Certa vez, John Malkovich quis ser todo mundo. A invitação de um colega, o fotógrafo Sandro Miller, ele recriou imagens com personalidades porquê o pintor Salvador Dalí, a atriz Marilyn Monroe, o observador Albert Einstein e o revolucionário Che Guevara. Ao emprestar o próprio rosto, o artista americano reuniu gêneros, profissões, países e filosofias diferentes.
Anos antes, num filme, foi invenção uma forma de se ter o seu corpo. A técnica virou voga e todo mundo quis ser John Malkovich. Na estação, o roteirista Charlie Kaufman classificou o ator porquê um meio-termo entre uma notoriedade e um incógnito, mas o sucesso de “Quero Ser John Malkovich” atraiu uma legião de fãs. Zero que tenha mexido com o ego do planeta. Pelo contrário. Até hoje, insiste não ter zero de próprio.
“Sou só um ser humano”, diz ele, que se prepara para apresentar a história de Ramírez Hoffman, noticiarista imaginário, com mania de grandeza, que prega ideais da extrema direita onde quer que vá. Criado pelo responsável chileno Roberto Bolaño, ele é ironizado na peça que, em parceria com a Dellarte e a Tucca, leva Malkovich ao Theatro Municipal do Rio e à Sala São Paulo no final do mês. Instituidor e tradutor já descreveram o personagem porquê parábola de mais de um espectro político.
“Dissemelhante de Hoffman, não sou uma pessoa extrema. Não me considero indiferente, nem calculista, e sequer um intelectual”, afirma ele, que às vezes é julgado por vilões da curso ou comparado a figuras porquê o seu Papa, da segunda temporada de “The New Pope”.
De um veterano de guerra cego, que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar, ao celerado em série que encarnou em “The Infernal Comedy”, primeiro espetáculo que o trouxe ao Brasil, o artista já foi possuído pelas mais variadas personalidades.
Rebento de um ambientalista, Malkovich buscou papéis para se distanciar de uma vida conturbada desde o ensino médio. Níveo da violência do pai, ele se juntou ao grupo Steppenwolf —em que dramaturgos porquê Tracy Letts encenaram suas primeiras tramas—, em 1976 e, seis anos depois, estreou na Broadway ao questionar o sonho americano em “A Morte de um Caixeiro-Viajante”.
Naquela estação ele também participou de seus primeiros filmes, pouco antes de colaborar com cineastas porquê Steven Spielberg —que fez dele um navegador oportunista em “Predomínio do Sol”— e Bernardo Bertolucci. Sob a direção do italiano, reconhecido pela forma porquê explorou o fascismo, o ator deu vida a um poeta, assombrado pela Segunda Guerra, que tenta restaurar seu consórcio ao vagar pelo Saara.
Com o tempo, Malkovich também se habituou a não recusar projetos. Sua trajetória vai de diretores cultuados porquê Manoel de Oliveira, com quem explorou temas porquê a fé e a mortalidade, até sucessos comerciais porquê “Transformers” e “Bird Box”, hit da Netflix sobre um mundo pós-apocalíptico. Seja porquê for, defende ele, são tipos de produções que exigem o mesmo esforço.
“Artistas têm uma visão de mundo, baseada em uma série de fatores. Tudo depende de onde nasceram, com quem cresceram e o que escolheram aprender. Penso que a arte pode fazer o que muito entender”, diz, ao comentar as relações entre arte e política que pautaram o último Festival de Berlim. No evento, muitos foram criticados pela recusa em se posicionar sobre assuntos porquê os conflitos no Oriente Médio.
Apesar de avesso a políticos —o artista não vota desde as eleições de 1972, quando o democrata George McGovern foi derrotado pelo republicano Richard Nixon—, ele responde com toda a calma do mundo. Entre longas pausas, junto a um vitral típico de igreja, o ator tenta escolher cada termo com sabedoria. Ao final, afirma preferir a arte porquê meio de frase.
“[O escritor William] Faulkner dizia muito muito —’a voz do poeta não precisa ser exclusivamente um registro do varão, mas um dos pilares que o ajudarão a perseverar’.”
