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Iara Rennó faz show em São Paulo 27/10/2026
Celebridades Cultura

Iara Rennó faz show em São Paulo – 27/10/2026 – Música em Letras

Dez anos depois de lançar “Roda” e “Flecha”, Iara Rennó reencontra nos dois discos questões que seguem presentes em sua música: corpo, libido, liberdade e matrizes afro-brasileiras. Para a cantora e compositora, os trabalhos têm energias distintas, mas complementares, e uma sonoridade que continua a dialogar com o presente.

A artista retoma os álbuns de 2016 nesta sexta-feira (30), às 20h30, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. O show terá participação de Curumin, parceiro de Rennó há 18 anos e coprodutor de “Flecha”.

A apresentação será dividida em dois blocos. Em “Roda”, Iara canta e toca guitarra ao lado de Laura Santos, no clarone, e Bianca Predieri, a Bibeats, na bateria. “Flecha” amplia a formação, com plebeu, guitarra, sopros e percussão, reunindo antigos e novos parceiros.

A retomada do repertório também abre uma discussão sobre as condições de geração e circulação da música. Na entrevista à pilastra Música em Letras, Rennó fala do espaço conquistado pelas mulheres e contesta a teoria de que as plataformas facilitaram a vida de artistas independentes. “São muitos obstáculos”, disse a cantora.

A pesquisa afro-brasileira que atravessa sua obra aparece de forma mais concentrada em “Oríkì”, álbum indicado ao Grammy Latino em 2022, na categoria de melhor álbum de música de raízes em língua portuguesa. O projeto, lembra a artista, começou em 2009, antes de “Roda” e “Flecha”. Rennó também recorda os aprendizados com a mãe, Alzira E, e com Itamar Assumpção, além dos encontros com Elza Soares.

Leia, a seguir, a entrevista exclusiva que a artista concedeu à pilastra Música em Letras.

Folha – Dez anos depois, o que mudou na sua percepção sobre a relação entre “Roda” e “Flecha”? Você ainda os considera trabalhos opostos ou complementares?

Iara Rennó – Eles têm energias muito diferentes, não exatamente opostas, mas complementares. Na sonoridade, isso é muito evidente. Em “Roda”, eu toco guitarra, há uma verve rock e a formação é um “power trio” feminino. Já em “Flecha”, me sinto mais “cantorazona de MPB”, “crooner”, e o comitiva é uma bandona, com sopros e percussão. Em ambos os casos, sou a principal compositora, mas a temática e a abordagem de cada um também diferem bastante.

O mais interessante que tenho observado na retomada desses trabalhos é o quanto eles são atuais: o som é contemporâneo, dialoga com tendências do pop e também do lado B. Surpreendeu-me ver uma vez que o público estima esses álbuns, se recorda dos shows e do lançamento no Auditório Ibirapuera, com o show duplo. Esse retorno é muito gratificante.

Folha – Porquê decidiu quais canções pertenceriam a cada disco? Houve alguma que poderia ter entrado em qualquer um dos dois?

Iara Rennó – O gravura de cada disco foi muito orgânico. As faixas de “Roda” eram as que eu já tinha formado e tocava na guitarra, além daquelas que tinham um eu lírico mais íntimo, abordando questões existenciais, o feminino e a sexualidade. Eram também as mais estranhas, tortas, fora da curva. Essas estranhezas seriam exploradas sonoramente pelo “power trio” que idealizei na era: bateria, guitarra e o clarone envenenado, com pedais de efeito, no lugar do plebeu.

Já as músicas de “Flecha” são aquelas que, desde que nasceram, parecem pertencer ao cancioneiro brasílico. O interessante é que, se naquela era soavam mais uma vez que lugar-comum, enquanto “Roda” soava mais ousado, hoje “Flecha” encontra um lugar que está sendo retomado pelo pop brasílico, de Marina Sena e Liniker, por exemplo, em direção à cantiga. Foi o que observou Ava Rocha [ filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán], minha comadre, artista e pensadora que acompanhou essa história toda de pertinho.

Folha – “Roda” volta ao palco com um novo trio. O que você procura preservar dos arranjos originais e o que deixa cândido às contribuições das novas parceiras?

Iara Rennó – Primeiro, vamos falar um pouco das instrumentistas originais. Na bateria, Mariá Portugal era a mais novinha da orquestra DonaZica. Depois, acompanhou grandes artistas, uma vez que Zélia Duncan, mas sempre teve sua pesquisa própria. Mora na Alemanha há oito anos e já lançou dois trabalhos solo. Conheci Maria Beraldo, do clarone, na orquestra do Arrigo. Ela é uma instrumentista virtuose. Chamei as duas para formar esse trio. Qualquer tempo depois da nossa experiência, Maria também se lançou na curso artística.

