Gabriela Cabezón Cámara narra despertar trans de ex freira 06/01/2026

Gabriela Cabezón Cámara narra despertar trans de ex-freira – 06/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O novo romance da argentina Gabriela Cabezón Cámara, “As Meninas do Laranjal”, arquiteta-se porquê uma poema inventiva de reescritura da vida de Catalina de Erauso, que viveu de 1592 a 1650, conhecida porquê madre alferes, que se vestiu de varão e lutou pela colonização espanhola na América e o consequente extermínio de povos originários.

O livro acaba de vencer, nos Estados Unidos, o National Book Award para melhor literatura traduzida, premiando a autora e sua tradutora Robin Myers pela edição americana.

No lugar da curiosidade histórica sobre o travestimento de Catalina em Antonio, presente na autobiografia da madre, Cabezón Cámara elege o despertar transexual, as viagens, a escrita de uma infinita missiva e a insurgência à Grinalda espanhola porquê linhas de força de uma ficção atenta às tramas ecológicas e políticas que forjam a vida na selva indígena sul-americana.

A autora subverte a narrativa colonial hegemônica ao conceber por múltiplos ângulos o meandro de rota e fidelidade do personagem Antonio em relação à metrópole espanhola, baseando-se numa pesquisa apurada que vai de antigas canções bascas às orações em latim, alcançando a língua e o imaginário dos mbiás-guaranis.

A edição brasileira tem tradução de Silvia Massimini Felix, que materializa com maestria toda a voltagem de dicções arcaicas líricas e contemporâneas, em uma recriação bem-sucedida.

Cabezón Cámara teve dois romances publicados no Brasil pela editora Moinhos: “As Aventuras da China Iron”, de 2023, uma revisão do poema clássico prateado “Martín Fierro”, de 1872, e “Nossa Senhora do Barraco”, de 2024, em que o urbano e o religioso se bifurcam em duas narradoras e múltiplas perspectivas da favela de El Poso, em Buenos Aires.

A fuga é um mote narrativo que aparece em todos os romances da autora, mas neste mais recente ganha contornos de desembarque, mesmo que a narrativa esteja enredada por vulnerabilidades e violências experimentadas e cometidas por Antonio.

O ímpeto de romaria de quem passou a puerícia em um convento e a pulsão de viver de tratado com sua escolha de gênero fazem da jornada dele porquê navegante, tropeiro, secretário do capitão da guarda colonial e outra vez, fugitivo, uma irrupção política, mística e íntima.

O romance apresenta grande amplitude geográfica e histórica, com territórios que hoje conhecemos porquê Chile, Peru, Bolívia sendo todos palmilhados pelo grumete em suas desventuras porquê personagem e intermitente narrador.

Na última das viagens, aporta na região da selva paranaense, que se estende por uma superfície de fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina e é marcada pela intensa presença dos jesuítas.

Ali, sua pena à forca e subsequente remissão é assumida por Antonio porquê um milagre outorgado pela Virgem do Laranjal, em realce da religiosidade que atravessava as convicções e ações comumente violentas da colonização.

Perante esse ímpeto de esmola e a estetização de sua existência pela escrita de uma infindável missiva à tia, diretora do convento do qual ele fugiu ainda na juventude, o resgate de duas crianças indígenas ganha perímetro de evento meão do romance.

A obstinação do protagonista em libertá-las do gabinete solene onde estavam enjauladas é a moeda que ele encontra para equacionar sua dívida com a Santa e seu devir porquê varão livre.

A transporte apressada do enredo nos momentos de escrita da missiva e mesmo durante a construção dos vínculos de Antonio com as crianças Michi e Mitãkuña acabam diminuindo o desenvolvimento afetivo da leitura, enfraquecendo sua densidade e seu interesse polifônico, barroco e regionalista, características tão intensas dos outros romances.

Antonio tem seu roda apresentado porquê quase redentor das meninas indígenas, e sua transfiguração derradeira invoca um apelo romântico que destoa da investigação dramática e revisionista da trama.

Impossível não ler “As Meninas do Laranjal” sem lembrar as agruras e peripécias de Riobaldo em “Grande Sertão: Veredas” e o raconto “Meu Tio o Iauaretê”, de Guimarães Rosa, assim porquê o mais contemporâneo “O Som do Rugido da Onça”, de Micheliny Verunschk.

Em “As Meninas do Laranjal”, as onças encarnam o libido e a procura por uma terreno sem males, ainda que para isso manifestem suas forças com sonância mais provisório do que mítica. É um livro ávido, tanto pela temática porquê pela forma narrativa, mas que não alcança a grandeza dos anteriores da autora.

Folha

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