Gil: julgar trama de golpe é sinal de brasil mais

Gil: Julgar trama de golpe é sinal de Brasil mais maduro – 08/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Gilberto Gil está de volta à estrada em seguida um hiato de reclusão forçada pelo luto de sua filha, Preta. Com a serenidade que tem marcado sua vetustez, fez a grandiosa apresentação de sua turnê de despedida em Porto Satisfeito, no último sábado, incluindo uma participação de Adriana Calcanhotto.

A turnê já chegou à metade, e começa um momento de balanço. Dois dias antes da performance na capital gaúcha, Gil lançou um livro que registra para a posteridade essa leva final de shows, “Tempo Rei”.

A obra sai por sua editora familiar, a Gege Edições Musicais, capitaneada por sua esposa e produtora Flora Gil com projeto gráfico do par Daniel Kondo e Adriana Fernandes. Cada música apresentada na turnê vem acompanhada de uma zero simplificada feita por Sergio Chiavazzolli, seu colaborador macróbio.

As páginas do livro retratam os momentos mais marcantes de Gil no palco no último ano —por exemplo, ao trovar “Drão” ao lado de Preta e apresentar “Cálice” olhando, pesaroso, para fotos de protesto contra a ditadura militar exibidas no telão. O livro vem a público muito quando o Supremo Tribunal Federalista realiza o julgamento histórico de uma cúpula militar acusada de outra tentativa de golpe.

“É o que eu espero que a sociedade brasileira faça”, diz o compositor, minutos antes do evento de lançamento, no Instituto Ling. “Responsabilizar o maior número verosímil daqueles que participaram dessa intentona, dessa tentativa de golpe de Estado.”

As investigações, segundo o ex-ministro da Cultura do primeiro governo Lula, foram “suficientemente conclusivas” para estabelecer quem foi responsável pelo quê —e agora é a hora de o tribunal se incumbir de mostrar inocentes e culpados.

“Isso é dissemelhante do que aconteceu em seguida a ditadura militar, em que esses processos não foram instalados”, aponta o cantor, que foi recluso pela repressão do regime e se exilou por dois anos em Londres. “Denota um proporção mais evidente de maduração da sociedade brasileira, mormente das instituições incumbidas de zelar pelo treino do poder social, democrático.”

Falar de um ocorrência presente enquanto remete a ecos do pretérito e projeta possibilidades de horizonte é atitude propriedade de Gil —boa secção da concepção visual da novidade turnê é inspirada nessa mistura de temporalidades, num entendimento do tempo uma vez que espiralar, não linear.

Gil já declarou não ter vontade de recontar sua história por um mecanismo tradicional uma vez que uma autobiografia ou um livro de memórias, a estilo por exemplo do que fez Caetano em “Verdade Tropical”.

Durante o evento desta quinta, ele reforçou a teoria de que o interessa muito mais o que se produziu sobre a tropicália, as interpretações dos outros sobre sua obra, do que qualquer coisa que ele mesmo tenha a expor sobre o que fez.

“O que o mundo fala de mim é suficiente, porque o que eu fiz foi feito para o mundo, para as pessoas reagirem ao meu trabalho”, diz ele ao repórter, reforçando não “ver vantagem” em registrar suas memórias, com um porém significativo.

“Às vezes penso em ortografar ensaios soltos a reverência das coisas que me interessam no campo da arte, da música, das ciências humanas, das ciências naturais”, afirma, acrescentando não ter um projeto muito delineado em vista.

É uma vontade que vem e passa, segundo Gil, mas parece mais sedimentada nesses três anos em que reforçou a convívio com os colegas imortais da Liceu Brasileira de Letras, a ABL. “São pessoas com muita experiência de vidas decantadas, muitos egressos de campos distantes do meu interesse mais direto. O convívio com essa gente tem interesse privado para mim.”

E, em breve, Gil deve ter um pouco mais de tempo livre. “Talvez encerrando esse ciclo de apresentações de shows, essa atividade mais intensa, talvez aí eu tenha uma vontade mais focada de ortografar alguma coisa. Mas ainda não comecei a esboçar roteiros.”

É bom pontuar que a obra de Gil já vem se decantando há qualquer tempo em livros, uma vez que a parceria com o pesquisador Carlos Rennó para a publicação de suas letras reunidas e com Kondo, artista gráfico e designer experiente, para transformar algumas de suas principais composições em obras ilustradas.

Já fez isso com “Nós, a Gente”, “Andejar com Fé” e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, por exemplo, e agora lança “Refazenda” no cinquentenário da cantiga. O ilustrador reitera a liberdade artística que Gil conferiu às criações, uma vez que se insistisse que aquelas palavras fossem reinterpretadas por outros olhos e sensibilidades.

É a mesma sensação de Rafael Dragaud, diretor artístico da turnê. “A gente nunca vai entender o Gil inteiramente, mas eu tenho uma sensação de que ele está muito habituado a ser interpretado livremente. É muito à vontade com isso.”

Durante o evento de lançamento do livro, Kondo perguntou a Gil quando exatamente ele sentia que uma obra deixava de ser sua, nessa vaga toda de reinterpretação alheia, por fãs tão numerosos. O compositor discordou da premissa, dizendo que a obra continuava sendo dele para sempre.

“Mas aí continua, quanticamente, ocupando dois espaços ao mesmo tempo. Um no meu coração e outro no coração das pessoas.”

Folha

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