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Guto Miguel, 17 anos, finalista de Roland Garros juvenil
Esporte

Guto Miguel, 17 anos, finalista de Roland Garros juvenil – 05/06/2026 – Esporte

Luis Augusto Queiroz Miguel nasceu numa família de tenistas. O pai joga; o irmão mais velho também. O tênis era o linguagem da morada em que o caçula, que todos chamam de Guto, cresceu, em Goiânia, onde nasceu em 26 de fevereiro de 2009. Dezessete anos depois, ele está na final juvenil de Roland Garros e já garantiu o posto de número 1 do ranking mundial da categoria.

A história começa em Goianésia, cidade do interno goiano onde a família morava quando Guto deu os primeiros passos no esporte. Foi ali que ele começou a jogar, aos cinco anos, batendo bolinha num paredão. O pai ensinava. O irmão Luís Felipe, cinco anos mais velho, treinava ao lado.

Quando o talento ficou evidente, veio a decisão difícil. Aos 14 anos, Guto deixou Goiânia sozinho para se profissionalizar em Brasília, onde passou oito meses morando em casas de família antes de os pais decidirem se mudar definitivamente para a capital. A aposta foi feita pelos dois lados: a família largou a cidade natal, e o menino apostou numa curso que ainda não tinha zero reservado.

Em Brasília, passou a treinar com a dupla que o acompanha até hoje: Santos Dumont Guimarães, 57, e Kike Granjeiro. Para Guimarães, a chegada à final em Paris não é surpresa. “Já esperava. A gente trabalha há muito tempo para isso. O desenvolvimento dele foi sem razão, subiu muito rápido. Acho que tudo estava no tempo de sobrevir”, disse à Folha, por telefone, horas antes da decisão.

O salto, de veste, foi rápido. Em 2024, com 15 anos, Guto classificou-se para Roland Garros juvenil pela primeira vez. Em 2025, chegou à semifinal do US Open juvenil e venceu o J500 de Mérida —tornando-se o primeiro brasílico a levantar um troféu nessa categoria desde Orlando Luz, em 2015. Também acumulou tempo de quadra ao lado de Holger Rune, ex-top 5 do mundo, e passou uma semana no núcleo de treinamento de Rafael Nadal na Espanha.

Em 2026, o ritmo acelerou. Venceu o J300 de Traralgon, na Austrália, em simples e duplas. Chegou às quartas do Australian Open juvenil. Começou a transição para o rodeio profissional com títulos em duplas no Challenger, ao lado do irmão Luís Felipe e de outros parceiros. Em fevereiro, recebeu um invitação para disputar o Rio Open —ATP 500, o maior torneio da América do Sul. Perdeu na estreia, mas não deixou de impressionar. Tinha a mesma idade de João Fonseca quando o carioca estreou no mesmo torneio, em 2023.

Fonseca, aliás, é uma referência declarada. Os dois treinaram juntos no Brasil. Agora, com Fonseca, que chegou às quartas de Roland Garros no masculino profissional, e Guto na final juvenil, o tênis brasílico ocupa dois andares do mesmo torneio ao mesmo tempo.

Nesta sexta-feira (5), Guto venceu a semifinal numa partida inteiramente brasileira —a primeira de sua espécie na história de um Grand Slam juvenil. Derrotou o mato-grossense Leonardo Storck por 6/1, 3/6 e 6/2, em 1h49.

Com a vaga na final, garantiu matematicamente a liderança do ranking juvenil da ITF (Federação Internacional de Tênis) —posto que será oficializado na atualização desta segunda-feira (8). Torna-se o quarto brasílico a chegar ao topo da categoria, depois de Tiago Fernandes (2010), Orlando Luz (2015) e o próprio Fonseca (2023).

Neste sábado (6), na quadra Simonne-Mathieu, não antes do meio-dia em Paris (7h de Brasília), Guto enfrenta o americano Michael Antonius, 13º cabeça de chave, que eliminou Keaton Hance por 6/3 e 6/1. Os dois já se enfrentaram uma vez no rodeio juvenil, com vitória do americano.

O que está em jogo é mais do que um título. Guto será exclusivamente o quarto brasílico a disputar uma final de simples juvenil em Roland Garros. Antes dele, Edison Mandarino (1959), Thomaz Koch (1962 e 1963) e Luís Felipe Tavares (1967) chegaram à decisão. Nenhum levou o troféu.

Um eventual título também colocaria Guto no grupo restrito de brasileiros campeões de simples juvenil de Grand Slam, hoje formado por Tiago Fernandes (Australian Open de 2010), Thiago Wild (US Open de 2018) e Fonseca (US Open de 2023). “Roland Garros era um sonho desde pequeno. Agora eu estou numa final”, disse à RFI posteriormente a vitória. “Já sou o número 1 do mundo reservado. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.”

Para Guimarães, o que sustenta a subida são três qualidades. “O Guto é muito possante fisicamente, com golpes muito potentes, e tem leitura de jogo. Essas três coisas ele faz muito muito”, afirmou. Fora da quadra, o técnico descreve outro retrato. “É uma pessoa contente, descontraída, gente boa. Gosta de recrear. Um garoto permitido.”

A pressão, diz o treinador, é o capítulo mais novo dessa história. “Agora ele está sentindo muita cobrança, mas segura muito. Tem altos e baixos, uma vez que todo juvenil. É muita pressão em cima dele, foi tudo muito rápido”, explicou. “Com 14 anos ele já estava jogando final de ITF sub-18. Foi uma coisa detrás da outra.”

O próximo passo já está traçado. Guto tem ranking profissional —está no 829º lugar em simples e no 177º em duplas na ATP— e a teoria é aligeirar a viradela de chave.

“Agora já estamos indo para o profissional. O foco é terminar o ano uma vez que número 1 do mundo juvenil e, no ano que vem, entrar de vez no profissional, nas classificatórias”, disse Guimarães.

Mesmo com a final de um Grand Slam primeiro, o técnico insiste que o teto está longe. “É jovem, tem 17 anos recém-completados. Tem muita coisa para melhorar. O processo dele sempre foi subindo, subindo. E agora vai premiar uma curso juvenil.”

Sobre o que falta para o salto definitivo, Guto resumiu, à RFI, da forma mais simples: “Trabalho duro.”

Folha

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