Gilberto Gil está em todos os lados no cruzeiro do qual ele é a atração principal, o Navio Tempo Rei. O baiano se apresenta somente nesta terça (2) e na quarta (3), mas ele e sua obra já estão em todos os cantos da embarcação —em pôsteres, totens, no som envolvente e até mesmo no palco— desde esta segunda (1°).
O Navio Tempo Rei, secção da turnê de despedida de um dos grandes nomes da música popular brasileira, faz o trajectória de Santos ao Rio de Janeiro entre segunda e quinta (4). O embarcação deixou o porto pouco depois das 18h, quando teve início a programação no cruzeiro. O primeiro dia teve shows dos Gilsons, Nando Reis e Jorge Vercilo.
A estrutura do navio, com 18 andares, conta com piscinas, teatro, cassino, cinema, ateneu e diversas opções de bares e restaurantes. A embarcação, imensa, lembra um hotel nas cabines, mas é fácil se perder nos labirintos de corredores que levam às atrações.
Fora mais de 1.000 pessoas na tripulação, o cruzeiro comporta muro de 4.000 pessoas, e está praticamente pleno. As crianças nadavam e brincavam nas piscinas mesmo durante os shows, que acontecem num palco montado no último marchar, com mezaninos que abrigam camarotes e espaços VIP.
Os Gilsons, trio formado por um fruto, José, e dois netos, Francisco e João, de Gilberto Gil, abriram a programação do cruzeiro. Eles tocaram ao pôr do sol, enquanto o navio deixava a cidade de Santos e algumas pessoas ficavam em dúvidas se olhavam para o palco ou para o cenário ao lado.
A plateia é naturalmente formada por pessoas de classes mais altas —as cabines custam a partir de R$ 4.698 por pessoa, fora os custos com alimento, bebida e outras despesas. Muita gente não conhecia o repertório da margem.
Os Gilsons mostraram o repertório do EP que lançaram em 2019 e de seu único disco de estúdio, de 2022, com canções de MPB suaves e muito executadas. O repertório incluiu “Qualquer Ritmo”, “Devagarinho”, “Alecrim” e “Love Love”, que acumulam dezenas de milhões de reproduções no streaming, e um cover de “Swing de Campo Grande”, dos Novos Baianos.
Mas a plateia só reagiu quando na reta final, quando puxaram seu maior hit, uma versão em ritmo de ijexá de “Várias Queixas”, gravada originalmente pelo Olodum. Eles ainda cantaram dois sambas — “Eu e Você Sempre”, de Jorge Aragão, e “Alguém me Avisou”, de Dona Ivone Lara— antes de recordar o patriarca Gilberto Gil.
Francisco Gil lembrou-se da mãe, Preta Gil, morta neste ano, que teve o nome cantado pelo público, e começou a performance de “Palco”. A música foi um aviso do motivo de todos estarem ali —o navio parecia estar balançando mais que o normal conforme o público dançava e cantava a música de Gil.
O tropicalista é de indumento onipresente na embarcação. Além de totens e de suas imagens, ele é lembrado pelos mestres de cerimônia —um deles é Eri Johnson— e suas músicas tocam exaustivamente nos elevadores, corredores, espaços de lazer e restaurantes.
“Ela é uma das nossas maiores referências”, disse Francisco nos bastidores do evento, depois do show, sobre a mãe. “O pessoal fala muito sobre a pressão, sobre tutelar um legado, mas a verdade é que a gente aprendeu muito com a geração dela, com o que ela fez —não só de estrada ou musicalmente, mas a nossa verdade e porquê as coisas funcionam dentro dessa família.”
Antes de subir ao palco Nando Reis disse à Folha que, através de Gil, conseguiu quebrar um paradigma —de que criar não era alguma coisa inimaginável, um requinte distante da vida. “Não essa intervalo [da vida], você não precisa ser uma pessoa de fora.”
Ele lembra de presenciar ao show de Gil com a turnê “Luar”, em 1981, no vetusto Sesc Pixinguinha —hoje Sesc Consolação. No marchar debaixo da apresentação, ele disse, havia uma apresentação de fotos em que o tropicalista aparecia jogando futebol.
“Tive uma espécie de epifania ali, falei, ‘caramba, o Gil joga esfera'”, Nando afirmou. “Ele até portanto era um ser extraterrestre. Pensei, ‘se ele joga esfera, talvez eu possa tocar. Ele é humano.’ É, mesmo aquilo sendo fenomenal, conseguir identificar características básicas —humanas.”
Nando depois fez um show inteiro devotado a seus hits —conhecidos em sua voz ou na de outros cantores. Assim foi com “Dois Rios” e “Resposta”, famosas com o Skank, “Segundo Sol”, “Relicário” e “Luz dos Olhos”, com Cássia Eller, e “Onde Você Mora”, com o Cidade Negra.
Foi uma apresentação que ressaltou o lado compositor de hits de Nando Reis, que leu o envolvente onde estava. Ele não cantou para uma plateia de fãs, e mostrou quase sem pausa sua obra mais conhecida —incluindo ainda canções da idade de Titãs, porquê “Marvin” e “Cegos do Fortaleza” e sucessos solo, porquê “Pra Você Guardei” e “Por Onde Andei”.
O show foi marcado por ventanias fortes conforme o navio cruzava o mar, e alguns pingos de chuva chegaram a desabar na embarcação. Mas zero que tenha atrapalhado as milhares de pessoas no palco principal do Navio Tempo Rei.
Ao termo da apresentação, Nando saiu do palco ao som de um remix em EDM (electronic dance music) de “Anunciação”, de Alceu Valença. O rabi de cerimônias ainda lembrou aos presentes que o navio tinha um cassino e um bingo —além de uma sarau que correu madrugada adentro.