Porquê elas estavam indisponíveis para o reencontro, tive que quebrar a cabeça. Chamei a multiartista Rubi Assumpção para a bateria e Laura Santos para o clarone, de novo duas artistas com trabalhos autorais. As duas têm menos da metade da minha idade, e dá para ver uma vez que curtem aprender esse repertório. Tem sido instigante para nós três, mas, para elas, é um duelo, pois esses arranjos apontam para um caminho bastante diverso de suas pesquisas até portanto.

Para oriente show no Sesc Belenzinho, porém, por uma incompatibilidade de agenda, quem vai tocar bateria é Bibeats [Bianca Predieri], uma instrumentista que vem despontando na cena paulista e toca com Jadsa, Ana Cañas e Assucena, entre outras.

Folha – A apresentação de “Flecha” reúne antigos e novos parceiros. Porquê esse encontro transforma o repertório? Há alguma cantiga que tenha ganhado outro sentido nos ensaios?

Iara Rennó – Curumin, Lucas Martins, Cuca Ferreira e Daniel Verano, na bateria, no plebeu, no saxofone barítono e no trompete, respectivamente, fazem segmento da formação original. Badé também é da formação original, mas não tinha a data disponível e, por isso, será substituído por Victória dos Santos, percussionista, cantora e compositora que também integra outros projetos meus.

Na guitarra, no lugar de Gustavo Cabelo, entrou Marcelo Dworecki, que já tinha feito algumas substituições na era do lançamento. Porquê a orquestra permanece quase a mesma, podemos proferir o mesmo da núcleo, talvez com o acréscimo do molho que a maturidade nos deu.

Folha – Curumin dividiu com você a produção de “Flecha” e participa do show. Porquê vocês tomaram as decisões de produção do disco e o que essa parceria traz agora para o palco?

Iara Rennó – Curumin é um gênio: toca tudo, compõe, canta e, uma vez que baterista, tem um suingue único. Trabalhamos juntos há 18 anos. Olha aí a maioridade dessa parceria! Começou quando o chamei para tocar no show de “Macunaíma”. De lá para cá, esse encontro gerou diversos frutos, do álbum “Oríkì”, em que ele gravou a maioria das baterias, às três músicas no álbum mais recente dele: “Estado de Choque”, “Cigana Cigarra” e “Oh Mãe”.

Em “Flecha”, antes de tudo, ele me ajudou na seleção das músicas —havia outras que ficaram de fora. Depois, escolhi o time, o que já deu a direção da sonoridade. No estúdio, ele foi fundamental para selecionar as melhores gravações de instrumentos e vozes, escolher timbres, tocar, aditar “samplers” e texturas.

Paladar muito de trabalhar em dupla na produção, porque tenho com quem percutir a globo. Uma segunda opinião, um concordar ou discordar fazem toda a diferença no resultado final. Tem dia em que o ouvido está mais cansado, e o outro responde melhor, e por aí vai.

O que trazemos para o palco agora é a prova dessa cumplicidade, dessa parceria madura e da sonoridade original do álbum que estamos celebrando. Sem ele na bateria e na voz, seria totalmente dissemelhante. É um grande privilégio para mim e, creio, para todos que estiverem presentes.

Folha – As canções de “Roda” abordam corpo, libido e liberdade. Há versos que você interpreta de outra maneira hoje, depois das experiências vividas nesses 10 anos?

Iara Rennó – Acho que tudo continua bastante atual. Em “Roda”, a maioria das músicas resulta de poemas eróticos meus, publicados no livro “Língua Brasa Mesocarpo Flor”, que lancei em 2015, numa pequena edição já esgotada. É o caso de “Seio-me”, “No Silêncio” e “Meus Vãos”.

Temos também um poema de Alice Ruiz que deu origem à música “Vulva Viva”. Já “Corpo Selvagem”, apesar do título, não tem uma abordagem erótica, e sim mais antropológica, existencialista. Surgiu a partir de trechos de um texto do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. “Sonâmbula” é só uma provocação bem-humorada.

Folha – Desde a gravação de “Roda”, o que mudou nas condições de trabalho e no reconhecimento das mulheres uma vez que instrumentistas e produtoras? Que barreiras você ainda identifica?

