Gay talese conta como fez reportagens em 'bartleby e eu'

Gay Talese conta como fez reportagens em ‘Bartleby e Eu’ – 04/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Um dos criadores do “novo jornalismo” e um dos repórteres mais admirados do mundo, o americano Gay Talese, 93, lança um olhar autobiográfico aos primeiros anos de sua curso em um livro recém-lançado no Brasil. Trata-se de “Bartleby e Eu”, que saiu há dois anos nos EUA e agora chega ao país pela coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras.

O nome da coleção já explica o que significa o “novo jornalismo”, estilo de escrita que utiliza técnicas da literatura em reportagens, transformando textos de jornais e revistas em contos, ou mesmo em romances.

Talese é um de seus expoentes, ao lado de Joan Didion, Tom Wolfe, Hunter Thompson, Norman Mailer e Truman Capote, entre outros. E, em “Bartleby e Eu”, ele conta um pouco desse início.

O subtítulo original (reflexões de um velho escrivão) foi mudado na versão brasileira para o longo “pelas ruas de Novidade York, um rabino da reportagem narra a subida e a queda do sonho americano”.

Talese começa a obra explicando porquê o raconto “Bartleby, o Escrivão”, de Herman Melville, é uma metáfora de sua curso. A história de um funcionário de escritório que se recusa a transpor da rotina é utilizada por ele para exemplificar os ninguéns, ou seja, pessoas cujas vidas são comuns demais para merecerem uma reportagem de jornal.

“Durante meu trabalho porquê jornalista e meu extenso período em que morei na cidade de Novidade York, conheci muitas pessoas que, de um modo ou de outro, me fazem pensar em Bartleby”, escreve ele, no segundo capítulo.

Dividido em três partes, a obra começa com os murado de dez anos em que Talese trabalhou no jornal The New York Times, a partir de 1953.

Talese foi contratado pelo jornal, que já era o mais importante do mundo, para ser mensageiro aos 21 anos, quase imediatamente depois se graduar porquê jornalista. Nesse função, usava as horas vagas para grafar reportagens que depositava, esperançoso, na mesa dos editores.

Essas matérias iniciais já eram sobre “ninguéns”. Seu primeiro personagem foi James Torpey, o eletricista responsável pelas letras luminosas enormes que anunciavam as manchetes do jornal na profundeza do quarto caminhar de um prédio na Times Square —chamada assim justamente porque o jornal teve sua sede ali no início do século pretérito.

Talese narra portanto sua saída do jornal para satisfazer dois anos nas Força Armadas —onde continuou exercendo a profissão em jornais militares internos— e sua volta ao New York Times em 1956, desta vez para permanecer até 1965.

Ao transpor, foi contratado pela prestigiosa revista Esquire para produzir longos perfis, Talese logo emplacou uma lista de quatro jornalistas do Times sobre os quais gostaria de grafar —o que foi aceito por seu superintendente, com a requisito de que Talese entrevistasse celebridades.

Os textos sobre os jornalistas —o editor-chefe, um correspondente internacional, um repórter e o superintendente da seção de obituários— se tornariam, é simples, a gênese para a grande obra de Talese: “O Reino e o Poder – Uma História do New York Times”, que lançaria em 1969.

O primeiro perfil a que se dedicou foi o do responsável pelos textos sobre as pessoas que morriam, um intelectual comunista que, naquele momento, notório de que em breve teria um problema de saúde trágico, andava escrevendo seu próprio obituário.

A reportagem foi uma sensação, mas não demoveu seu editor da promessa anterior. O próximo perfil assinado pelo jornalista seria o de uma notoriedade. E ela seria Frank Sinatra.

Na segunda segmento de “Bartleby e Eu”, Talese se debruça sobre os bastidores da reportagem que o fez famoso, “Frank Sinatra está resfriado”, publicada pela revista em abril de 1966.

Em 120 páginas, descobrimos as condições em que o repórter viajou a Los Angeles e suas tentativas infrutíferas para entrevistar Sinatra durante o mês de novembro de 1965 —um tanto que havia sido previamente acordado entre o assessor do cantor e o editor-chefe da Esquire, mas não foi cumprido.

Principalmente, ficamos sabendo porquê, aos poucos, Talese foi entendendo que teria que se virar comendo pelas beiradas. Ou seja, teria que entrevistar a entourage, os amigos, os funcionários, os puxa-sacos, os familiares —com alguma sorte, um ou outro inimigo— de Sinatra para poder entregar um tanto digno de publicação.

A saga começa por contingência, quando Talese aceita um invitação de um parelha de amigos para jantar em um clube privado. Quando chega lá, encontra o cantor no bar e o segue para a sala de jogos com mesas de sinuca. Ali, Sinatra se envolve em uma discussão com outro frequentador.

Talese detalha seu trabalho. Para registrar o que está vendo, ele se tranca em cabines de banheiro; não o faz em público. As anotações são feitas em pedaços da cartolina que vinham dentro de camisas recém-passadas por tinturarias (Talese é rebento de alfaiate e sempre se vestiu elegantemente).

Antes de dormir, sempre que está apurando um tanto, ele transfere as anotações para o papel sulfite com sua máquina de grafar, mas agora com todos os detalhes e diálogos de que se lembra. É com esses papéis datilografados que, mais tarde, vai se sentar quando principiar a grafar sua reportagem.

A de Frank Sinatra demorou cinco semanas para ser escrita (uma semana a mais do que a apuração) e rendeu 14 milénio palavras (ou 70 milénio caracteres, espalhados por 53 páginas datilografadas).

A última seção do livro é a mais recente reportagem de Talese, finalizada na quadra do lançamento. Narra a história de um médico que em 2006 preferiu explodir seu apartamento em Novidade York para não beneficiar sua ex-mulher com segmento do moeda de uma venda.

O texto parece completamente fora do lugar neste livro marcado pelo jornalismo dos anos 1950 e 1960, mas Talese explica que o doutor o faz se lembrar de Bartleby. Portanto está bom.

Folha

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