Política não é novidade na Flip. A curadoria acentuou esse vista, mas, na edição deste ano. Em vez de ser uma ágora para discutir bandeiras que quase sempre surgem na sarau —muitas vezes em terreno seguro—, o evento assumiu posição, fazendo de si próprio uma enunciação de princípios.
A Flip assumiu riscos com essa escolha, mas recebeu suporte contundente do público, que apareceu em níveis supra da média nas mesas de maior voltagem política. A escolha da organização foi deixar esses encontros uma vez que palestras sem possante dissonância.
Exemplo simples foi a participação do historiador israelense Ilan Pappe, crítico ferrenho de seu país. Enquanto o conflito na Fita de Gaza se torna mais mortífero, o responsável se levanta com afirmações duras ao sustentar que Israel teria um projeto de limpeza étnica dos palestinos desde sua instauração, em 1948.
“Houve pressão para que eu não falasse cá nesta noite”, afirmou o jornalista diante de um público que compareceu em peso, dentro e fora da tenda, e terminou bradando “Palestina livre”.
Outras agendas do historiador também vêm sofrendo oposição. Horas depois da mesa dele em Paraty, a Flipei, Sarau Literária Pirata das Editoras Independentes, em São Paulo, foi comunicada pela Instauração Theatro Municipal que não vai mais poder usar a Rossio das Artes para sua próxima edição. Pappe foi anunciado há dez dias uma vez que convidado.
A Flipei acusa a gestão do prefeito Ricardo Nunes, do MDB, de “exprobação política e ideológica” pela decisão. A instauração, por sua vez, diz que a suspensão ocorreu “em razão do uso político por segmento de seus organizadores”.
Segundo a direção da Flip, a sarau recebeu “algumas manifestações elegantes” de pessoas ligadas à comunidade judaica que sugeriram mudanças na mediação, feita por Arlene Clemesha, professora da Universidade de São Paulo alinhada ao pensamento do palestrante, ou a inclusão de outro convidado que fizesse contraponto a Pappe.
O evento bancou a autonomia da curadora, a editora e livreira Ana Lima Cecilio, e manteve a mesa uma vez que planejado —em entrevista coletiva, ela destacou a independência conferida a ela durante o processo e disse que o momento é de trespassar de cima do muro. “Acho que há uma posição a ser tomada, de denúncia do que está acontecendo”, afirmou.
“Não é um simpósio nem um espaço de representação de Estado. Se tem um grupo que entende que tem dois lados, não temos obrigação de ter os dois lados”, afirmou o diretor artístico do evento, Mauro Munhoz.
A Flip não confirmou se Cecilio seguirá na curadoria, diferentemente do que fez no mesmo momento do ano pretérito. Munhoz disse que o balanço da edição continuará nos próximos meses.
Outra enunciação de princípios aconteceu na escolha da ministra do Meio Envolvente, Marina Silva, para uma mesa de destaque também na sexta-feira. A questão ambiental é tema da Flip quase todo ano, mas a sarau literária decidiu invitar uma integrante do atual governo —e uma personagem com propósitos que vêm sofrendo relevantes derrotas. O risco cá era a sarau não toar política, mas partidária.
Além de ter sido atacada no Congresso, Marina sofreu reveses dentro do governo, com derrotas em questões uma vez que a exploração de petróleo na margem equatorial e o projeto que flexibiliza o licenciamento ambiental.
Era o chamado PL da Devastação, confirmado na Câmara com preterição do Executivo e grande suporte da bancada governista.
Além de narrar com uma mediação que não insistiu em contradições da política ambiental do governo Lula, Marina Silva viu o público comparecer para a estribar em números ainda maiores do que na mesa de Pappe, com tratamento de superstar.
No telão, as pessoas lotavam ruas e praças para ouvir sua fala. Com isso, a Flip serviu de plataforma para que ela produzisse imagens de suporte político e projetasse força a três meses da COP.
Em seu balanço, Ana Lima Cecilio, da Flip, sublinhou “a prestígio que teve” a mesa —e ressaltou que o momento mais comovente foi quando Marina chorou ao lembrar que decidiu se alfabetizar aos 16 anos graças a um cordel.
Apesar do holofote oferecido à política, ainda foi uma sarau literária, que decidiu lastrar o peso de temas duros com respiros mais leves ao longo de cada dia.
O sábado, por exemplo, passou por assuntos densos uma vez que feminicídio e monstruosidade, mas terminou com um papo entre o humorista português Ricardo Araújo Pereira, colunista do jornal, e o linguista Caetano Galindo —que formaram uma das duplas mais acertadas desta edição.
Ao mesmo tempo, o evento teve o retorno de nomes que eram desconhecidos do público quando participaram da Flip pela primeira vez e agora estão consagrados, caso de Valter Hugo Mãe, que voltou depois de 14 anos, e Rosa Montero, depois de 21 anos. Os autores foram tietados pelas ruas, e Montero autografou livros por quase cinco horas.
Escolhas mais arriscadas foram a de unir o italiano multipremiado Sandro Veronesi, popular por “O Colibri”, ao brasílio Pedro Guerra, que surge agora na cena e é praticamente estreante em palcos de festivais. E a de invitar Arnaldo Antunes para uma introdução com muito improviso, que acabou num descompasso entre o que o cantor queria apresentar e a estrutura que tinha.
Também houve apostas mais certeiras uma vez que a de unir a mexicana Cristina Rivera Garza e a argentina María Negroni, amigas de longa data, mesmo assim muito díspares no processo de abordar na literatura os mortos de sua família. Ou o recreativo entrosamento entre o marfinense Gauz e o burundiano Gaël Faye, ambos imigrantes na França.
A volta da sarau literária a julho se provou uma insistência correta. Não só por pretexto das temperaturas mais amenas e o clima menos propenso a chuvas, mas por conseguir pegar o rescaldo das férias. A Flip esteve lotada até nos dias úteis, o que era vasqueiro nos anos em que aconteceu em outubro e novembro. Até sábado, o público tinha desenvolvido 10% em relação ao ano anterior.
Os visitantes pareceram nem sentir falta de autores de língua inglesa, que estiveram ausentes do evento pela primeira vez desde sua geração, preferindo celebrações nacionais uma vez que de Nei Lopes, Lilia Guerra e Sérgio Vaz —e, simples, o homenageado da vez, o poeta Paulo Leminski.
Expor que há um ufanismo do público em tempos de guerra mercantil de Donald Trump seria apressado, por fim o cardápio foi escolhido antes das tarifas contra o Brasil serem anunciadas pelo presidente americano. É inegável, no entanto, que o evento tenha tateado, neste ano, pela veia política de quem lê em português.
