“É dia 4 de outubro. Liliana tem, agora, muito mais anos sob a terreno do que os que já viveu em cima dela”, escreve a mexicana Cristina Rivera Garza.
A morta é a mana da autora. Ela foi estrangulada na própria leito três décadas antes de a escritora encetar a trabalhar neste “O Invencível Verão de Liliana”, obra pela qual venceria o prêmio Pulitzer de melhor livro de memórias ou autobiografia.
O principal suspeito pelo homicídio, um ex-namorado possessivo, fugiu de vivenda e nunca foi suspenso pela polícia, uma impunidade que a família da pequena remoeu entre gritos de angústia e silêncios sepulcrais desde aquele dia 17 de julho de 1990.
Na cena lá do início, Cristina e seus pais limpam a sepultura de Liliana munidos de enxadas e baldes. “É pataratice que o tempo passa. O tempo fica travado”, escreve a autora. “Quem, num mundo onde não existia a vocábulo feminicídio, poderia proferir o que agora digo sem a menor incerteza: a única diferença entre minha mana e eu é que nunca topei com um facínora?”
O trecho adianta alguns motivos que levaram esta mulher enlutada a se tornar uma das escritoras mais celebradas do México, que no termo do mês virá ao Brasil uma vez que uma das principais convidadas da Sarau Literária Internacional de Paraty, a Flip.
Rivera Garza transforma a história de seus mortos em grande literatura. Escrita em primeira pessoa, a obra sobre a mana retraça o processo que deixou seu homicídio inconcluso, discute uma vez que evoluiu a compreensão sobre a misoginia que vitima mulheres pelo mundo e lembra com dor e mel os parcos 20 anos que viveu Liliana.
Já no livro lançado mais recentemente pela Autêntica Contemporânea —o outro saiu por cá em 2022—, a autora volta até o México dos anos 1930 para narrar o sufocamento de uma greve de agricultores numa vila hoje esquecida, incidente que culminou no deslocamento de seus avós com o pai da autora no pescoço. Carrega o singelo título de “Autobiografia do Algodão”.
“Por que ninguém sabe zero sobre a greve em Estación Camarón?”, anota Rivera Garza, indignada, no meio do livro. Talvez porque ninguém a tenha registrado devidamente, uma vez que ela já havia sugerido nas palavras escolhidas para recontar a chegada do plumitivo José Revueltas àquela região. “A escrita penetrou em vidas que, de outra forma, teriam sido perdidas uma vez que mais tarde se perdeu o algodão.”
O projeto de Rivera Garza procura emendar esses erros todos. “Hoje se fala com frequência em descentralizar a participação humana nas histórias sobre o mundo. Logo se faz referência a vegetação, animais e outros elementos. Creio que temos que ampliar ainda mais e incluir nisso os mortos”, diz a autora de 60 anos por telefone à Folha.
A fronteira entre nós e as pessoas que já partiram, segundo ela, é “muito porosa”. “O diálogo que temos com os mortos nos processos de luto, de memória pessoal e coletiva, fazem necessário que em cada história que contemos dos vivos também tenhamos que incluir a maneira uma vez que nos ligamos aos mortos.”
Nisso há muito da cultura mexicana —ela conta, entre risadas, que seu marido considera mais importante que o Natal o feriado do “Día de los Muertos”, equivalente mais festivo do nosso Dia de Finados. Mas para além do anedótico, Rivera Garza construiu em cima disso toda uma elaboração teórica, aprofundada no volume de ensaios “Os Mortos Indóceis”, publicado pela WMF Martins Fontes.
São textos bastante sofisticados —é preciso notar que sua curso uma vez que acadêmica é tão respeitada que a credenciou a fundar o doutorado em escrita criativa na Universidade de Houston, nos Estados Unidos—, estudando conceitos de autoria e de leitura ativa em um mundo subjugado pelo coletivismo da internet e por governos investidos na “necropolítica”.
Suas ideias também se expressam com elegância em “Autobiografia do Algodão”. “Se uma vez que habitantes da Terreno só nos resta estar com os outros ou voltar a estar onde outros estiveram, portanto a tarefa mais básica, a mais honesta, a mais difícil, consiste em identificar as pegadas que nos acolhem. Esse é o momento ético de toda escrita e, mais ainda, de toda experiência.”
Isso obriga quem escreve, segundo ela, a reconhecer que vem de raízes plurais e que toda literatura, no fundo, é coletiva. E leva sobretudo “a questionar a exiguidade que torna possíveis nossos passos”.
Por isso a obra literária de Rivera Garza só pode ser feita de mãos dadas com os mortos, e nisso não há zero de macabro. É o que explica ainda por que a autora insere a si mesma nessas duas narrativas editadas no Brasil, que ela gosta de apelidar de “não ficção criativa”.
“São livros profundamente pessoais, uma vez que creio que devem ser todos os livros que importam, mas não são ensimesmados”, reforça a escritora, apontando que existe um grande abisso entre a literatura pessoal e a individualista. “Judith Butler disse que, onde se fala do eu, tem que se falar do você. E eu adiciono que tem que se falar do nós.”
A autora sublinha que suas narrativas têm base em extensa pesquisa histórica e documental, indo a campo remexer arquivos e fazer entrevistas, muito disso descrito nas próprias páginas. A pesquisa sobre a mana, evidente, teve um nível de exigência menor que a do livro que volta a acontecimentos do México rústico que foram apagados da história.
Ao longo da narrativa de “Autobiografia do Algodão”, ela recorre mais à sua “não ficção criativa”, descrevendo com lirismo cenas de intimidade entre personagens que já morreram há quase um século.
“Por mais pesquisa que façamos, sempre vai possuir zonas obscuras, buracos negros, e aí o interceptação de gêneros literários ajuda muito”, aponta a escritora, lembrando o concepção de “fabulação sátira” consolidado pela americana Saidiya Hartman em seus trabalhos sobre a escravidão e a pós-escravidão.
“Quer proferir, você pode pesquisar muito e ter vários documentos que ainda não aparecem. E isso com frequência vale mais para grupos marginalizados ou racializados, uma vez que é o meu caso. Quando careço desses materiais, recorro à ficção. E, em ambos os casos, a imaginação está presente —quando você interpreta documentos de registro, não faz isso sem imaginação, não é?”
O livro de ensaios de Rivera Garza, aliás, tira seu título dos versos de um poeta salvadorenho que morreu fuzilado. Ele se chamava Roque Dalton e escreveu assim: “Os mortos estão cada vez mais indóceis./ Hoje, fazem ironias/ e perguntas./ Parece que percebem/ que são cada vez mais a maioria”.
