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The town não consegue ser mais que caçula do rock
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The Town não consegue ser mais que caçula do Rock in Rio – 15/09/2025 – Ilustrada

O The Town nasce de uma teoria óbvia —por que não fazer um Rock in Rio em São Paulo? É isso que o festival vem tentando desde sua primeira edição, no ano retrasado, e agora, com shows que aconteceram nos dois últimos fins de semana no Autódromo de Interlagos.

Mas a verdade é que o The Town não é o Rock in Rio, e nem São Paulo é o Rio de Janeiro. Há particularidades nas metrópoles brasileiras que tornam essa missão mais desafiadora do que parece.

A estrear pela oferta de shows. A capital paulista é uma das melhores cidades do mundo para se consumir música ao vivo —vai de casas pequenas e unidades do Sesc ao Allianz Parque, feito para grandes apresentações.

Basta notar que grande secção das principais atrações deste The Town tocaram em São Paulo recentemente —Travis Scott, Mariah Carey e Lauryn Hill no ano pretérito, e Backstreet Boys em 2023, todos no estádio do Palmeiras. No Rio, não existe a mesma estrutura nem a mesma demanda. O libido do público de ver esses grandes astros, portanto, é maior ali.

O Rock in Rio é o grande evento músico dos cariocas. O The Town, ainda que tenha uma proposta artística dissemelhante, compete com o Lollapalooza, que acontece todo ano no mesmo Autódromo de Interlagos, e com outros festivais menores —o Coala Fest foi realizado de maneira concomitante ao primeiro termo de semana do megaevento. Nesse cenário, o The Town só teve um de seus cinco dias esgotados com antecedência. Nos outros, era visível que os shows não atingiram a lotação máxima.

Afora questões culturais de cada cidade, isso motivo um impacto indesejado ao The Town —o de ter o público mais morno de todos os megafestivais do país. A máxima espalhada pelo mundo, de que a plateia brasileira é a melhor, não se sustenta no evento.

Há exceções, mas de maneira universal o público no The Town é desapaixonado e indolente, dissemelhante até de quem assiste a esses mesmos artistas em shows individuais em São Paulo. A balança pende mais para o testemunha passivo —aquele que conhece poucas músicas e sai de mansão pelo passeio— do que para o fã emocionado.

O momento sincerão no show de Jessie J neste sábado ilustra muito esse comportamento. “Tem tanta gente aí, e está tudo tão sombrio”, ela observou, no palco. Na outra ponta, Ivete Sangalo, acostumada a raptar plateias, pareceu dar um recado logo no início de sua apresentação, dizendo que queria um público “quente, participativo e feliz”.

Uma das explicações disso pode estar no lineup. É difícil gerar uma reputação própria e novas experiências quando quase todos os headliners de 2025 —Katy Perry, Green Day, Travis Scott, Mariah Carey— são reciclados de edições recentes do Rock in Rio.

Também não contribui o vestimenta de que, dos headliners, unicamente o trapper americano esteja no auge de sua produção, lançando trabalhos que capturam o que existe de atual na música contemporânea.

Os outros já têm décadas de estrada e trajetórias que não são ascendentes. Backstreet Boys, Mariah Carey e Katy Perry, por exemplo, fazem ou já fizeram temporadas de shows em Las Vegas —veteranos encontram no lugar fixo a saída mais segura para curso.

Apesar disso, a boy band se valeu do ineditismo de ter sido a única atração que não havia se apresentado nos eventos da Rock World.

A tradução disso foi um show de plateia mais enxurrada, atenta e emocionada do que a média no evento.

Ainda assim, ajudou a provar que o The Town não é um festival de novidades, mas um que o público procura ouvir aquele hit que foi trilha sonora da vida de muitos 20 anos detrás. Não seria um problema se o resultado não fosse, com frequência, shows em que a plateia filma uma ou duas músicas e passa o resto do tempo conversando distraidamente.

Ironicamente, a sexta-feira (5) que marcou o primeiro dia do evento, o único devotado a uma cena mais contemporânea, o trap, foi também o que teve os ingressos esgotados previamente.

O gênero já havia se mostrado um filão promissor na estreia do The Town, quando representantes da cena fizeram shows lotados e de plateia ensandecida. Agora, com mais espaço, funcionaram ainda melhor, porque têm uma lógica própria e atraem um público mais jovem e diverso do que o típico do festival.

Nos outros dias, o palco The One —o segundo maior do evento— acabou sendo o reduto de alguns dos shows mais empolgantes. Foi lá que atrações uma vez que Lauryn Hill, Iggy Pop, Lionel Richie, Pitty, Matuê e Ludmilla conseguiram protagonizar apresentações com rosto de festival de música.

O palco ainda se revelou o melhor em termos de estrutura, já que aproveitou o morro que forma um anfiteatro oriundo e que é há anos explorado pelo Lollapalooza. Foi uma mudança bem-vinda em relação à primeira edição.

Não se pode expressar o mesmo do Skyline, a mansão dos headliners. Além de um sistema de som frequentemente aquém do espaço, ele faz o oposto do The One e ficou mais cima do que o público. Para quem está mais detrás, é ruim de ouvir e ver às apresentações.

Aí está outra grande diferença para o Rock in Rio, o mais confortável entre os megafestivais do país, com uma estrutura sólida e uma expertise em ocupar a dimensão plana do Parque Olímpico. O que há de melhor na estrutura do The Town é, na verdade, resultado de parcerias do evento com a Prefeitura de São Paulo —investimentos em transporte e banheiros que também beneficiam outros eventos no Autódromo.

Em sua segunda edição, o The Town não conseguiu ser mais do que o caçula do Rock in Rio. Ainda patina na procura pela própria identidade e por um isca que vá além de uma curadoria que agrupa as mesmas atrações que já tocam na cidade e no evento carioca, a cada dois anos.

Supra de tudo, falta em entender a metrópole paulistana para além dos prédios que adornam seu palco principal, o Skyline.

Folha

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