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Globo x CazéTV na Copa vai além da guerra por audiência – 08/07/2026 – Esporte

Orbe ou CazéTV? A pergunta, que virou um clássico nos encontros de famílias para os jogos da Despensa, ilustra um lance histórico em 2026. Mais do que uma simples guerra por audiência, essa disputa evidencia uma completa reconfiguração de forças no audiovisual brasiliano. O que está em jogo é a erosão do monopólio das grandes emissoras de TV, edificadas em torno do macróbio protótipo em que a radiodifusão dependia de concessões concedidas pelo governo.

O imbróglio dos direitos esportivos não é simples, mas o capital já diz muito: a CazéTV comprou os direitos de transmitir todos os 104 jogos da Despensa; a Orbe, 55. Vale sublinhar: foi logo que esse fenômeno de audiência se dividiu entre a CazéTV, que é um conduto do YouTube com menos de cinco anos, e a Orbe, que é… a Orbe.

“Essa disputa é marcada pelo indumentária de que, agora, para um conduto de TV subsistir, não precisa mais de licença do governo, de uma frequência. Tudo isso virou pó”, lembra Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes, da USP. “As TVs tinham uma barreira de ingressão no mercado; além de licença, precisavam de sobranceiro investimento para transmissão, satélites etc., e, por isso, a concorrência era limitada. Agora um Cazé da vida pode ameaçar uma TV do tamanho da Orbe.”

Mas Bucci sublinha um oferecido: embora a CazéTV tenha começado com o influenciador Casimiro Miguel, está muito distante de um projeto rendeiro. Já na inauguração, teve parceria com a LiveMode, que atua na exploração de direitos esportivos e, inclusive, é representante mercantil da Fifa no mercado brasiliano –a empresa controla a CazéTV desde 2025. “E a Cazé está no Youtube, que é do Google, empresa que hoje tem um poder muito maior do que as emissoras de TV. Há ainda uma barreira de ingressão, mas mudou de ordem: é preciso desabar nas graças das big techs”, diz. “A Cazé conseguiu 21 milhões de pessoas assistindo ao mesmo tempo. É muito potente. O ‘establishment’ das emissoras está implodindo.”

A disputa entre a CazéTV e a Orbe é o tema da pesquisa de pós-doutorado, na USP, de Patrícia Rangel, professora da ESPM. “Essa não é uma simples guerra por audiência”, diz. “É um momento da consolidação de um novo paradigma comunicacional em que televisão, streaming, redes sociais e criadores de teor disputam a atenção, o tempo e a crédito do público.”

Durante muito tempo, “a Orbe monopolizou esse mercado apoiada em três pilares: exclusividade dos direitos de transmissão, capacidade técnica e enorme alcance por meio da TV oportunidade”. “A Despensa de 2026 rompeu esse paradigma ao fragmentar os direitos de transmissão e permitir que a Cazé exibisse todos os jogos gratuitamente no YouTube, enquanto a Orbe teve um pacote parcial.”

A ingressão do SBT na subdivisão dos direitos da Despensa, com um pacote de 32 jogos, também está inserida nesse novo cenário. A negociação envolveu uma parceria da emissora com o N Sports, conduto multiplataforma presente na internet e em TVs por assinatura e que tem Galvão Bueno uma vez que sócio. O narrador, que foi sempre uma marca da Orbe, emprestou seu prestígio ao SBT. “A ida do Galvão para o SBT também se relaciona com essa disputa de mercado”, diz Bucci. “E isso abre um vazio na Orbe, porque o Galvão tem um carisma ainda sem um substituto.”

O professor critica o indumentária de Galvão ter se tornado um “caixeiro viajante das bets” (é garoto-propaganda da Betnacional) e ressalta que esses anúncios são centrais na disputa CazéTV x Orbe. No início da Despensa, a CazéTV foi questionada pelo Ministério da Justiça e pelo Conar (Recomendação Pátrio de Autorregulamentação Publicitária) por incentivar as apostas durante as transmissões das partidas, com comentaristas falando sobre probabilidades de acerto (odds).

Bucci pondera que a CazéTV “pode ter avançado mais nos limites”, mas que a Orbe, assim uma vez que o SBT e outros “estão fazendo anúncios de jogos de má sorte, o que é um paradoxal”. “Mas isso só virou uma questão na Despensa porque a Cazé incomodou as emissoras”, analisa. “Não foi por paixão às nossas crianças, mas por paixão às fatias de mercado conquistadas pela Cazé. É uma pugna de mercado disfarçada por uma disputa de quem é vencedor da moral, e nenhum deles é.”

O Ministério da Justiça e Segurança Pública abriu investigação para apurar a veiculação de ações publicitárias relacionadas a apostas de quota fixa durante transmissões pela CazéTV. O despacho da pasta cita propagandas de diversas casas de apostas efetuadas pelo conduto do dedo durante a transmissão dos jogos.

No documento, o ministério destaca que as normas do “jogo responsável” vedam, entre outros pontos, ações publicitárias que sugiram obtenção de proveito fácil, encorajem práticas excessivas de apostas, contenham chamadas para ação que sugiram a realização imediata de apostas e apresentem informações falsas ou enganosas.

LINGUAGEM

Outro fenômeno consolidado nesta Despensa foi uma espécie de “cazemirização” das transmissões dos jogos, com a informalidade da internet sendo absorvida pelas emissoras de TV tradicionais. “A Cazé tem uma linguagem solta, aposta na cobertura com mais fragor e nos próprios erros uma vez que estratégia de humor”, analisa Luciano Maluly, professor de jornalismo esportivo da ECA-USP.

A procura das TVs por se aproximar dessa linguagem foi clara. “A Orbe reagiu mandando pessoas experientes embora, contratando gente novidade, influencers, e tentando mudar a atuação daqueles profissionais mais velhos. Não sei se é o melhor caminho”, pondera. “Você vê aqueles profissionais, que há 40 anos apresentam esporte de um jeito, de tênis branco, tentando ser engraçado. Nunca foram, não é agora que vão ser”, diz o professor. “A Orbe não precisaria imitar a Cazé, poderia manter a tradição, que também é uma boa opção para o público.”

Rangel complementa: “Na CazéTV, a transmissão é construída com linguagem informal, interação em tempo real, humor, memes e participação intensa do público por meio do chat e das redes sociais”, afirma. “Em contraste, a Orbe preserva um padrão mais institucional, fundamentado na mando jornalística, na superioridade técnica e na narrativa televisiva clássica, por mais que esteja tentando ser mais despojada, mormente na linguagem e nas narrativas.”

O estilo importa, mas há outro paisagem preponderante: “A CazéTV cresceu, antes de mais zero, porque o chegada é rápido. Você dá um clique e já está assistindo. Na Orbe, mesmo no streaming, é mais burocrático, há conteúdos esportivos abertos e outros pagos”, aponta Maluly.

Com as TVs conectadas na internet, diz Rangel, “a tendência é que o YouTube ganhe cada vez mais audiência porque o teor esportivo não precisa ser mais consumido somente pela tela pequena do celular”.

“Os brasileiros têm o hábito de ver futebol na tela da TV, e agora está simples que o YouTube está disponível nesse formato.” Nesta Despensa, isso foi escancarado para todas as idades. Rangel dá um exemplo “rendeiro, mas significativo”: “Em um domingo, cheguei à lar do meu pai, e ele e meu tio, respectivamente 87 e 84 anos, me pediram para colocar o televisor na Cazé porque a Orbe não estava transmitindo África do Sul X Canadá”, narra. “Perguntei se gostavam da Cazé. Responderam que era muito boa porque passava todos os jogos.”

Folha

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