos hoje, podemos acusá-lo de muitas coisas. Mas, nos anos 1960, pensar que uma mulher pudesse ter dois maridos era muito anti-norma.”

Tavares se volta também às paisagens de sua terreno natal. Em poemas uma vez que “Boi à Vela”, a escritora descreve o cenário agrário de Huíla, província angolana onde nasceu. Já em “Dormias”, narra o sono de uma pessoa enquanto pássaros cantam e vacas dão à luz no curral.

O interesse pela natureza é uma legado da tradição vocal que permeou a sua puerícia. “Esse patrimônio da oralidade chamava-me a atenção para a influência dos rios, da chuva, das árvores e dos frutos.”

A escola também foi determinante para sua arte. Ainda moçoilo, se aproximou da literatura por influência dos professores. Graças aos livros, percebeu que havia outras formas de praticar a feminilidade. “Havia universos povoados por mulheres que se apaixonam, e não somente cozinham, fazem bolos e têm filhos.”

A literatura de Tavares também se entrelaça ao pretérito colonial de Angola, um tanto que pode ser sentido na crônica “Dia Seguinte”. Nesse texto, narra uma vez que o país reagiu diante da Revolução dos Cravos —movimento português que depôs o ditador António de Oliveira Salazar em 1974.

Enquanto o país europeu rompia os grilhões do autoritarismo, Angola ainda estava sob o tirania do colonialismo português. A independência viria um ano posteriormente a queda do salazarismo.

“Calámos as perguntas, a sarau era formosa, pá, mas ainda não era claramente nossa. O horizonte acabava de nos rebentar nas mãos e não sabíamos”, diz a crônica de Tavares.

Embora more em Lisboa há mais de três décadas, a autora não esquece esse pretérito de vexação. Tampouco perde de vista o vínculo com sua terreno natal. No ano pretérito, ela acompanhou a vaga de protestos que tomou o país em razão da subida dos preços.

Apesar de turbulências uma vez que essa, não esmorece. “Nós vivemos neste mundo onde os valores imperiais, coloniais e racistas regressam, mas eu me recuso a perder a esperança”, diz a escritora. “Alguma coisa há de surgir. A nós, poetas, resta-nos permanecer atentos.”

São palavras que ecoam os versos da crônica “O Sangue da Buganvília” —obra que faz referência a uma flor conhecida pela resistência.

“De uma coisa estou certa, venha quem vier, mudem as estações, parem as chuvas, esterilizem o solo, nós somos cada vez mais uma vez que as buganvílias: a florir em sangue no meio da tempestade.”

Folha

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