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Instalação no Sesc Pompeia denuncia marcas do tráfico de escravizados
Brasil

Instalação no Sesc Pompeia denuncia marcas do tráfico de escravizados

As marcas do tráfico transatlântico de africanos escravizados, considerado pela Tertúlia Universal da Organização das Nações Unidas uma vez que o transgressão mais grave já praticado contra a humanidade, são denunciadas pela obra O Embarcação, que pode ser visitada a partir desta terça-feira (22) no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Durante muro de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos uma vez que mercadorias em colônias de nações europeias, transgressão que continuou a ser cometido mesmo depois a independência de algumas delas.

O Brasil foi o principal sorte desses escravizados. Por meio de muita violência e dos chamados navios negreiros, mais de 4,8 milhões de escravizados atravessaram o Oceano Atlântico para o trabalho forçado no Brasil.

E é isso que nos lembra a obra da artista portuguesa Grada Kilomba, que lança uma provocação ao público: o que o fundo do oceano nos diria se fosse esvaziado de chuva hoje?

“O Embarcação vem mostrar aquilo que estava no fundo de muitos barcos que aparecem nos monumentos da Europa e da América Latina e que glorificam uma história, que contam a história com glória, uma vez que um descobrimento, uma vez que uma expansão e uma vez que um pouco romântico e glorioso. Uma vez que artista, me interessa muito questionar o que é essa glória e o que esses barcos gloriosos traziam no fundo”, disse a artista, em entrevista à Dependência Brasil.

“Se esvaziássemos a chuva, o oceano e a terreno em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no pretérito, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”.

A obra escultórica e performática criada por Grada Kilomba é composta por 134 blocos de madeira queimada que são dispostos em uma extensão de 220 metros quadrados, com extensão de 32 metros de comprimento.

A peça desenha a silhueta do fundo de uma grande embarcação e, com isso, procura revelar a arquitetura do espaço criado nos porões dos navios negreiros para acomodar os corpos de milhões de pessoas africanas escravizadas.

 


São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Instalação “O Embarcação” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Dependência Brasil

O Embarcação é resultado de uma extensa pesquisa da artista em fitologia, história e travessias transatlânticas. Também tem inspiração na tragédia de Antígona, em que Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, se matam depois uma luta pela disputa do poder em Tebas. Segundo a mitologia grega, Creonte assume o trono e ordena que Etéocles seja enterrado com honras de herói, mas proíbe o sepultamento de Polinices.

“Esta obra [O Barco] também vem em sequência dessa obra Antígona, que questiona quem é que pode ser enterrado e quem não, quem é que pode ser lembrado e tem um lugar para ser lastimado e para ser comemorado e quem não”, explicou a artista. “Não é por casualidade que as histórias são esquecidas e proibidas de serem recordadas, de serem ritualizadas e lembradas porque isso produz memória”.

Para Kilomba, o oceano é um espaço de sepultamento de milhões de vidas perdidas, tanto da escravização e do colonialismo quanto das guerras, mudanças climáticas e migrações forçadas.

“Leste embarcação leva também não só ao pretérito. Múltiplos barcos atualmente continuam a transpor as águas globais para fugir a genocídios, massacres, crises climáticas, migrações forçadas, guerras e conflitos. E os mesmos corpos caem no fundo do mar”.

Poemas

Obra de grandes dimensões, O Embarcação teve que ser adaptada para caber no galpão do Sesc Pompeia.

“É muito interessante inaugurar a trabalhar nessa narrativa de que os barcos atracavam em diferentes portos e não chegavam inteiros, não chegavam com toda a sua população, assim uma vez que os barcos hoje saem de um lugar para um outro e não chegam inteiros. Essa reflexão também é muito importante: segmento desta obra torna-se invisível cá no espaço porque ela é muito maior do que ele”.

Embora não esteja inteira, a obra ainda continua a moderar 18 blocos em seu meio, que estampam um poema gravado em dourado. O poema foi escrito pela própria artista e traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e mouro da Síria. “Uma espírito, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”, dizem alguns desses versos.

 


São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil

 Instalação “O Embarcação” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Dependência Brasil

“Esta obra é o inconsciente da nossa história. Nós temos uma história que entrou no projeto europeu de escravatura durante mais de 400 anos e que foi completamente apagada. Está invisível na nossa veras, não é documentada, nem estudada. E a mim, uma vez que artista, interessa muito trabalhar esse invisível e com esse inconsciente sobre o que está desvanecido no imaginário coletivo”, disse a artista.

Segundo Kilomba, um dos objetivos desse trabalho é “mostrar uma vez que estes barcos e toda a construção da identidade moderna e toda a construção da identidade da Europa foi construída sob uma história de grande violência, na qual a população africana foi a grande protagonista”, sendo transformada em uma mercadoria que acabou construindo “todo esse poderio e riqueza”.

Uma violência que, segundo ela, ainda se mantém presente nos dias atuais. “Quando a história não é contada devidamente, a sua barbárie repete-se”, lembrou a artista.

 


São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 22/09/2026 - Instalação “O Barco” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Instalação “O Embarcação” da artista portuguesa Grada Kilomba, no SESC Pompéia. Fotos: Paulo Pinto/Dependência Brasil

Itinerância

O Embarcação já foi exposto em Lisboa e Londres e desembarcou pela primeira vez no Brasil no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, onde ficou por 28 meses. E agora está na capital paulista, seguindo em itinerância.

“É muito bonito pensar numa itinerância pelo Brasil, que é o que nós estamos a fazer agora, entrando em diferentes espaços arquitetônicos e em diferentes lugares e cidades”, afirmou a artista.

No Sesc Pompeia, a obra estará exposta junto a outros dois trabalhos de Grada Kilomba: a videoinstalação Opera to a Black Venus e a instalação Compressed Time.

Concebida pelo Instituto Inhotim, a exposição é gratuita e permanecerá em edital até o dia 25 de outubro, no Espaço Galpão do Sesc Pompeia.

Fonte EBC

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