A postura lembra a que o cineasta Paul Thomas Anderson adotou em sua recente campanha ao Oscar. Vencedor do prêmio sumo por “Uma Guerra Depois a Outra” —longa que questiona políticas imigratórias dos Estados Unidos de hoje—, ele evitou o tema em entrevistas, tática utilizada pela própria cerimônia.
Embora não cite crises específicas, Malkovich parece um pouco mais à vontade em debater assuntos de que, em tese, procura se distanciar. “A natureza humana não mudou e a morte sempre esteve às claras em nossa história. Nenhum jovem deveria ter que pensar sobre a morte. Eles não são obrigados a entendê-la.”
Não por casualidade, o autoritarismo, principalmente em países da América do Sul, é um tema que o atrai há qualquer tempo. Em 2002, por exemplo, ele dirigiu “Guerrilha Sem Face”, suspense sobre um policial peruviano que, em meio à instabilidade de um governo ditatorial, é forçado a caçar terroristas.
Mais de uma dez depois, o ator subiu ao palco com “Just Call Me God”. Em cena, o artista encarna um ditador prestes a ser deposto, que pede aos espectadores que se lembrem dele porquê uma nume.
Também no teatro, interpretou um magnata inspirado por Harvey Weinstein, que usa seu poder para assediar uma atriz, subverteu a romantização da guerra ao montar “Arms and the Man” —que gerou revoltas em 2024— e retratou o Sacrifício com sua versão de “Leopoldstadt”, clássico de Tom Stoppard.
Agora, e com base em um capítulo de “A Literatura Nazista nas Américas”, livro de Bolaño que satiriza a manipulação ideológica, “The Infamous Ramírez Hoffman” une narração e orquestra para seguir um varão que tenta se aproveitar do golpe que depôs o ex-presidente chileno Salvador Allende.
“Sou atraído pela América do Sul por não ter desenvolvido lá”, afirma Malkovich. “Muitos insistem em separá-la da América do Setentrião, e segmento da história se esqueceu que ela também pertence ao ‘novo mundo’. É um lugar muito rico e cujos autores parecem ter criado outro planeta.”
Ele cita “Wild Horse Nine”, filme previsto para novembro em que seu personagem vai à Santiago, capital do Chile, em meio a tensões de 1973. É o mesmo período em que Hoffman, cujos feitos são narrados, tenta utilizar a arte para justificar a perseguição de opositores. Apesar de ter sido imortalizado porquê crítico da direita, Bolaño defendia que sua literatura não se restringia a um lado.
Malkovich reforça essa opinião e traça relações entre seu espetáculo e a informação contemporânea. “A peça certamente não está deslocada da atualidade. O extremismo está mais popular do que nunca e todos querem expressar seus sentimentos e ideologias. Estamos sendo tomados por decisões extremas.”
Numa era em que usuários são bombardeados por redes sociais, o ator ainda diz que a substituição do varão pela lucidez sintético seria uma espécie de derrame. É um receio que explica o hibridismo em que tem investido recentemente.
Ao dar perpetuidade a “The Music Critic” e “Their Master’s Voice”, peças em que suas interpretações são acompanhadas por músicas clássicas, ele descreve “The Infamous Ramírez Hoffman” porquê uma novidade coletânea de talentos exclusivamente humanos.
“As pessoas podem estar viciadas em seus celulares, mas prestam atenção se tiverem um bom motivo. Se eu falhar em dar a elas uma razão para estarem ali, dispostas a me ouvir, não posso culpar nenhum tipo de tecnologia. Tenho que fazer o meu melhor.”
Pronto para se apresentar com a pianista Anastasya Terenkova, o violinista Andrej Bielow e o bandoneonista Fabrizio Colombo, diz querer simbolizar toda a humanidade. “Espero que as pessoas percebam que, além de sociopata, Ramírez Hoffman é um desperdício de talento.”
“O talento não pertence ao seu possuinte. Ele deve ser compartilhado com todos que desejam apreciá-lo. Todos os artistas carregam essa responsabilidade.”
