“Novidade”, disco recém-lançado de Hamilton de Holanda, carrega uma calma que não parece construída. Ela simplesmente acontece. Uma vez que se a música soubesse exatamente onde respirar.
Holanda fala sobre dificuldade com uma naturalidade quase desconcertante. “A pessoa não precisa entender o mecanismo para sentir a formosura”, afirma. “Esse é o ponto: transformar dificuldade em presença, em emoção, em um tanto que chega direto.”
“Novidade” parece nascer exatamente desse lugar. Um disco permeado por sofisticação harmônica, improvisação, ritmos brasileiros, jazz contemporâneo, pranto, referências africanas e texturas elétricas, mas que nunca se apresenta porquê excesso. Tudo ali se organiza em torno de uma teoria simples e difícil: emoção porquê meio.
“‘Novidade’ tem a ver com recomeço, com promanação, com essa vontade de olhar para o mundo e para mim mesmo com olhos novos”, diz o músico. “É um disco de maturidade, mas, ao mesmo tempo, de invenção.”
O meio desse universo é o trio formado por Holanda, Salomão Soares e Thiago Big Rabello. Entre piano, Moog —sintetizador— e bateria, os três constroem uma base que não sustenta o disco de forma rígida. Ela se movimenta. Soares desenha camadas que mudam a densidade do espaço sonoro. Já Big mantém o pavimento vivo, com um balanço jacente, físico, quase orgânico.
A partir desse núcleo, o disco abre portas para encontros que redesenham suas paisagens internas.
Em “Pras Crianças”, elaboração escrita em 1999, a presença da sitarista Anoushka Shankar cria uma espécie de suspensão luminosa dentro da música. O sitar aparece porquê respiração, abrindo espaço e silêncio dentro da melodia.
“Quando eu compus ‘Pras Crianças’, eu era outro Hamilton”, diz. “Hoje volto a essa música com mais estrada, mais silêncio, mais perdas e mais alegrias.”
Em “Insensível Lá Fora”, o trompete de Ibrahim Maalouf se espalha lentamente pela fita, trazendo uma melancolia quente, quase cinematográfica, que amplia a sensação de espaço da música sem interromper seu fluxo.
A presença de Paulinho da Costa adiciona outra categoria de memória ao disco. Sua percussão ajudou a moldar o som de gravações históricas da música mundial, de Michael Jackson a Quincy Jones. Em “Novidade”, ele aparece com a mesma precisão elegante que marcou sua trajetória inteira, porquê quem entende o ritmo porquê linguagem de construção de mundo.
Michael Pipoquinha surge dentro dessa mesma lógica de integração. Seu ordinário tem uma fluidez que se encaixa naturalmente no coração rítmico do álbum, ampliando a pulsação sem interromper o figura universal.
Em 2000, Holanda mandou edificar um bandolim com dez cordas. Dois graves a mais que o instrumento tradicional de oito. Quando o colocou no pescoço pela primeira vez, sentiu que aquilo não era só uma mudança técnica. “Era porquê se eu estivesse encontrando uma instrumento novidade para expor coisas que eu já carregava dentro de mim, mas ainda não sabia exatamente porquê expressar.” Tem gente que espera a vida inteira por esse instrumento.
Há também uma categoria que não está no estúdio, mas na forma porquê Holanda vive a música.
Enquanto nos preparávamos para a entrevista, Holanda pegou um violão e começou a tocar canções de ninar para um bebê que estava no envolvente da gravação. A cena durou alguns minutos. Não havia apresentação nem pregão. Exclusivamente música em estado simples.
O mesmo músico que, com esse gesto tão quebradiço, transformava o envolvente em um tanto tão gentil, é também o compositor convidado por Wynton Marsalis para ter suas obras interpretadas pela Jazz at Lincoln Center Orchestra, no Rose Hall, em Novidade York. Um invitação que segmento de um dos nomes centrais da história do jazz contemporâneo e que coloca Holanda dentro de um espaço em que a obra do compositor ganha outro tipo de permanência: o de repertório.
Quando falou sobre esse invitação, Holanda pensou primeiro em outro lugar.
José Américo, o pai, colocou o som dentro de morada antes de o rebento saber o que era música. O violão, os discos, o uso de escutar com atenção. Holanda deu seu primeiro show aos sete anos. O pai deu o som antes de tudo. O resto foi consequência.
“Eu pensei no pranto, pensei no bandolim, pensei no Brasil, pensei em Brasília, pensei no meu pai, minha mãe, minha família”, disse. “No fundo, continuo sendo aquele menino ouvindo o violão do meu pai e tentando transformar emoção em música.”
Essa frase não funciona porquê memorandum. Funciona porquê chave.
Em “Novidade”, essa mesma lógica aparece em cada fita. Mesmo quando o disco fala de porvir, ele não abandona o que foi aprendido na escuta.
“O artista não compõe esperança porque o mundo está fácil”, diz o músico. “Talvez componha justamente porque o mundo está difícil.”
Há um tanto de muito preciso na forma porquê “Novidade” constrói essa teoria. A esperança cá não é noção. É prática de escuta.
Cinco estatuetas do Grammy Latino, 12 Prêmios da Música Brasileira, o mundo inteiro porquê palco. E Hamilton de Holanda ainda se mostra interessado na mesma coisa de quando começou: transformar afeto em som.
Talvez seja por isso que “Novidade” permaneça, mesmo depois que o disco acaba.





