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Jaime Lerner: casa em Curitiba abre para visitas 02/06/2026
Celebridades Cultura

Jaime Lerner: casa em Curitiba abre para visitas – 02/06/2026 – Ilustrada

“Nem brutalista, nem modernista, ela é ‘lernista'”, repete, Ilana Lerner, as palavras do pai, o arquiteto Jaime Lerner, que governou Curitiba por três mandatos, sobre a morada saída da prancheta do urbanista lá nos anos 1960.

Segundo ela, a famosa música de Vinicius de Moraes que tem na letra “era uma morada muito engraçada” não é só uma música infantil, mas a trilha sonora da sua puerícia e juvenilidade vivendo com seu pai, sua mãe, Fani, e sua mana, Andrea, dentro de um cenário que contempla uma enorme lareira na cor berinjela —dando a dica de que estamos em uma cidade fria— e um telhado verdejante, que, para os anos 1960, era alguma coisa muito inusitado e vanguardista. Todas essas memórias habitam o número 76 da rua Bom Jesus, no bairro Cabral, em Curitiba.

À primeira vista, quem passa pela rua não nota que, detrás de um murinho de tijolos e um portão em treliças de madeira emoldurado por vegetais, muitas vegetais, essa morada “lernista”, abrigou encontros de políticos, urbanistas, engenheiros e arquitetos, além de ter sido importante para a construção de uma Curitiba com contornos de cidade grande e projetos que foram para longe das terras paranaenses.

Ao entrar no imóvel, a sensação é a de submergir num triângulo ligado a um quadrilátero, rachado por um trapézio e atravessado por um losango, figuras geométricas desenhadas pelo próprio arquiteto que nos fazem compreender o quanto a arquitetura impacta nossos sentidos e percepções. Um lugar repleto de reminiscências e histórias, que são contadas duas vezes por mês em visitas guiadas, de no supremo 35 interessados e sortudos.

As inscrições para as visitas costumam concluir em menos de dez minutos depois de disponibilizadas pelos canais digitais do Instituto Jaime Lerner, com entradas a R$ 70.

Em seus 150 metros quadrados, a morada abriga dois quartos, cozinha, sala, escritório e um charmoso “puxadinho” construído nos anos 1980. Essas memórias do pretérito se ligam diretamente ao presente por meio de uma livraria —desenhada em forma de um galeria extenso e iluminada por uma claraboia—, que conduz o visitante até o escritório de arquitetura Jaime Lerner, uma estrutura construída com vigas de aço e vidro, também desenhada por ele, de onde podemos ver a morada de forma completa, seus desníveis, sua originalidade e sua soltura em relação ao terreno, dando a sentimento de que a morada flutua, bonito de se ver.

Vale sobresair que, por culpa dos desníveis da morada, a visitação fica comprometida para pessoas com baixa mobilidade, pois a acessibilidade ainda precisa ser pensada para poder vencer os vários degraus que ligam os ambientes de seu interno.

Subindo a escadinha de concreto da ingressão, a atmosfera de preservação é tão poderoso que o visitante tem a nítida sensação de que Jaime Lerner ainda está ali, retraído em seu escritório pessoal, debruçado sobre o projeto urbanístico de alguma cidade asiática, pronto para descer e invitar a todos para um moca ou um pinhão que acabou de ser cozido.

Falando em “assuntos gastronômicos”, a cozinha, inclusive, é uma microgaleria de arte, combinando o teto de concreto bruto com azulejos pintados por Poty Lazzarotto, um dos artistas mais ilustres da história de Curitiba.

De volta à sala, os sentidos são aguçados pelo que não se vê, mas se sente. O cheiro da madeira e do pele dos móveis —assinados por Sergio Rodrigues e pelo próprio Lerner— se mistura ao cheiro de musgo de uma enorme corticeira plantada muito ao lado da residência. A árvore é integrada à decoração interna graças a uma imensa parede de vidro que inunda o espaço de luz procedente e permite a contemplação do jardim.

Por essas formas geométricas, além de políticos e arquitetos , já passaram personalidades da história e da cultura, uma vez que Gilberto Gil, Francis Ford Coppola, Leonel Brizola e o renomado urbanista Allan Jacobs.

Posteriormente duas horas de uma mergulho enxurrada de histórias em que a arquitetura, a vida familiar e a história de Curitiba se misturam, a experiência ainda suplente um “bônus “do lado de fora.

Ao trespassar pelo portão e virar à direita, o visitante pode saber mais um pouco do legado de Lerner: um célebre ponto de ônibus em forma de tubo, criado pelo arquiteto, em 1991, para proteger a população na espera pelo transporte público e agilizar o processo do entra e sai dos passageiros. Descendo mais um pouco pela avenida João Gualberto, novamente à direita, surge o “Casario”, projeto concluído em 1979, que até hoje divide opiniões na cidade.

É um prédio “de casinhas empilhadas”, que, ao contrário da morada de Lerner , é muito chamativo para quem passa pela rua. Essa trilogia lernista, morada, tubo e o “Casario”, cumpre a tarefa de mostrar ao forasteiro ou ao próprio curitibano, uma vez que era o pensamento desse urbanista que transformou uma cidade inteira, e isso não é pouca coisa.

Folha

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