O Brasil ainda não se enxerga na imagem que vê refletida no espelho. Segundo os autores que fizeram secção da nona mesa da Sarau Literária Internacional de Paraty, a Flip, a historiadora Ynaê Lopes dos Santos e o jornalista Tiago Rogero, a imagem real é feia e tem a complicação e a violência do racismo.
Eles chamaram a atenção para o indumento de a imagem que se enxerga ainda hoje neste espelho ser parecida com a da plateia diante deles que lotou o auditório principal do evento —um todo constituído quase unicamente por pessoas brancas.
“Isso diz saudação a um país em que pessoas negras não podem viajar, não conseguem remunerar um hotel, o que evidencia que temos uma estruturação racista”, apontou Lopes dos Santos, autora de “Racismo Brasiliano: Uma História da Formação do País”. Ela lança na sarau literária “Irmãs do Atlântico: Escravidão e Espaço Urbano no Rio de Janeiro e Havana”, fruto de seu doutorado sobre as duas maiores cidades escravistas do século 19.
“Também quero crer que isso mostra que há uma parcela da população branca querendo entrar nesta luta. Que é uma ação de responsabilização e de entender onde o racismo toca as pessoas brancas”, afirmou.
“Zero contra as pessoas brancas que estão cá na plateia, pelo contrário”, disse Rogero, fundador do Projeto Querino, lançado uma vez que podcast e depois convertido em livro lançado pela editora Fósforo. “Mas faltam pessoas negras na plateia da Flip.”
“Há um jornal, pelo qual tenho muito carinho, que comemorou século anos e que anunciou vários novos colunistas e citou flutuação de teor quando nenhum deles era uma pessoa negra”, disse Rogero, uma vez que exemplo da imagem distorcida de que falavam. Sem citá-lo, ele se referia ao jornal carioca O Mundo, que celebra seu centenário.
“O jornal completou século anos com uma mentalidade do século pretérito, e isso está ainda em muitos lugares. Por isso, a luta tem que continuar, tem de ser ordenado e tem de aumentar porque estamos muito longe [de equidade racial]”, afirmou ele, que também criou o podcast Vidas Negras e é correspondente do britânico The Guardian no Brasil.
A mesa teve mediação da escritora e ativista Juliana Borges, pesquisadora de temas ligados a racismo e segurança pública, que, vestida de branco, assim uma vez que Lopes dos Santos, lembrou ser sexta-feira dia de Oxalá. Ela exaltou a proposta radical dos autores de recontar uma outra história do Brasil.
“Quando comecei o Projeto Querino, eu mesmo não sabia muita coisa. Por exemplo, que em 1888 a maioria das pessoas que ainda estavam escravizadas estavam sendo mantidas assim ilegalmente há décadas. Ou que a derrogação não foi uma canetada de uma princesa belevolente”, afirmou Rogero.
“Uma vez que a gente passa uma vida inteira sem saber dessas coisas? A intelectualidade brasileira branca impede que esse conhecimento chegue às pessoas para manter o poder de quem sempre esteve no poder.”
Provocados pela mediadora sobre a questão da responsabilização pelo racismo, Lopes dos Santos foi categórica. “A responsabilidade maior de resolver o racismo é das pessoas brancas, que são as que mais se beneficiam dele.”
Segundo ela, as pessoas brancas precisam ter dimensão de que o “racismo molda o que pensamos uma vez que proveniente e normal”, por exemplo, o indumento de possuir mais pessoas negras em situação de rua. “Sou a rainha do incômodo. Minha função é motivar incômodo nas pessoas brancas para que pensem no racismo e para que isso fique reverberando nelas.”
No campo dos avanços, Lopes dos Santos contou que, apesar de ser a única professora negra dos 60 que integram seu departamento na Universidade Federalista Fluminense, a UFF, as cotas raciais fizeram a sala de lição de hoje ser muito dissemelhante daquela que ela frequentou uma vez que aluna.
“Sou radicalmente em prol das cotas. E acho que tem de ter quota para tudo no Brasil para mudarmos as coisas.” Para ela, a pauperização da ensino pública brasileira é um projeto político porque ela é “veículo de chegada sobretudo da população negra.”
“Também precisamos tributar as grandes fortunas porque não existe antirracismo sem redistribuição de renda”, disse ainda a historiadora, no momento em que foi mais aplaudida.
Tanto ela uma vez que Rogero defenderam um padrão de reparação que vá além do simbólico e se torne material. “São pessoas que pagam o ônus de um sistema de poder no qual elas são a tamanho de trabalhadores e foram limadas da possibilidade de paralisar o capital. Não temos capitalistas negros no Brasil”, disse Lopes dos Santos.
“Há muitos descendentes de ex-escravagistas que hoje detêm fortunas construídas com base na tortura de corpos negros”, disse Rogero. “Portanto a luta antirracista passa por reparação financeira, tanto pelo setor público uma vez que pelo setor privado do Brasil”.
