Grace Passô expurga traumas de pessoas negras em filme – 26/08/2026 – Ilustrada
Grace Passô lançou seu primeiro longa-metragem porquê diretora no Festival de Gramado, na semana passada, e ainda assim parecia ser uma velha conhecida do tapete vermelho. Enquanto seu filme, “Nosso Sigilo”, agora já nos cinemas do país, era uma das exibições mais aguardadas do evento, o nome da diretora soava com frequência nos corredores do Palácio dos Festivais.
Em uma entrevista coletiva, Selton Mello, homenageado no evento gaúcho, classificou Passô porquê uma das maiores atrizes que já viu, tamanha sua “poderosa presença”. Os dois trabalharam juntos em um dos episódios de “Sessão de Terapia”, série da Globoplay.
Aos 46 anos, o currículo de Passô porquê atriz é extenso, mormente nos palcos, onde também se tornou dramaturga. No cinema, protagonizou títulos porquê “Temporada”, “No Coração do Mundo”, “O Dia que Te Conheci” e “Rossio Paris”. No teatro, venceu dois prêmios Shell por “Por Elise” e “Vaga Músculos”, solilóquio com o qual rodou o país.
“A direção de cinema é pensar várias coisas ao mesmo tempo, alguma coisa geral no teatro. Fazer teatro no Brasil te obriga a entender sobre produção”, disse ela, de óculos escuros azulados e blazer, na manhã seguinte à exibição de “Nosso Sigilo”. Coroado porquê o melhor filme do festival no último sábado, o filme havia estreado em fevereiro numa mostra do Festival de Berlim.
O longa acompanha uma família composta por mãe, tia e quatro filhos, três maiores de idade e Tutu, de nove anos. Logo na primeira cena, o irmão mais velho, interpretado por Robert Frank, diz a um passageiro durante uma corrida de aplicativo que seu pai, única pessoa branca da lar, morreu recentemente.
Apesar da convívio pacífica, há um clima tenso no ar. É porquê se houvesse um tópico proibido que empesteia o lugar. O vilão parece ser o luto, até que o desconforto vai ganhando formas sobrenaturais.
Vasa escorre pelas paredes por vezes, o teto começa a mofar, e nenhum habitante, com exceção de Tutu, se atreve a frequentar o andejar de cima da residência —que, no primórdio da história, a mãe comenta estar em obra há muito tempo.
A estrato de terror que Passô acrescenta à trama se forma sobre o dia a dia aparentemente corriqueiro da família. “Tenho uma preocupação com o estranhamento. Com essa teoria de que alguma coisa estranho nos faz olhar de uma forma dissemelhante para as histórias”, afirma.
Essa marca está presente em seus trabalhos anteriores porquê autora. No caso de “Vaga Músculos”, uma entidade invade o corpo de uma mulher e passa a analisá-la de dentro para fora. Em “Nosso Sigilo”, a teoria é entender porquê a exiguidade pode se tornar insuportavelmente presente.
“Quais são as estratégias para continuar vivendo em seguida grandes traumas, grandes perdas? Eu queria falar sobre o quanto, historicamente, pessoas negras e suas famílias sobreviveram a traumas devido ao afeto. É isso que fez a tragédia colonial não exterminar nosso povo”, diz.
A reflexão política permeia detalhes do cotidiano familiar. Em manifesto momento, por exemplo, o fruto mais velho diz que o trabalhador, cansado no final do dia, “não tem mais ouvido para escutar e olhos para ver”. Em outra cena, o namorado da filha presenteia Tutu com uma máscara que ele usava quando gaiato, quadra em que sofria bullying na escola.
Mas Passô desvia de manifesto didatismo que, por vezes, acomete filmes dedicados a críticas envolvendo classe, raça ou gênero. O elemento fantástico é uma estratégia, diz ela, de tratar assuntos complexos de forma visual e, mais importante, emocional.
“O cinema preto tem contribuído muito para o cinema brasílico. Em determinado momento, um filme precisava falar só sobre assuntos porquê racismo e violência. Hoje queremos alhear os assuntos para que eles virem sentimentos”, disse ela a jornalistas, em Gramado.
Não por casualidade, “Nosso Sigilo” aposta em tomadas fechadas no rosto dos atores, mormente conforme sua perturbação se agrava e a lar definha.
O envolvente em obras, sem previsão de desenlace, é uma verdade geral a muitas residências periféricas. A atenção privado dada à construção da residência da família é outra marca do trabalho de Passô, que faz cenários povoados de elementos simbólicos.
