Flip: poesia de leminski é saudável em época de lacração

Flip: Poesia de Leminski é saudável em época de lacração – 29/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Não deixa de ser sintomático (e salutar) que se revisite a “trova da sacação” de Paulo Leminski em plena estação de lacração.

A sacação intuitiva, rápida e cortante da trova de instantâneos, assim uma vez que a lacração malévola dos discursos de ódio e achincalhe, lançam mão de uma estética de frases de poderoso efeito. Mas há uma diferença crucial entre as duas, são expressões antípodas entre si.

Nos poemas curtos de Leminski, a “sacação poética”, a teoria formosa ou surpreendente, funciona muitas vezes uma vez que chave conclusiva do poema, uma vez que uma espécie de epifania do raciocínio, mas no sentido do paradoxo, da inversão de sentido, da incerteza de si.

Ele é o poeta que duvida de si, mas prossegue determinado na preocupação da escrita, perseguindo um sentido na vida e nos discursos que acaba lhe escapando pelas entrelinhas e pelas espirais da linguagem. Dai o jogo entre assertividade e ceticismo que atravessa seus textos.

Bastante popular e homenageada na Flip deste ano, a obra de Leminski figura hoje em manuais didáticos, currículos de cursos de literatura, provas de concursos. Sua presença está, pois, consolidada na risco de frente da história literária brasileira, junto à de tantos outros bambas do poema breve, que invadiram e marcaram a cena poética dos anos 1970.

São os clássicos da trova dita marginal —Leminski, Chico Alvim, Chacal, Alice Ruiz, Leila Mícolis, entre outros e outras, ressalvando-se imprecisões classificatórias. Mas essa quesito canônica não tira seu viço nem seu apelo perene junto aos espíritos jovens —inquietos, inconformistas, intelectualmente ambiciosos.

A avidez de Leminski era a subida esfera da literatura. É curioso observar o contraste entre a vastidão de sua formação erudita e a estética da rarefação que ele conscientemente procura praticar na trova, tal uma vez que declara no prefácio de “Distraídos Venceremos”, de 1987.

Assim uma vez que Torquato Neto, uma referência icônica para ele, Leminski espalha em seu texto cacos, citações e menções disfarçadas a outros autores. Referências greco-romanas, religiosas, históricas, multilíngues.

Seu universo de referências parece mais vasto e diversificado nas leituras básicas que talvez o da maioria de seus coetâneos, dada sua formação de seminarista e a relação de vida com o grupo concretista (Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari).

Buscando a rarefação da linguagem poética, fundamento do poema breve, Leminski diz que pretende varar o vínculo simplório do poema com realidades imediatas. A sacação poética (o relutância) vem na contemplação, na reflexão (o relaxo), pontuada pelos fragmentos de toda a memória literária ocidental.

Temos ainda o oferecido da relação com o Oriente, a cultura japonesa, os haicais, o grafismo, sua corporificação da estética do ideograma, herdada de Ezra Pound via concretos.

São traços de um perfil biográfico em que o poeta Leminski performa, no corpo e na escrita, princípios abstratos inerentes à sua formação intelectual. O judô, uma vez que hipoteticamente a dança, implica uma escrita precisa do corpo.

Leminski escreve num tempo e para um giro em que o concepção de trova é oferecido por Roman Jakobson, em conformidade com a linguagem publicitária. A estética da frase, do epigrama, do aforismo, serve ao publicitário, ao poeta, ao slogan político, ao grafite no muro da rua. É a trova do golpe único.

O caudal de informações tinha que se corporificar numa obra literária caudalosa. Chegamos a “Catatau”, um outro lado da moeda literária leminskiana. Nele, a rarefação poética é substituída pela prosa delirante.

O livro é um catatau no sentido estrito do termo: um “romance-ideia” extenso, à primeira vista opaco, ilegível, um clássico do experimentalismo de vanguarda.

O repto do catatau intitulado “Catatau” é possibilitado pelo caminho de liberdade sincero pela linguagem da prosa depois de James Joyce, de Guimarães Rosa. Suas afinidades no contexto brasílio são textos uma vez que “Galáxias”, de Haroldo de Campos, “PanAmerica”, de José Agrippino de Paula, a prosa primeira de Hilda Hilst.

Deixado à posteridade uma vez que repto permanente à leitura, “Catatau” esta aí, para ser estimado e reavaliado pela novidade leva de aficionados por classicões, para o muito ou para o mal.

Folha

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