Harper lee: textos descartados rendem livro acima da média

Harper Lee: Textos descartados rendem livro acima da média – 21/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“A Terreno da Rebuçado Evo”, novo livro de Harper Lee, é bom. Chegando perto de ser muito bom. Uma coletânea de oito contos que está supra da média com pão e manteiga servida pelas editoras.

O que distingue a avaliação da obra, no entanto, é seu caráter mercadológico —a conjunção de ser uma recolha de textos descartados, que se acreditavam perdidos, milagrosamente descobertos pelos representantes legais da autora e publicados sem a permissão dela, que morreu em 2016.

Na revestimento do livro, consta o nome de quem escreveu um dos maiores long-sellers de todos os tempos, “O Sol É Para Todos”, clássico contemporâneo que aborda racismo e direitos humanos e que, desde o seu surgimento em 1960, vende uma vez que pão quente —muro de 40 milhões de exemplares.

Não é a primeira vez que se descobre uma envoltório do tempo com as digitais de Harper Lee. Um inesperado romance foi publicado em 2015, fruto de outra invenção milagrosa. “Vá, Coloque um Vigia” estava dormindo numa caixa de papelão na lar da escritora, no estado americano do Alabama.

Trata-se de um rascunho do que seria a obra que consagrou a autora, deserto a pedido dos editores. Eram os mesmos que estimavam vender no sumo uns milénio exemplares de “O Sol É Para Todos”.

Na estação do lançamento, a notícia caiu uma vez que um petardo. Harper Lee tinha 89 anos e estava internada numa clínica para idosos. Muitos anos antes havia desistido de grafar, adotando um silêncio à Salinger.

Seu principal biógrafo, Charles Shields, disse que a escritora já não estava consciente de seus atos e havia sido vítima de aproveitadores. Segundo Shields, ela não queria ver o rascunho publicado.

Um típico barraco cultural ou debate ético cada vez mais geral —que poderíamos batizar de “fator Kafka”—, envolvendo a última vontade de escritores, o interesse de leitores ávidos por reencontrar o responsável preposto e a responsabilidade de herdeiros e editores.

A discussão circundou “Em Agosto nos Vemos”, a romance outonal de Gabriel García Márquez, que teve um lançamento mundial dez anos em seguida a morte do responsável. Já sofrendo de demência, o Nobel colombiano havia optado por destruir o manuscrito. A considerar a resposta favorável de leitores e de segmento da sátira, seu julgamento estava inverídico.

Exemplos de oportunismo réptil em torno de supostas obras-primas esquecidas em gavetas existem às pencas. Destaque para “O Original de Laura”, de Vladimir Nabokov, tido uma vez que um dos segredos mais muito guardados da literatura, tesouro enclausurado nos cofres de um banco suíço desde o término da dezena de 1970. Enfim publicado em 2009, constatou-se a fraude. Não passavam de notas e rabiscos.

Quem agiu muito foi Fernando Sabino, que uma vez que bom mineiro era um sujeito intrigado e precavido. Em seus últimos anos entregou-se a imaginar “a obra póstuma em vida”, retocando e dando forma definitiva a todos os seus inéditos.

Harper Lee não se dedicou a essa tarefa porque não tinha mais gosto para grafar, muito menos para rever velhos papéis amarelados. Com “O Sol É Para Todos”, tinha chegado aonde queria —e disse chega, satisfeita.

“A Terreno da Rebuçado Evo” é uma prova de sua dedicação e tirocínio enquanto buscava realizar-se uma vez que artista. O livro revela uma vez que Lee, tateando no escuro, procurando saídas, fez sozinha sua própria oficina de escrita criativa.

Elaborados uma dezena antes da publicação de “O Sol É Para Todos”, depois de a escritora deixar o Alabama e se mudar para Novidade York, os contos mostram os mesmos cenários, personagens e dramas de sua obra única e irrepetível.

Um pouco do feitiço porvir aparece nos relatos de novel. O tom de voz implacável, engraçado e jovem, que dá testemunho e condena o mundo adulto. Uma espécie de Holden Caulfield de saias, que não esconde a enorme ternura, mas tem cabelinho nas ventas.

Além de uma introdução assinada pela jornalista Casey Cep, encorpa o magro volume uma seção com oito ensaios. São reflexões sobre puerícia, família, amizade, vida intelectual e o sul dos Estados Unidos.

Sobressai um perfil de Truman Capote, com quem Harper Lee formou uma dupla maluca. Os dois, foram vizinhos quando crianças, e Lee se baseou nele para produzir o personagem Dill Harris em “O Sol É Para Todos”. Ambos trabalharam juntos no romance de não ficção “A Sangue Indiferente”, embora a participação dela tenha ficado em segundo projecto, meio escondida.

Invejoso do sucesso da amiga, Capote, ao tomar além da conta, costumava expor que era ele o verdadeiro responsável de “O Sol É Para Todos”. Será que diria a mesma coisa sobre “A Terreno da Rebuçado Evo”?

Folha

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