Iara Rennó – Vou até mais para trás, quando comecei na música autoral com a orquestra DonaZica, que tinha cinco mulheres, enquanto o número de homens variava de três a cinco. Era uma orquestra com potente presença feminina, sobretudo de compositoras e líderes de orquestra. Naquela era, no início dos anos 2000, isso era muito mais vasqueiro. De lá para cá, viemos conquistando cada vez mais espaço. Acho que, nos últimos 10 anos, houve uma grande expansão.

Essa é uma conquista que celebro muito, pois tenho plena consciência de quanto minha trajetória contribuiu para fabricar referências para essas novas gerações de compositoras, instrumentistas e produtoras musicais. O que mudou foi que as mulheres não se intimidam nem se apequenam mais tão facilmente diante dos homens nesse meio. Com certeza, nossa voz está mais potente.

O patriarcado, porém, é teimoso e ainda se manifesta em atitudes e falas dos homens, num ciclo vicioso. Mas a gente vai ficando mais potente, colocando limites, apontando quando eles estão errando. Sem incerteza, as mais jovens já estão muito mais muito preparadas!

Folha – De “Flecha” a “Oríkì”, uma vez que mudou sua maneira de pesquisar e trabalhar com as matrizes afro-brasileiras? Pode explicar essa transformação a partir de uma cantiga?

Iara Rennó – Essa pergunta é muito interessante, até porque o projeto “Oríkì” foi criado, na verdade, em 2009, sete anos antes de “Flecha”. Antes de viver “Querer Trovar”, essa fita de sucesso para Oxóssi, já existia, por exemplo, “Uma Flecha”, composta com trechos da tradução de uma trova iorubá milenar. “Querer Trovar” nasceu de um poema de Gustavo Galo que musiquei.

Logo, não é exatamente uma transformação, mas uma ininterrupção. O tema sempre esteve presente ao longo da minha obra: em “Flecha”, mais diluído; em “Oríkì” e “Orí Okàn”, mais concentrado.

Folha – Você começou a trovar com Alzira E e integrou a orquestra de Itamar Assumpção. O que aprendeu nesses encontros que permanece na sua maneira de imaginar, interpretar e encaminhar uma orquestra?

Iara Rennó – Muita coisa! Esses são provavelmente os meus principais professores musicais. Com Alzira, não aprendi unicamente a trovar, mas, principalmente, a tocar. Desde que nasci, vejo minha mãe tocando violão de maneira totalmente única e autodidata. Também aprendi a imaginar, pois ela é uma das compositoras brasileiras vivas mais prolíficas.

Com Itamar, posso primar a valia da performance no palco —tanto ele quanto eu temos uma potente relação com o teatro— e da procura por uma linguagem nos arranjos e na sonoridade. Essa talvez seja a maior prelecção que aprendi com ele. Itamar dizia que as possibilidades de geração harmônica já tinham sido esgotadas por Tom Jobim e Chico Buarque e que era preciso encontrar outros caminhos a explorar, criando arranjos com contrapontos rítmicos e melódicos, numa procura por uma linguagem estética mais radical dentro da música brasileira.

Folha – Que presente você guarda do encontro com Elza Soares nas apresentações desse repertório? Um tanto daquela troca mudou sua maneira de trovar essas músicas?

Iara Rennó – Elza Soares salvou minha vida algumas vezes. É no sentido translato, mas é sério, artisticamente falando. Uma delas foi quando interpretou “Mandingueira”, uma formação minha para uma produção do Bid, que ficou bastante conhecida na voz dela. Outra foi num evento no início dos anos 2000, quando, posteriormente uma apresentação minha frustrada, ela me acenou e subi ao palco para improvisar com ela.

Minha pasmo por Elza é imensa, a ponto de ter formado duas músicas para ela, em sua homenagem. Elza acabou não gravando as canções, que entraram em “Roda” e “Flecha”: “Invento” e “O Que Me Arde”. Esta última tem letra da minha mãe, Alzira E, e foi composta por nós depois de vermos Elza trovar num show em Salvador.

Para mim, Elza é a maior referência entre as cantoras negras brasileiras. Ligada ao candomblé, é certamente uma das maiores cantoras do mundo. Tive a grande honra de recebê-la num show de “Roda” e “Flecha” no Sesc Pompeia, em 2017. Já idosa, ela estava em uma cadeira de rodas e se apresentou com toda a sua força, depois do lançamento de “A Mulher do Término do Mundo”. Foi um grande presente para mim e para todos que puderam compartilhar aquela noite.

