Houve e há negligência na Mário de Andrade, diz ex diretor

Houve e há negligência na Mário de Andrade, diz ex-diretor – 15/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Houve negligência e há negligência na Livraria Mário de Andrade. Quem diz isso é Luiz Armando Bagolin, que foi diretor do equipamento cultural durante a gestão de Fernando Haddad (PT). “Não é que houve nesse caso, há uma negligência com o nosso patrimônio público”, diz, enfatizando o verbo possuir.

O secretário de Cultura da cidade de São Paulo, Totó Parente, nega que tenha havido falhas na gestão Mário de Andrade, em seguida oito obras de Henri Matisse e cinco de Candido Portinari terem sido roubadas no lugar, numa manhã de domingo, há dois meses.

As obras roubadas faziam segmento da exposição “Do Livro ao Museu: MAM São Paulo e a Livraria Mário de Andrade”, parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, instituição privada, que também expõs segmento de seu montão. Segundo a prefeitura, as obras roubadas eram todas da Livraria Mário de Andrade.

O ex-diretor afirma que se surpreendeu ao não ver uma presença ostensiva da Guarda Social Metropolitana na porta da livraria durante a preâmbulo de uma exposição “com obras tão valiosas” e na presença de autoridades.

“Estive na preâmbulo [da exposição] e fiquei muito impressionado na ocasião pela falta de segurança”, afirma Bagolin. “Pelo que eu me lembro, não havia nenhuma viatura da Guarda Municipal estacionada do lado de fora da livraria, nem na ingresso da São Luís, nem na ingresso da Consolação”.

Questionada, a prefeitura não responde se houve reforço de policiamento nas portas do prédio, oferecido o valor das obras expostas. Em nota, a prefeitura diz que “a Guarda Social Metropolitana realiza patrulhamento quotidiano para proteção do prédio da Livraria Mário de Andrade”. Segundo a pasta, são feitas rondas ao longo de todo o dia e há a presença “ostensiva e temporária de viatura e agentes em diferentes períodos nas imediações do equipamento”. Aliás, a BMA conta com vigilância patrimonial privada, responsável pela segurança interna do espaço.

“Porquê são obras só da livraria que levaram, —não levaram zero do MAM— a coisa fica mais diluída. Se tivessem levado obras do MAM, que é uma coleção privada, um museu privado que tem patronos muito ricos na cidade, eu acho que a coisa mudaria de figura. É realmente um contra-senso o que aconteceu.”

Para se tutelar de críticas, Parente lembra do roubo no Louvre, em Paris, semanas antes. “Duvido que o Museu do Louvre não tenha muito mais precauções”, afirmou o secretário, à Folha. “Eu já fui várias vezes, tem policiais armados com fuzis por razão de terrorismo, e, ainda assim, roubaram as peças.”

Para Bagolin, porém, não tem o menor cabimento confrontar a Mário de Andrade com o Louvre. “Eu acho que é a síndrome de vira-lata ao contrário”, diz.

“Eu acho que eles deram bobeira”, diz Bagolin. “O que mais espanta, nesse caso, conforme ele está sendo noticiado e as próprias imagens das câmeras nos mostram, é que os criminosos saíram tranquilamente carregando uma sacola enxurro de obras pela porta da frente.”

Para a advogada e perita em obras de arte Anauene Dias Soares, o indumento de alguma coisa ter sido roubado no Louvre não naturaliza o roubo cá no Brasil.

“Lá vira escândalo, investigação internacional, revisão de protocolos.” Na sua visão, o roubo no Louvre é visto porquê “exceção trágica”, quanto o roubo no núcleo de São Paulo tende a ser tratado porquê “normal, segmento do ‘risco urbano’”.

“Isso naturaliza a vulnerabilidade do patrimônio latino-americano, porquê se fosse razoável que ele esteja sempre mais exposto, menos protegido, menos lamentado.”

O secretário Totó Parente afirma que foram tomadas todas as providências possíveis, mas mesmo assim o roubo aconteceu. “Temos porquê política não botar guarda armado em equipamento cultural. Imagina se estivesse ali garoto. Entram dois ladrões e tem guarda armada. A tragédia poderia ter sucedido”, diz.

Embora não admita erros, diz que há espaço para melhorias. “Nós estamos renovando todo o sistema de câmeras, vamos interligar todas as câmeras internas de lá, do Meio Cultural São Paulo, do Theatro Municipal e do Meio Cultural da Juventude”, diz. “Vamos por câmera de reconhecimento facial e vincular ao Smart Sampa [o programa de videomonitoramento], com uma mediano de monitoramento de cada um dos equipamentos.”

A perito Anauene Dias Soares, concorda com a tese de que foi um roubo encomendado. “Há elementos que realmente apontam nessa direção: escolha muito específica das obras; ação rápida e objetiva, sem vandalismo ou desordem gratuita; ingresso com arma e saída direta, sem improviso aparente”.

Segundo ela, são obras que não têm mercado lícito, “o que costuma indicar encomenda para coleção privada, troca ilícita ou uso porquê garantia criminal”. Demonstram que os envolvidos tinham conhecimento da rotina do lugar, noção clara do nível de vigilância.

“É generalidade que ladrões cheguem em horários incomuns”, afirma Charles Cosac, outro ex-diretor.

“Não creio que a Livraria deva ser responsabilizada pelo ocorrido, ao contrário, é hora de sermos solidários e ajudá-la. Isso poderia ter ocorrido em qualquer lugar, porquê houve no Louvre, em 2025, também na segmento da manhã”, diz Cosac.

“A teoria de livraria —e principalmente em equipamentos porquê a Mário— é justamente mostrar o que ela tem de melhor para a população”, diz José Castilho Marques Neto, diretor da Mário de Andrade durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Simplesmente não se aplica o raciocínio de que “acontece em todos os lugares”.

“O que é indumento, e isso fica evidente nesse incidente, é que temos muito ainda a investir, a planejar e a cuidar com tecnologia e segurança dos nossos patrimônios culturais”, diz.

Castilho labareda atenção para outros acervos. “Esse foi um roubo com tons de ‘espetáculo’, mas o que expor das milhares de bibliotecas, equipamentos culturais que não têm manutenção adequada e têm seu montão deteriorado no dia a dia por umidade, insolação, insetos peçonhentos, roubos diários?”

“O descaso da sociedade brasileira com sua memória cultural é imenso e só aparece indignação quando a perda é midiática. Aliás, isso diz muito da situação da cultura e da instrução no nosso país.”

Folha

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