'Hamnet' transforma teorias sobre Shakespeare em arte 13/01/2026

‘Hamnet’ transforma teorias sobre Shakespeare em arte – 13/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ainda que o nome de William Shakespeare seja dito em sobranceiro e bom som no filme “Hamnet”, ele não aparece nenhuma vez nas 360 páginas do livro original da irlandesa Maggie O’Farrell.

Em entrevistas, ela costuma lembrar que sua teoria era recontar uma história de pai e fruto centrada em Shakespeare, mas a figura maiúscula do responsável acabava se impondo uma vez que uma distração, quando ela queria uma trama de gente generalidade.

Foi logo que o enredo acabou “sendo sequestrado” pela personagem de Agnes, sua esposa, que aparece na maior segmento dos registros históricos uma vez que Anne Hathaway —sim, igual à atriz.

Anne e Agnes são corruptelas do mesmo nome, um tanto generalidade no Reino Uno do século 16, assim uma vez que a confusão entre Hamnet e Hamlet que se tornou a semente desse livro best-seller, publicado no Brasil pela Intrínseca com tradução de Regina Lyra.

A teoria da obra foi disparada por um tentativa do crítico literário Stephen Greenblatt, na revista The New York Review, sobre a relação entre a morte do fruto do dramaturgo e a realização de uma de suas obras-primas.

Esses dois fatos indubitavelmente aconteceram, dentro de um espaço de quatro anos. Mas quase tudo no livro, uma vez que admite a própria escritora numa nota do romance, é “resultado de [sua] vã especulação”.

Os registros sobre a vida privada de Shakespeare são tão raros que alimentam, até hoje, teorias conspiratórias que dizem que ele nunca existiu. Não é preciso ir tão longe, mas Greenblatt, um dos maiores especialistas vivos no responsável, aponta que sua intimidade é “quase totalmente misteriosa”.

Nenhuma de suas cartas, diários ou manuscritos sobreviveram, segundo o crítico americano. “Seus sonetos foram esmiuçados em procura de evidências autobiográficas, mas, mesmo que escritos em primeira pessoa, eles são desorientadores, elusivos e deliberadamente opacos.”

Não há problema qualquer em produzir ficção a partir de acontecimentos reais, buscando erigir alguma estrutura de sentido em torno de vidas insondáveis. Nem O’Farrell nem a cineasta Chloé Zhao —que assinam juntas o roteiro do filme “Hamnet”, que estreia nesta quinta (15)— escondem que é isso que estão fazendo.

Essa romantização é, todavia, somente uma versão provável, condensada para direcionar o testemunha a uma epílogo emocional específica —o que as criadoras da obra fazem com enorme sucesso.

Não seria profíquo para o filme lembrar, por exemplo, que Shakespeare escreveu duas de suas melhores comédias, “Porquê Gostais” e “Muito Estrondo por Zero”, no período entre a morte de seu fruto e a estreia de “Hamlet”. Ainda que o luto tenha seus enigmas, simplesmente não funcionaria na estrutura dramática.

Também não há certeza de que foi a peste bubônica a responsável por ceifar o fruto do dramaturgo. É um chuto muito informado de O’Farrell, que, em uma das melhores passagens do livro, refaz todo o caminho da doença através da Europa até chegar à fatalidade que assolou a morada de Stratford.

Tampouco convém comentar que “Hamlet” teve inspiração direta em outras montagens apresentadas na idade em Londres sobre a tragédia da família real dinamarquesa. O que Greenblatt adiciona é que, em seu texto, Shakespeare sofistica as estruturas internas de suas personagens de maneira inédita, borrando a racionalidade de suas motivações.

E isso teria a ver com a morte do fruto. Mais que uma decisão estética, segundo o crítico, expressava sua “percepção mais profunda da existência, sua compreensão do que devia ser dito ou permanecer não dito”, sua preferência por deixar as histórias mais desarrumadas que limpinhas e organizadas.

Quando fez sua resenha elogiosa de “Hamnet”, Greenblatt ressaltou que sua sentimento sobre o consórcio de William e Agnes era muito dissemelhante da de O’Farrell. Tudo apontava, segundo ele, para uma relação infeliz, marcada pelas longas ausências do dramaturgo, o que piorou com a tragédia doméstica.

A autora irlandesa e a cineasta chinesa pediram licença para discordar. Produziram um desfecho rememorável em que a montagem incipiente de “Hamlet” serve para sublimar o luto não só de seu responsável, mas de sua esposa que se esgueira, anônima, para ver a peça com o nome do fruto.

Zero indica que isso tenha sucedido. Mas é por aí que se entende o poder da ficção.

Folha

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