Foi o caso de sua montagem da ópera “Porgy and Bess” no Theatro Municipal de São Paulo, em setembro do ano pretérito. O espetáculo de George Gershwin retrata o cotidiano e a luta pela sobrevivência dos moradores negros de Catfish Row, um suposto bairro americano.
Criada em 1935, a ópera rompeu barreiras ao exigir um elenco formado em maioria por cantores afro-americanos em uma quadra de segregação racial nos Estados Unidos. Pela primeira vez, a verdade negra ocupava os palcos da subida cultura, até portanto restritos a elites brancas.
Para levar “Porgy and Bess” ao tablado brasílico, Passô criou um cenário alaranjado, com uma única enorme estrutura de madeira colorida que emulava o cortiço da história. Ela era composta por vários compartimentos que se assemelhavam às casinhas típicas das favelas brasileiras.
Os atores vestiam tênis esportivos, óculos espelhados e correntes, acessórios também associados à cultura das periferias brasileiras, enquanto o figurino de outros pendia mais para o clássico, com blazers ou roupas de estampas africanas.
Passô critica o posicionamento da atual gestão do teatro, comandado desde junho pelo Instituto Bacarelli, depois de a Sustenidos ter perdido a disputa pelo equipamento cultural em seguida enfrentar uma longa crise com a Prefeitura de São Paulo, que incluiu acusações de parlamentares da bancada conservadora de suposta doutrinação ideológica no teatro.
Em junho, Edilson Ventureli, diretor-executivo do Baccarelli, afirmou que a gestão não tem a intenção de conciliar óperas para atender demandas de grupos minoritários nos espetáculos da forma porquê fez a gestora anterior.
Dentre as montagens estiveram espetáculos porquê “O Guarani”, de Carlos Gomes, com um elenco indígena, que destoava, em diversos pontos, das intenções do responsável e foi vista porquê militante por grupos mais à direita.
“Nós não temos a intenção de ter zero político ou identitário assim nas nossas produções”, disse Ventureli. “Nós queremos satisfazer o que o compositor escreveu. O que não significa ser conservador, tradicionalista ou retrógrado.”
“Fiquei assustada com a associação de produções que foram feitas nos últimos tempos a uma teoria de identitarismo”, diz Passô. “É um resquício de uma noção muito colonial de cultura. São pessoas que têm saudade de um Brasil que não contava sua história verdadeira, que reverenciava uma teoria europeia de arte. Porquê se as belas artes fossem aquilo que consegue se aproximar da sentença europeia. Acho isso muito racista e demodê. É uma lar que deveria proteger a liberdade de expressões artísticas, mas está preocupada em limitar a teoria do que é ou não é uma ópera.”
Em resposta, o Baccarelli afirma que associar a atuação do instituto ao racismo é surpreendente e não corresponde à história ou aos valores da instituição. “Há 30 anos atuamos em uma favela, promovendo inclusão social, democratizando o aproximação à arte, à ensino e à cultura e ampliando oportunidades para crianças, jovens e famílias da periferia. O combate ao racismo, à desigualdade e à exclusão social faz secção da própria núcleo da nossa atuação”, diz a nota.
“Lamentamos, portanto, que declarações recentes sobre perspectivas artísticas para o Theatro Municipal de São Paulo tenham sido interpretadas porquê uma posição contrária à pluralidade ou à representatividade”, afirma ainda o texto. “A programação também contemplará produções contemporâneas, capazes de provocar debates e dialogar com questões do nosso tempo.”
No teatro, o trabalho de Passô também atualiza as bases lançadas pelo Teatro Experimental do Preto, grupo fundado por Abdias Promanação na dez de 1940, que revolucionou a dramaturgia do país ao transfixar caminho para que corpos negros ocupassem o palco porquê protagonistas de suas próprias histórias.
É essa liberdade narrativa que Passô leva também para as telonas, assim porquê outros conterrâneos mineiros, a exemplo de Gabriel Martins, de “Marte Um”, e André Novais Oliveira, de “O Dia que Te Conheci”. “[São cineastas] que estão conseguindo colocar outros corpos em evidência. Corpos que se sentem livres para falar porquê são, com seu próprio sotaque, que ajudam o cinema a pensar o que é um ator”, diz.
É alguma coisa que demorou a chegar, mas já era há muito esperado, dada a recepção de Passô por onde passa. Uma verdade profetizada por um dos membros da família em “Nosso Sigilo”, quando diz, casualmente, que “saudade é uma legado nossa”.
A jornalista viajou a invitação do Festival de Gramado




