‘Hétero Sigilo’ discute homofobia e desejo no palco – 13/10/2026 – Mise-en-scène
Antes de testar o primeiro afeto, o menino que percebe a própria inadequação aos padrões da virilidade já aprendeu a mentir. Em “Hétero Sigilo”, solilóquio concebido, escrito e interpretado por Bernardo Dugin sob a direção de João Fonseca, a dissimulação funciona uma vez que estratégia primária de proteção psíquica.
O ponto de partida factual é sabido: a homofobia explícita de um pároco durante uma missa em Novidade Friburgo, em 2023, dirigida contra o ator e seu companheiro. No palco, porém, o incidente eclesial atua uma vez que pavio para investigar a puerícia em colégios confessionais, quando fechar a porta do quarto significava inaugurar um silêncio defensivo diante do mundo.
O projeto testou primeiro sua força nas redes sociais, onde o humor desmontou os códigos de homens que buscam parceiros “fora do meio” em aplicativos de encontros. No tablado, essa sátira ganha corpo e densidade autoficcional. Logo nos primeiros minutos, Dugin surge de peito nu, usando uma máscara fetichista e encenando para uma câmera a brutalidade de uma masculinidade agressiva.
A cena resume a dinâmica medial do espetáculo: a heteronormatividade coloniza o próprio libido dissidente. Ao venerar a passabilidade e o sujeito recatado, o varão gay passa a policiar a si mesmo e a reproduzir a exigência de virilidade que o oprime. O público ri porque reconhece o vocabulário das telas, e esse riso gera cumplicidade imediata na sala.
A direção de João Fonseca aposta na conversa direta com a plateia, apoiada pela iluminação precisa de Daniela Sanchez e pela partitura ao violoncelo de Federico Puppi. O cenário criado por Nello Marrese, indicado ao Prêmio Shell, sintetiza a tese da peça com economia de elementos.
Enquanto o ator desloca exclusivamente poltronas e mesas para sugerir consultórios, templos e quartos, uma grande estátua plástica permanece suspensa sobre a sua cabeça durante toda a récita. A forma, que evoca tanto um espermatozóide quanto o pictograma astronômico masculino, não sai de cena mesmo quando o personagem relata momentos de afeto e libertação. A vigilância patriarcal segue pairando no horizonte, indiferente à saída individual do armário.
Essa franqueza narrativa abre espaço para fissuras que enriquecem o debate crítico. O texto expõe que o protagonista, para sustentar a máscara heterossexual na juventude, reproduziu misoginia, traiu a crédito do melhor colega e participou de humilhações públicas contra outros colegas. No curso da montagem, no entanto, esse dispêndio imposto a terceiros fica em segundo projecto, absorvido pelo roda de tratamento e superação do narrador. Há também um ponto cego no desabafo do personagem quando lamenta a obrigação manente de lutar, dizendo que gostaria exclusivamente de se sentar em um bar sem precisar militar.
A aspiração ao sota afetivo é legítima, mas explicita um recorte de classe, raça e gênero: homens cisgêneros e brancos conseguem se camuflar na paisagem urbana e escolher quando entrar na disputa pública, enquanto corpos travestis e dissidentes racializados enfrentam a violência uma vez que oferecido quotidiano de sobrevivência física.
Com temporadas de sessões esgotadas ao longo de 2026, “Hétero Sigilo” comprova o alcance de um trabalho que soube transformar um ataque pessoal em discussão coletiva sobre as feridas da masculinidade. Ao caminhar da asfixia da máscara fetichista até o corpo desmontado diante da plateia, o solilóquio não apaga as contradições do caminho, mas cumpre o papel de dar nome ao temor reunido.
Três perguntas para…
… Bernardo Dugin
Em que momento ficou evidente que a agressão na capela precisava virar dramaturgia, e uma vez que foi o processo de evitar que o espetáculo caísse na emboscada do revanchismo ou do vitimismo?
A agressão não foi a origem do espetáculo, mas o dispositivo para inaugurar a ortografar sobre as minhas lembranças. Ao mexer nessa chuva turva, vieram memórias e sensações que eu nem sabia que permaneciam tão presentes. A partir daí, a escrita virou uma investigação: foram três anos de pesquisa, entrevistas e escuta de outras pessoas LGBTs. A “Caixa do Sigilo” também revelou mecanismos de silenciamento e adaptação à norma social.
Dessa junção entre memória, pesquisa e imaginação nasceu a autoficção teatral, que segmento da experiência pessoal sem a intenção de ser uma biografia literal. Testamos isso em ensaios abertos com grupos heterossexuais e LGBTQIA+ para julgar os pontos de identificação e prometer que o personagem não fosse percebido uma vez que uma figura vitimizada.
Para não tombar no vitimismo, trabalhamos para que ele não fosse definido só pela violência sofrida, mas por suas contradições, escolhas e pelas estratégias que desenvolvemos para sobreviver, pertencer, ser amados e não sermos descobertos. E o caminho para evitar o revanchismo foi não transformar a peça em um tribunal ou em uma caça a culpados, mas compreender uma vez que essas estruturas produzem sofrimento e atravessam nossas relações.
Olhando para a puerícia e para o envolvente confessional que você revisita em cena, qual foi o dispêndio emocional de consentir publicamente essa gênese da dissimulação?
O dispêndio começou antes de vir a público: começou quando me permiti olhar para essa história e perceber que lembrar é reencontrar sensações e rever significados no corpo. Na puerícia, vamos aprendendo quais comportamentos colocam em risco o nosso pertencimento, e a dissimulação vira uma estratégia de proteção. O problema é quando ela passa a organizar a nossa relação com o mundo.
Revisitar o envolvente confessional exige desvelo, pois não se trata de sentenciar a fé —sigo crendo no mistério—, mas de investigar discursos e relações de poder que fazem alguém crer que precisa se esconder para ser aceito.
Estar em cena dando corpo a isso envolve vulnerabilidade, mas a autoficção me distancia de uma confissão literal ou de uma exposição definitiva da intimidade. Ela me permite transformar a memória em linguagem e olhar para a própria história sem precisar continuar sendo exclusivamente a pessoa que a viveu.
Porquê foi lastrar, na escrita e na atuação, a narrativa da sua própria libertação com o peso real do dano que essa camuflagem causou a terceiros?
Essa foi uma das questões mais difíceis de sustentar, porque traz o luto pelo que não pôde ocorrer: o tempo gasto escondendo partes de nós e as relações que poderiam ter sido diferentes. A camuflagem não afeta só quem se esconde; ela acontece dentro de relações e gera silêncios e expectativas frustradas. Porém, não dá para indagar essas consequências sem olhar para o contexto em que ela se tornou uma quesito de sobrevivência.
Na dramaturgia, não quis resolver essa incoerência nem remitir o personagem. Há uma diferença entre julgar o pretérito com a consciência de hoje e exigir que tivéssemos, lá detrás, os recursos que só conquistamos depois. Nossas escolhas têm consequências, mas são feitas dentro de condições muito concretas.
“Hétero Sigilo” não é sobre alguém que simplesmente se libertou e deixou tudo para trás. É sobre o que acontece quando se passa tanto tempo tentando ser o que esperam de você a ponto de perder o contato com quem você poderia ter sido. A pergunta mais dolorosa não é só o que a camuflagem causou, mas quanto de uma vida precisou ser negociada para que ela fosse provável.
Teatro Itália – Avenida Ipiranga, 344, República. Terça e quarta, 20h. Até 28/10. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br





