Gilka Machado ganha nova edição de 'Poesia Completa' 27/02/2026

Gilka Machado ganha nova edição de ‘Poesia Completa’ – 27/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Esta é a quarta edição da “Trova Completa” de Gilka Machado, agora pela Círculo de Poemas. As derradeiras (2017 e 2025) são façanha de Jamyle Rkain, que rompeu a triste sina que selava, desde 1978, para a edição completa, um buraco de 20 anos entre uma e outra. Seu nome comparece em ambas e com ele o acréscimo de informações a saudação daquela que fundou o erotismo na verso de mulher no Brasil.

Pobre, “mulata”, mal-casada, sem diploma ou instrução formal, família de atrizes e músicos, desvalida, assujeitada a empregos menores (faxineira da Estação Meão do Brasil) e depois cozinheira da pensão que conseguiu montar sozinha e com parcos recursos (onde, aliás, tomavam repasto seus colegas da Sarau, Tasso da Silveira e Andrade Muricy), Gilka, além de ter escrito seus poemas “à extremo do fogão”, teria sido, a crer no esforço de Jorge Estremecido, a primeira mulher sagrada membro da Liceu Brasileira de Letras.

Mas ela se deu ao luxo de renegar do invitação, o que demonstra muito o calete, a preceito e sua poderoso personalidade. Mesmo assim, em 1979, não pôde se esquivar do Prêmio Machado de Assis, que lhe foi atribuído pela própria ABL. Gilka não somente escreveu o que queria e da maneira porquê o desejou (porquê assegura à Nádia B.Gotlib que, com Ilma Ribeiro, teve a felicidade de entrevistá-la em 1979, no seu capaz da Tijuca, assistida por Heros, a famosa filha bailarina, revestimento da Life e paixão de Nelson Rodrigues), porquê batalhou pelo votação feminino.

Fundou, com Bertha Lutz em 1910, o incipiente Partido Republicano das Mulheres, enquanto lecionava na escola por oriente patrocinada (e que ganhara o nome da mulher do presidente Hermes, Orsina da Fonseca, sua amiga). O intuito era conscientizar as mulheres, atentando-as para seus direitos e sobretudo para aqueles preteridos pela sociedade, e até portanto inalcançáveis.

O experimento de Nádia, metódico desta edição, acessa seus poemas mercê da conferência por Gilka proferida em 1914, “A Revelação dos Perfumes”, “espécie de cartão de visitante sobre sua obra” que, em síntese, compõe a alquimia entre Simbolismo, Parnasianismo, Romantismo e vislumbres do Modernismo.

De seus leitores, Gilka há de reclamar mais das mulheres que dos homens: aquelas a tinham porquê uma espécie de rival, justo pelo texto revoltoso da sua obra que, no proferir de Agripino Grieco, se apressava em revelar “aos homens, porquê poetisa, certas coisas que devia esperar que eles lhe dissessem primeiro” … Eis aí o ponto fulcral, a inversão dos papéis sociais de gênero —o espinho mau das críticas malfazejas e detratoras que a maltrataram ao longo do seu trajectória lírico.

Gilka se queixa de que seu primeiro volume se esgotou rápido porque todos queriam ler “o livro impudico”. Quanto às críticas, incluíam até mesmo adulterações jornalísticas para escandalizar o público-leitor e jogar a sua reputação na vasa.

Levante é, por exemplo, o caso da ilustração de “um jornal carioca” a propósito da sua obra de 1928, das quais título desafiava com vontade as raízes da pudicícia de portanto: “Meu Glorioso Perversão”. Expõe-se, portanto, ali, uma pessoa candidata à futura Marilyn Monroe, numa saia godê inflada pela malícia do vento, que vinha ilustrada com o letreiro “Nasci para o perversão”.

Ora, o verso fora sacado do seu poema “Reflexões”, mas, órfão do contexto, restava manco e indecente (porquê se pretendia, aliás). O original era outro: “Eu sinto que nasci para o perversão, se é perversão, /na Terreno, amar o Paixão”. Gilka, que se casara aos 17 anos e enviuvara aos 30 anos (tendo sofrido maus tratos e, em 1976, a insuportável perda do fruto Hélio), passou por situações sinistras: seu marido era poeta e constava que ele escrevia os versos dela; ou o contrário: ela os dele; seus filhos eram apontados na rua porquê rebentos daquela “impudico”.

De resto, a preocupação da sátira foi sempre a de separar a mulher da poetisa, com receio de que aquilo que os poemas diziam contaminasse a madona que os escrevia; enquanto Gilka, a todo dispêndio, insistia em declarar que ela era a sua própria obra! E teve mesmo quem a ironizasse para depois mudar por completo de ponto de vista: Mário de Andrade.

Depois da leitura de “Cristais Partidos” (1915), que o desagradara, ele se rende, por termo, ao talento de Gilka, assegurando que tanto ela quanto Hermes Fontes começaram por “transfixar desvãos através dos quais seria provável prever a chegada da primeira revolução literária que houve no Brasil”.

Gilka também se ufanava da oportunidade de ter sido prefaciada por Olavo Bilac. Com orgulho, declinara do invitação porque desprezava supor-se “apadrinhada”: queria subir sozinha os degraus do valor poético. Por isso mesmo, creio que esta rima interna lhe caia muito muito: Gilka, a insubmissa.

Folha

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