Em tempos de Olimpíadas de Inverno, o hóquei e outros esportes típicos da estação ganham atenção mesmo num país sem neve. Mas, antes mesmo da competição, essas práticas esportivas raras no Brasil já ganhavam atenção através dos livros.
O subgênero de romances focado em atletas de hóquei é grande principalmente no Canadá e nos Estados Unidos, onde o esporte é mais popular, mas voltou a ser comentado em todo o mundo depois do lançamento de “Rivalidade Ardente” –livro canadense adequado para a série de mesmo nome.
Na história, dois atletas vivem um romance com tons de proibido por conta de seu antagonismo nos rinques e por se tratar de um relacionamento entre homens, ainda vasqueiro no universo do hóquei. Antes mesmo de ser publicado no Brasil, a Orbe Livros já quintuplicou a tiragem do livro.
“A autora do livro, Rachel Reid, foi muito feliz na construção desse relacionamento de rivalidade e libido que ao longo dos anos vai se encaminhando para um paixão proibido, mas que quer muito ser vivido”, afirma Paula Drummond, editora da Alt, selo da Orbe Livros. “São personagens divertidos e é muito fácil torcer por eles.”
Mas “Rivalidade Ardente” não é precursora do subgênero de romances de hóquei no Brasil. Esse título pode ser atribuído à escritora canadense Elle Kennedy. Há 10 anos,o selo Paralela, da Companhia das Letras, começava a publicar sua série “Amores Improváveis”, sobre um grupo de amigos que jogam no time de hóquei da faculdade.
Desde logo, a autora já publicou “Briar U” e “Campus Diaries”, séries spin off dentro do mesmo universo, e a duologia “Ele e Nós”. Juntos, eles somam mais de 600 milénio exemplares vendidos. Mas, “Amores Improváveis” segue sendo seu maior sucesso, prestes a se tornar uma série da Prime Vídeo e a ser relançada em edição peculiar pela Paralela.
“Elle Kennedy é uma das autoras que mais vendem na Paralela. Acreditamos que isso não se deve exclusivamente ao veste de ela ortografar sobre hóquei, mas sim à capacidade que ela tem de se conectar com o seu público através de suas histórias”, conta a editora Renata Moritz.
Kennedy é inspiração para Babi A. Sette, autora de “Sapatilhas de Gelo”, publicado pelo selo Verus, da Record. Ela é uma das únicas brasileiras com um livro do gênero publicado tradicionalmente. “É muito prazeroso porquê a escrita de um romance nos permite submergir e saber um novo universo. Eu me preocupei em ser leal e o mais realista verosímil na representação do hóquei”, afirma a escritora.
Porquê explica a editora da Orbe Livros, onde também é publicada a série “Off the Ice”, da canadense Bal Khabra, “romances esportivos são populares porque têm um fio narrativo simples (porquê o êxtase de final do campeonato) e muitas possibilidades de exploração de dinâmicas de rivalidade e escora a sonhos”. Mas esse não é o único atrativo dessas histórias.
Nos romances de hóquei, o arquétipo do mocinho se funde ao do desportista, possante, másculo e convencionalmente encantador. Trata-se de um esporte hostil, em que socos e brigas são permitidos dentro do rinque, e os jogadores exibem corpos moldados pelo supino rendimento. Ainda assim, para além da valorização do físico, esses personagens também encontram espaço para a vulnerabilidade e a sentença de sentimentos (ainda que esses sentimentos sejam imaginados por autoras mulheres).
Com exceção da escritora americana Lynn Painter, que situa seu recém-lançado “Patinando no Paixão” no Ensino Médio, esses romances focam nas relações sexuais entre seus protagonistas. Trechos eróticos compõem boa secção dos livros.
O sucesso dessas narrativas também é impulsionado pelas redes sociais internet, porquê explica Marina Ginefra, editora de aquisições da Intrínseca, que publica Lynn Painter, por meio do compartilhamento de vídeos de atletas reais e da associação deles com personagens dos livros, prática chamada de “face claim” (reivindicação de rosto, em tradução literal do inglês).
Mas, em 2023, o sucesso para além das páginas se mostrou problemático. O que começou porquê animação de leitoras se tornou perseguição e assédio a atletas reais. Um dos casos de maior repercussão foi o de Alex Wennberg, jogador do time americano Seattle Kraken, que virou fenômeno no TikTok ao ser associado a personagens de romances e a piadas de texto sexual envolvendo o esporte (porquê a associação de “puck”, nome do disco de hóquei, ao termo em inglês para transar).
Se no início o desportista e outros jogadores chegaram a interagir com as fãs, a situação escalou quando a esposa de Wennberg denunciou sua objetificação, tornando-se também objectivo de ataques. Ao se posicionar contra a sexualização, o jogador dividiu opiniões nas redes. O incidente expôs porquê a lógica do “face claim” pode ultrapassar o território da ficção.
