Flip: gauz discute imigração pelo olhar dos seguranças 31/07/2025

Flip: Gauz discute imigração pelo olhar dos seguranças – 31/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Trabalhar uma vez que segurança de lojas é uma função dura, mas tem suas vantagens. Você ganha um salário muito insignificante e tem que permanecer um tempão parado, de pé, sengo a tudo o que acontece a sua volta. Mas tem um ponto de vista um pouco privilegiado. Está vendo todas as pessoas naquele espaço, embora seja praticamente invisível a elas.

As reflexões são de Gauz, redactor da Costa do Marfim que chega agora ao Brasil com seu “De Pé, Tá Pago”, uma das primeiras publicações de autores contemporâneos da jovem editora Ercolano que já sai com lançamento de prestígio na Flip, na noite desta quinta-feira, em mesa que também terá o responsável e rapper Gaël Faye, do Burundi.

Gauz —a sotaque é simplesmente “gôs”— é um redactor desde sempre, um artista com trabalhos que avançam ainda pelo cinema, pela performance e pela música. O trabalho de segurança foi um pouco que o responsável, hoje aos 54 anos, fez por seis semanas para lucrar moeda.

O marfinense se mudou para a França para estudar na universidade, num inusitado mestrado em bioquímica em duas instituições diferentes, inclusive a Universidade Paris 7. Depois de formado, já mais interessado em arte que em laboratório, tinha dificuldade para financiar seus projetos de filmes —”é difícil até para quem é branco”.

Decidiu voltar para a Costa do Marfim por um tempo, mas precisava juntar moeda para a passagem. Fez algumas ligações e logo conseguiu um ponta de segurança, indicado por um camarada. “Era o jeito fácil, porque eu era preto, poderoso, e todo mundo que é assim na França consegue trabalho uma vez que segurança”, conta ele agora, em entrevista por vídeo.

“Perfil morfológico… Os negros são robustos, os negros são grandalhões, os negros são fortes, os negros são obedientes, os negros dão terror”, escreve no livro. “Impossível não pensar naquele monte de clichês do bom selvagem que está letargo de modo atávico tanto em cada um dos brancos responsáveis pelo recrutamento quanto em cada um dos negros que passam a usar esses clichês a seu obséquio.”

Gauz ficou em choque já no primeiro dia de trabalho, quando abriu a loja, num meio luxuoso da capital francesa, e viu o tamanho da empolgação das mulheres que se digladiavam num empurra-empurra para “entrar naquele tipo de igreja”. Achou uma loucura. Começou a descrever para os amigos.

Não demorou, porém, para que percebesse que os turnos de até 12 horas na segurança abriam “muito tempo para pensar”. “Decidi tomar notas do que eu via. Esse trabalho, você sabe, é muito entediante. Portanto eu fazia meio de piada. Pensei que olhar ao volta dessa forma ia me manter ocupado.”

As anotações tomaram corpo e depois vieram a integrar “De Pé, Tá Pago”, seu primeiro romance, publicado na França em 2014. A edição em inglês veio oito anos depois e fez Gauz se tornar finalista do prêmio Booker Internacional, um dos mais respeitados do mundo.

O livro acompanha diversos homens que trabalham uma vez que seguranças, contando os bastidores da função com atenção às relações trabalhistas e à situação instável que é a vida imigrante, que emenda cargos temporários em empresas impessoais. Porquê ele mesmo escreve: “o conjunto de profissões em que é necessário permanecer de pé para receber uma mixaria”.

Mas avança para uma elaboração panorâmica da situação dos africanos residentes na França —se são absolutamente múltiplos em personalidades e culturas, acabam tendo muitas experiências semelhantes. A obra cobre gerações que vão dos anos 1960 —apelidada a idade do bronze— até dias mais atuais —a idade do chumbo. Muita coisa muda para tudo continuar igual, sugere o livro.

Boa secção da obra é composta de notas inspiradas nas notas feitas por Gauz, incluindo muitas observações estereotipadas sobre identidades e comportamentos, recaindo mormente sobre mulheres.

“Parece que na China não existe a termo ‘nádega’. Lá, eles dizem ‘secção subalterno das costas’. Não dá para inventar uma termo para uma secção do corpo que não existe”, escreve a certa profundeza. “Geralmente, as mulheres gordas começam provando roupas menores primeiro… Antes de sumirem discretamente com a roupa de tamanho adequado nos provadores”, acrescenta em meio a uma série de anotações.

“A porcaria do mundo é assim, face”, diz ele quando o repórter levanta essa questão. “Quando você vem à África uma vez que um varão branco, você pode descrever as pessoas a partir da sua história, da sua mente, seus clichês, e você não quer que o contrário aconteça. Nós fomos inventados uma vez que um grupo étnico, mas não autorizam que façamos o mesmo. Tive prazer em fazer isso: e se alguém essencializar você da maneira uma vez que você faz?”

Folha

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