Poeta, ensaísta, compositor, dramaturgo, romancista e, com 87 anos, responsável de mais de 30 livros. Aprendeu a redigir em iorubá, nipónico e hindi. Ishmael Reed não é moca pequeno.
Desde que surgiu na cena literária dos EUA, em meados dos anos 1960, se ocupou daquilo que considerava o vista mais cruel da cultura americana: o “tokenismo”, a tendência do establishment de atrair e usar artistas e intelectuais negros para imprimir uma rostro de multiplicidade e legitimidade num ecossistema essencialmente segregado.
Reed argumentava, por exemplo, que o sucesso de alguém porquê James Baldwin se devia ao seu talento literário, mas também ao vestimenta de que ele havia sido cooptado pela curriola literária dos modernistas da Partisan Review: um grupo exclusivista constituído quase sempre por uma escol de intelectuais brancos de Manhattan.
“Mumbo Jumbo”, o romance de Reed de 1972, é em universal assinalado porquê sua obra-prima. Considerado um fracasso mercantil quando lançado, anos depois foi classificado pelo crítico Harold Bloom porquê uma das obras canônicas da literatura dos Estados Unidos. Chegou pela primeira vez ao Brasil somente agora, pela editora Zain, em edição caprichada, com magnífico tradução de João Vitor Schmidt e texto crítico elucidativo de Vinícius Portella.
“Mumbo Jumbo” é um livro que mistura ambientação pulp, cosmogonia africana, teologia, teorias da conspiração e uma escrita anárquica temperada de sapiência e humor. Não à toa é citado em “O Círculo-Íris da Sisudez”, de Thomas Pynchon.
No romance de Reed, acompanhamos as consequências de um negócio chamado Jes Grew, um surto epidêmico que impacta, a princípio, comunidades negras nos EUA. As pessoas que o contraem dançam enlouquecidamente, num estado de transe coletivo que não tem zero a ver com a morte, e sim com uma irrefreável pulsão de vida.
Jes Grew surge na mesma estação do ragtime e do jazz: o tecido de fundo histórico é a dez de 1920, momento em que acompanhamos a reação de forças puritanas que oscilam entre o pânico moral e a fetichização da cultura negra.
Reed sempre foi, e segue sendo, um rabino da controvérsia. Costuma declarar que há mais cópias de Baldwin na literatura americana do que há imitadores de Elvis em Las Vegas. “Agora todo mundo escreve livro para o sobrinho”, debochou uma vez.
Para ele, os beats eram racistas e misóginos. Outro desafeto é David Simon, o fundador de “The Wire”, a famosa série da HBO, que, para o redactor, alimentou estereótipos sobre a população negra de modo análogo ao que as propagandas fascistas faziam com os judeus nos anos 1930 e 1940.
Também é crítico de “Hamilton”, o músico de Lin-Manuel Miranda, sobre o pai fundador dos Estados Unidos. Reed, bem no consenso historiográfico recente, desafia a tradução meão da peça, de que o personagem havia sido um herói libertador. Diz que teve escravos e patrocinou massacres indígenas.
“Você conseguiria imaginar atores judeus nos teatros de Berlim interpretando papéis de Goering? Goebbels? Eichmann? Hitler?”, bradou uma vez, revoltado.
A sensibilidade literária de Reed foi moldada por um caldeirão de autores diversos: Baldwin, sobretudo pela conjunção de talento e representatividade; Dante Alighieri (“Li Dante e me deparei com o enorme poder que tem um redactor. Descobri que um responsável poderia mandar para o inferno pessoas que sequer tinham morrido!”); James Joyce, cuja obra estudou; e Nathanael West, com quem se encantou pelas sátiras não-lineares.
De W.H. Auden, imitou o estilo sucinto e, de George Orwell, a transparência da prosa. Observando W.B. Yeats, adaptou a teoria de “Renascença Celta”, em que o folclore e as tradições regionais eram resgatados pela trova e literatura irlandesa da estação, e criou um equivalente pan-africano, com seu manifesto neo-hudu.
“Mumbo Jumbo” é, se você quiser, um romance “pós-moderno”, “afro-diaspórico” e “multicultural”. Mas, repare, ele é tudo isso antes de esse léxico ter se tornado tendência e um tramite editorial preguiçoso, alguma coisa infértil.
É metafísico porquê o John Coltrane de “A Love Supreme”, e seduzido porquê o Jorge Ben Jor de “A Tábua de Esmeraldas”. Antes dele não havia zero igual e, mais de meio século depois, a paisagem cultural permanece inalterada. Ishmael Reed inaugurou mundos, mas não deixou herdeiros.