Folha – O que labareda sua atenção ao rever os bastidores de “Flecha” registrados no documentário “Afiando a Flecha”, de Renato Roble? Há um tanto no filme que os ouvintes dificilmente perceberiam unicamente escutando o disco?

Iara Rennó – É muito lítico testemunhar a esse tipo de registro porque acho que revela camadas que não são percebidas ouvindo o álbum. Mostra minha atuação uma vez que produtora músico, ativa e presente no estúdio, e a simetria que tivemos nesse trabalho. Havia pessoas presentes, com vontade, trocando ideias. Não era um simples processo burocrático. Revela curiosidades que não vou narrar cá para não estragar a surpresa!

Folha – O que mudou desde 2016 para uma artista independente financiar um trabalho e fazê-lo chegar ao público? Porquê as plataformas digitais interferem na circulação de um repertório uma vez que o seu?

Iara Rennó – O mercado mudou muito. Naquela era, lançamos CDs. Hoje em dia, perdemos o físico: o trabalho vai direto para as plataformas, para a nuvem. A produção de “Roda” e “Flecha” foi verosímil graças à associação de dois selos, a YB Music e o Selo Circus, a um financiamento coletivo e à disponibilidade de cada um que participou, que entrou uma vez que parceiro mesmo.

Embora muitos digam que ficou cada vez mais fácil lançar um disco, discordo. Você pode gravar um disco todo em mansão e simplesmente colocá-lo na plataforma. Mas são milhares de músicas lançadas por dia no mundo todo, nessas redes. Estamos lutando contra a dança dos algoritmos —que, uma vez que fica cada vez mais evidente, não respondem unicamente a estímulos orgânicos e são muito manipuláveis— para conseguir obter as pessoas.

Esse novo mundo virtual em que vivemos, num primeiro momento, aproxima, faz tudo parecer mais ao nosso alcance, mas pode ser uma grande bolha de ilusão. Acho que está cada vez mais difícil para quem trabalha com arte de maneira mais orgânica fazer o trabalho chegar às pessoas. São muitos obstáculos.

A gente precisa encontrar maneiras mais eficazes de chegar ao nosso público e estruturar melhor essa rede orgânica. Precisamos, urgentemente, fabricar nossas próprias redes, redes brasileiras, para não ter que permanecer pagando em dólar para todas essas multinacionais que comem nosso moeda e nossos direitos.

No termo, é isso: antigamente, existiam as gravadoras, que selecionavam alguns em detrimento de outros. Hoje, os serviços de música, as distribuidoras e as agregadoras, por vezes, fazem o mesmo papel. É quase um ciclo vicioso difícil de quebrar, porque o capitalismo coopta e corrompe tudo. Se nos recusamos a fazer segmento disso, vamos sendo cada vez mais sucateados. Sinuca totalidade! Sempre guerrilha!

Folha – Essa volta a “Roda” e “Flecha” trouxe ideias para novos trabalhos? Que caminhos você pretende explorar depois dessa revisão?

Iara Rennó – Tenho novos trabalhos em processo. Eles avançam lentamente, pois está muito difícil conseguir verba para produzir e lançar álbuns no mercado hoje em dia. Estou sempre compondo e escrevendo projetos, não só de música, mas também de performance, teatro e instalações.

Para ser sincera, essa volta de “Roda” e “Flecha” trouxe também uma vontade de revisitar outros álbuns, uma vez que “Iara” e “Macunaíma Ópera Tupi”. Acho que tudo cabe no menu de projetos dos próximos anos, para explorar diferentes temáticas, públicos e contextos. É muito geral artistas muito criativos circularem com mais de um projeto ao mesmo tempo.

Folha – O que as pessoas devem esperar deste show?

Iara Rennó – As pessoas podem esperar um espetáculo refinado que revisita não só os repertórios dos discos, mas também as memórias afetivas de um pretérito recente. Cada pormenor artístico foi pensado e desenhado em parceria com uma equipe técnica e criativa incrível, que inclui as artistas Gabriela Luiza e Cyntia e os engenheiros de som Volpi e Martché. Porque, sim, a gente entrega tudo! Venham facultar com a gente, que vai ser uma noite única!

Iara Rennó — Roda e Flecha 10 Anos

Quando: sexta-feira, 30 de outubro de 2026, às 20h30.

Onde: teatro do Sesc Belenzinho, rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho, São Paulo.

Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 18 (Credencial Sesc).

Classificação: 12 anos.

Duração: 90 minutos.

Informações e ingressos: sescsp.org.br e bilheterias das unidades.

Folha

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